17 shows, 2 tatuagens e muitos encontros: para fã, Nick Cave prova a existência da ‘lei da atração’
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17 shows, 2 tatuagens e muitos encontros: para fã, Nick Cave prova a existência da ‘lei da atração’

O senso comum diz que a paixão fanática por um ídolo costuma surgir durante a adolescência. Afinal, passar horas (ou dias) em filas, gastar as economias em ingressos de shows, correr atrás de um artista sem nenhuma garantia de reciprocidade – todas essas são atitudes que casam com a ideia da inconsequência juvenil. Esse amor de fã pode, porém, existir plenamente em um espectro mais maduro, como exemplifica Aline Batistella, secretária executiva de 36 anos que, em 2016, viu surgir uma inesperada admiração por Nick Cave.

“Eu era louca por Hanson na adolescência, e depois disso disse a mim mesma que não seria fanática por mais nenhuma banda”, conta Aline em entrevista ao Reverb. Tal convicção perdeu força depois que ela foi pela primeira vez a um show de Nick Cave and the Bad Seeds, em meados de 2017, na cidade de Toronto, Canadá. Desde então, assistiu a 17 apresentações do grupo, conseguiu alguns encontros com Cave e fez duas tatuagens em homenagem ao australiano. Para ela, a relação com a obra de Cave nesse período foi mais do que um querer platônico, e pode ser resumida nas palavras “gentileza” e “superação”. “Ainda que estivesse tentando melhorar, eu estava mal com diversas coisas que foram acontecendo na minha vida, uma em cima da outra. No final de 2016, cheguei a ir parar na UTI”, ela relembra. “Passei muito tempo da minha vida buscando algo para me inspirar, e naquele momento (em que passou a se aprofundar na obra de Cave) parecia que estava tudo alinhado, que tinha achado tudo que eu buscava há muito tempo e não sabia onde encontrar”.

Aline soube da existência de Cave por meio de outro ídolo, Johnny Cash, quando ouviu a versão do Homem de Preto para “The Mercy Seat”. Ela tinha por volta de 22 anos. Passou-se mais de uma década de uma admiração sem grandes arroubos, até que, no fim de 2016, o namorado dela fez planos de viajar para os Estados Unidos para ver shows do artista. “Ele tinha comprado ingressos para apresentações de junho de 2017 em Detroit e na Filadélfia. Quando fui olhar a data, vi que seria na véspera do aniversário do dia em que nos conhecemos”, relembra. A época dos shows batia com as férias de Aline. A secretária decidiu, então, fazer uma surpresa para o namorado, comprando ingressos para os mesmos shows. Porém, como as únicas certezas da vida são a morte e a Lei de Murphy, as coisas não saíram como planejado: um mês mais tarde, o casal se separou.

Depois de algumas dúvidas, ela resolveu manter a viagem, adicionando o show de Toronto ao roteiro. “Estava longe do palco, mas na hora em que o homem entrou, eu me arrepiei inteira. Acredito muito nessas coisas de energia, e com ele é bizarro. Fiquei pirada”, afirma. A vontade de continuar sentindo aquela sensação foi instantânea: depois de passar por Toronto, Detroit e Filadélfia, ela decidiu alugar um carro e ir de Nova York a Asheville (na Carolina do Norte) para ver mais um show da banda, no esquema de chegar na hora e sair correndo após o término para dirigir de volta até Nova York, chegando em cima do laço para pegar o voo de volta. Foram mais de 30 horas sem dormir (sendo cerca de 25 delas passadas ao volante) e 48 horas sem tomar banho, mas ela saiu de lá com os humores renovados.

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A música pode significar muita coisa para muita gente, mas é difícil negar que, para a maioria das pessoas, ela tem o poder de emocionar. Para Aline, esse sentimento faz parte da equação, mas há muitos outros “x” na conta. O mais importante deles talvez seja o fato de que a relação com a obra e com a figura de Nick Cave marcou uma virada na trajetória da paulistana. “A música vai estar sempre em primeiro lugar para mim, mas tudo isso aconteceu em um momento em que eu comecei a me desafiar, a perceber que a gente tem capacidade para outras coisas na vida além do que imagina”, diz. “Eu acho que às vezes nos limitamos muito. Mas acho que quando quando queremos muito uma coisa, temos a capacidade de realizar”.

Voltando ao Brasil, Aline tatuou um trecho da música “Far From Me” nas costas. Aproveitou para tirar o restante das férias em setembro daquele mesmo ano, 2017, e seguiu para o Reino Unido para mais quatro shows do ídolo. Tirou as passagens com milhas, com a ajuda do pai. “O primeiro show era em 24 de setembro, que já era uma data pessoal marcante pra mim. E quando eu estava conversando com o pessoal na fila, uma amiga que conheci no show de Toronto falou: ‘Ele vai lembrar de você’. Estava descrente, mas resolvi acreditar. Então, na hora que ele entrou, ficou me encarando muito. Olhando em retrospecto, acho que nem tem a ver com ele lembrar, tem a ver com aquilo de você querer tanto uma coisa que, de tanto você acreditar, essa coisa acontece”.

