10 momentos em que o rock brasileiro chutou o pau da barraca
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10 momentos em que o rock brasileiro chutou o pau da barraca

“Ninguém obriga uma banda de rock a fazer o que não quer”, me disse certa vez um diretor artístico famoso por “interferir” nas soluções de seus contratados. Por conta disso mesmo, histórias de embates entre artistas e suas companhias são comuns — estas, sempre buscando algo mais palatável comercialmente; aqueles, sempre obedecendo a regras misteriosas. Se rock é mais do que música é, ou deveria ser, assim mesmo. Abaixo estão dez exemplos de artistas e bandas que deram um drible no que o mercado e seus próprios fãs esperavam deles — alguns com resultados antológicos, outros amargando a incompreensão, mas todos lições preciosas sobre como não se acomodar.

Ronnie Von: ‘Ronnie Von’ (1969)

Em 1968, Ronnie Von, o poster boy de “A Praça”, o “príncipe” da mídia de celebridades brasileira, viu seus sonhos florescerem — mas pelas mãos de outras pessoas. Os Mutantes, os Beat Boys, a mistura de música brasileira com o novo rock inglês, uma visão mais universitária da cultura de massas, tudo isso era uma realidade, mas ele mesmo estava escanteado, como um personagem obsoleto dos tempos do iê-iê-iê. No final do ano, ele se meteu no estúdio com Arnaldo Saccomani (o guitarrista da banda psicodélica De Kalafe & A Turma) e com o maestro vanguardista Damiano Cozzela. O disco, surrealista, repleto de guitarras e experiências, só saiu no início de 1969, depois do AI-5 e da prisão de Caetano e Gil, e Ronnie continuou como um corpo estranho no pop brasileiro.

Raul Seixas: ‘Sociedade da Grã-ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez’ (1971)

Apesar de passar longe do sucesso popular, “Tropicália ou Panis et-Circensis” foi, por muito tempo, um modelo para discos coletivos no Brasil — dos quais, claro, “Clube da Esquina” foi o mais bem sucedido. Em 1971, Raul Seixas (então um respeitável produtor da CBS) exorcizou todos os iê-iê-iês românticos e convenções pop em um coletivo batizado de “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista”. Faziam parte da loucura, além do próprio Raul, Sergio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada. Se em sua carreira solo Raul sempre equilibrou a inventividade e a crítica com apelo popular, em “Sessão das Dez” não há freio nenhum. Raul e Sampaio eram os compositores, mas, com sua experiência no mercado, Raul liderava um conceito que buscava, segundo eles, “o caos e a desafinação” de forma obstinada, misturando tropicalismo, hippismo, Frank Zappa, sonoplastia e psicodelia. Foi mais um fracasso para Raul, que ainda esperaria um ano para deslanchar sua carreira solo.

Arnaldo Baptista: ‘Loki?’ (1974)

Um dos personagens mais respeitados do tropicalismo, Arnaldo Baptista deixou os Mutantes em 1973 insatisfeito com um regime no qual “o grupo parecia mais importante do que as pessoas”, segundo disse à época. Arnaldo poderia focar seu talento em esculpir canções intrigantes e grudentas, ou se cercar de colaboradores que o reverenciavam como um gênio, mas preferiu chamar seus dois colegas mutantes (Dinho e Liminha) para um disco pele-e-osso baseado no piano, gravado sem ensaios, em pouquíssimos takes em sessões tensas. Arnaldo havia perdido a namorada de sua juventude (Rita Lee) e a banda de sua juventude: estava no limite da depressão. “Loki?” é um dos discos mais tristes do rock e da música brasileira e um dos que melhor conseguiram registrar emoções à flor da pele. O álbum virou cult já na década de 1980, apesar de passar em nuvens brancas em sua época.

Tim Maia: ‘Racional’ (1975)

Além de seu talento monumental, nada mais era previsível em Tim Maia. Tudo podia acontecer a seu redor. Em 1974, ele se converteu a uma seita chamada Cultura Racional, uma mistura de espiritismo com ufologia, fundada 40 anos antes por um médium que, a partir de orientações do “Racional Superior”, escreveu mil livros e fascículos da série “Universo em Desencanto”. Tim parou com a bebida e com as drogas, rompeu com a sua gravadora, Philips, e passou a colocar sua música a serviço dos ensinamentos da Cultura Racional. Músicas nas quais ele vinha trabalhando (mesmo as parcerias) tiveram a letra mudada. Os músicos foram “convertidos” e os shows viraram grandes pregações. Tim Maia (aliás, “Tim Maia Racional”) gravou dois discos religiosos, retumbantes fracassos de público e crítica. Ao abandonar a seita, deixando um terceiro disco incompleto, o síndico destruiu os tapes. A fase Racional do cantor só foi redescoberta nos anos 1990, revelando o funk-soul lisérgico que acabou entrando nas listas de melhores álbuns de todos os tempos do pop brasileiro.

Fagner: ‘Orós’ (1977)

Em seus primeiros anos de carreira, Fagner estabeleceu um trânsito entre o circuito cult e o rock. Depois de ser gravado por Roberto Carlos (“Mucuripe”, que já havia sido gravada por Elis), a cotação de Fagner subiu. Trocou a brasileira Continental e assinou com a CBS com status de diretor-artístico. Em 1977, conseguiu orçamento para gravar seu aguardado segundo álbum pela companhia nos Estados Unidos. Desistiu quando conheceu pessoalmente Hermeto Pascoal, que reconheceu como o arranjador perfeito cobrir seu novo repertório (que tratava de suas memórias infantis e do universo interiorano) de sofisticação jazzista e abstrata. “Orós” interrompe o caminho de Fagner em direção ao pop num álbum conceitual, delirante, que não se parece com nada feito antes ou depois.

Os Paralamas do Sucesso: ‘Selvagem?’ (1986)

Filhos da new-wave e do revival do ska, os Paralamas do Sucesso haviam sofrido um upsize por conta do sucesso no Rock in Rio. Cheio de confiança (e apaixonados pelo Brasil que conheceram na turnê de “O Passo do Lui”) o espírito do trio se chocou com uma guinada ao “dark” do rock nacional, com bandas de tecnopop e sobretudo em Ipanema. A banda entrou em estúdio e saiu de lá com um manifesto em prol da chinelagem e pela simplicidade agreste que recolocou o rock brasileiro na trilha tropicalista de Zé Ramalho, Novos Baianos e Gilberto Gil. E, ao mesmo tempo, introduziu as influências africanas no período mais cinza do reinado do RPM.

Ira!: ‘Psicoacústica’ (1988)

Os angry young boys paulistas, que conseguiram chegar ao tema da novela das oito sem negociar suas idiossincrasias, estavam cheios de moral para gravar seu terceiro álbum. E cheios também da lendária maconha do navio Solana Star que lançou ao mar 22 toneladas da erva que eram traficadas para os Estados Unidos. O Ira! mirava em um álbum psicodélico e capsular, tecido em estúdio em camadas e camadas de efeitos e experimentos. Mas a banda vivia uma tensão musical: Nasi e André Jung estavam envolvidos com a cena hip-hop de São Paulo, usando samples e scratches; Edgard cada vez mais mergulhado no rock dos anos 1960. Àquela altura, a tensão era produtiva: “Psicoacústica” é o disco mais completo e maduro da carreira da banda, preservando o frescor de sua juventude com muita coesão e domínio de suas ferramentas. Soa impressionante até hoje.

Titãs: ‘Tudo Ao Mesmo Tempo Agora’ (1991)

Os Titãs eram uma unanimidade — “abençoados pelo público, pela crítica e pelo Caetano”, como brincou Sérgio Britto – vinda de dois discos sofisticados, em que ombreavam com o melhor do rock planetário (“Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” e “Õ Blésq Blom”). Fartos das programações eletrônicas e dobrada a esquina em direção aos anos 1990, o grupo decidiu gravar o disco na casa que Marcelo Fromer havia acabado de construir. Se autoproduziram. “Oito malucos solto no pasto”, depois admitiram. E foram beber no som de Seattle para emoldurar letras que falavam de sangue, pus, peido, evacuação — pelo menos não levaram adiante a ideia de fazer o álbum todo num idioma imaginário. “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” provocou uma inversão de expectativas brutal e foi muito mal recebido. Apesar do som menos-que-perfeito e de uma certa auto indulgência, o disco traz ideias muito boas e uma inquietação saudável que o coloca como parte da fase de ouro dos Titãs.

Jupiter Apple: ‘Plastic Soda’ (1999)

Flávio Basso já havia vivido seu primeiro sonho de rockstar com o grupo TNT e o segundo com Os Cascavelettes. Quando se transmutou em Júpiter Maçã e embarcou na viagem de uma música lisérgica brasileira no álbum “A Sétima Efervescência”, parecia destinado a pular do circuito indie para um novo primeiro time do rock nacional. Eram shows em festivais e temporadas disputadíssimas nas capitais, elogios da imprensa e do Caetano, convites (declinados) para programas globais. Tudo indicava que era a base firme para um segundo passo espetacular. Mas Júpiter virou Jupiter Apple: trocou as espertíssimas letras em português por devaneios em inglês, fissurou em Sergio Mendes e em instrumentos acústicos e saiu-se com o enigmático “Plastic Soda”, quase como um contrato com o underground, onde Flávio ficou até sua morte prematura, em 2015, aos 47 anos.

Los Hermanos: ‘Bloco do Eu Sozinho’ (2001)

“Anna Julia” foi o último super-mega-ultra-hit que uma banda de rock legou para o Brasil. Também foi a última vez que uma banda realmente popular chutou o pau da barraca. Com seus integrantes com pouco mais de 20 anos, os cariocas do Los Hermanos passaram a se estranhar com o sucesso adquirido, com os blocos de carnaval e as duplas sertanejas e os programas de calouro tocando sua música. Queriam usar o espaço adquirido para mostrar que eram mais do que um novo iê-iê-iê. Produzidos por Chico Neves, o grupo entrou em estúdio para um disco que queria a todo custo transparecer maturidade. A primeira versão do disco foi recusada pela gravadora. Marcelo Sussekind foi chamado para remixar o trabalho de forma mais “convencional”. A carreira do grupo praticamente recomeçou, em bases muito diferentes de “Anna Julia”. “Bloco Do Eu Sozinho” tem seus seguidores, mas é mais conhecido pela coragem com que foi concebido. De qualquer forma, rendeu à banda um punhado de grandes canções e a direção para aquele que já foi considerado o melhor álbum da sua geração, o “Ventura”.

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