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Ela continua: “Naquela turnê, ele começava o show sentado e depois levantava. Quando levantou, veio direto na minha direção, e me deu a mão. Uma coisa ‘besta’, mas que pra mim foi muito especial. Agachou, pegou no meu queixo; na hora que deixou o pessoal subir ao palco, eu subi primeiro e ele me abraçou. Depois, o (multi-instrumentista) Warren Ellis me deu um beijo. Foi superespecial, mesmo”.

Não é só sobre Nick Cave. Você conseguir a assinatura de um músico que você ama nas suas costas, conseguir uma passagem de avião que tanto queria e que nunca aparece por aquele preço – isso também passa por você acreditar em si mesmo. Não é sorte. Acho que é você fazendo algo a seu favor

A partir daí, os encontros não pararam. Em maio de 2018, Aline viajou a Nova York para ver uma série de apresentações de Cave em um formato inusitado, nas quais além de cantar, ele abria espaço para os fãs fazerem perguntas. Aline esteve em três desses eventos, sendo que conseguiu fazer perguntas em dois deles (uma delas, sobre tecnologia, foi replicada no site da “Rolling Stone” norte-americana). No segundo show, ela teve outra interação marcante com o ídolo. “Estávamos esperando por ele após o evento. Quando apareceu, já foi dizendo que precisava ir. Eu não queria ser inconveniente, mas quando vi que todo mundo começou a pedir assinatura, só disse ‘Nick’ e virei de costas. Ele olhou e ficou uns segundos lendo, acho que ficou surpreso ao ver uma letra dele tatuada ali. E aí começou a assinar as minhas costas, bem devagar, com todo cuidado. E brincou: ‘Você não vai tatuar isso, né?’.” Já era madrugada, e Aline saiu de lá em busca de um estúdio de tatuagem aberto àquela hora. Ali, ela tinha não apenas as letras cravadas na mente – tinha a assinatura de Cave cravada na pele.

Pouco tempo depois, Nick Cave anunciou uma turnê pela América Latina, no último mês de outubro. Aline já tinha decidido sair da empresa onde trabalhou por mais de dez anos, a fim de tirar um período sabático. Foi a todos os shows, e começou um namoro com outro admirador de Cave, o londrino Chris (fã do músico desde 1987), em Buenos Aires. Em Santiago, conseguiu entregar um presente a Cave. Em Montevidéu, pediu a música “Come Into My Sleep” durante a passagem de som e foi atendida. Ainda conseguiu pegar o mesmo barco que Cave e os integrantes da The Bad Seeds no caminho de Montevidéu a Buenos Aires. Papeou com Warren Ellis na fila da alfândega e ajudou Cave a pedir um chá no café da sala de espera antes do embarque. Quando o atendente pareceu não entender o pedido de Cave, que dizia “tea (pronuncia-se ti)”, em inglês, Aline se aproximou e disse “é té”, mostrando a pronúncia em espanhol. “Ele olhou pra mim e falou ‘oooh, trouble (problema)”, ela recorda, rindo.

No Brasil, fora o encontro no palco do show em São Paulo, ela ainda conseguiu mais um “momento humano” com Cave, como ela mesma define. “Eu sabia em que hotel ele estava e, sem brincadeira, tinha umas coisas pra resolver na mesma região. Resolvi que não ia ficar no encalço, mas pensei ‘bom, já que preciso fazer essas coisas por aqui, vou deixar o carro na rua do hotel’. Na hora de ir embora, no minuto em que sentei no banco do motorista, passou um carro preto. Sabia que era ele. Falei ‘oi’ de dentro do meu carro, e ele gargalhou.”

De 2016 para cá, muita coisa mudou no modo como Aline encara a vida, com o empurrãozinho classudo das letras de Cave. “Hoje, acredito que, às vezes, com um pouco de amor no coração e persistência, você consegue alcançar as coisas que quer”, ela afirma. “Não é só sobre Nick Cave. Você conseguir a assinatura de um músico que você ama nas suas costas, conseguir uma passagem de avião que tanto queria e que nunca aparece por aquele preço que você encontrou – isso também passa por você acreditar em si mesmo. Não acho que é sorte. Acho que é você fazendo algo a seu favor”. Aline não precisou ler “O Segredo” para acreditar na chamada “lei da atração”. Bastou Nick Cave.

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