30 anos sem Raul Seixas: fãs de São Paulo homenageiam ídolo 'imortal' e mais atual do que nunca
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30 anos sem Raul Seixas: fãs de São Paulo homenageiam ídolo 'imortal' e mais atual do que nunca

A sociedade alternativa ainda não é uma realidade, mas a ideia continua viva no coração dos fãs de Raul Seixas (1945-1989). Eles se reuniram no centro de São Paulo na quarta-feira, 21 de agosto, como fazem anualmente, para homenagear o músico baiano, morto nessa mesma data há 10 mil anos atrás 30 anos.

O encontro dos admiradores do "maluco beleza" aconteceu em frente ao Theatro Municipal da capital paulista. De lá, eles saíram caminhando em direção à Praça da Sé, onde houve música e muita comemoração.

Em São Paulo, onde morou entre os anos 1981 e 1989, Raul viveu em diversos endereços, como na da Zona Sul da cidade, no Brooklin, e também em áreas mais nobres, como o bairro de Jardins, no Centro, e no Itaim Bibi, também na Zona Sul. Foi na cidade que ele faleceu em 1989, em decorrência de uma parada cardíaca causada por uma pancreatite aguda.

Fãs de Raul Seixas se reuniram na frente do Theatro Municipal de São Paulo para homenageá-lo/Reprodução
Fãs de Raul Seixas se reuniram na frente do Theatro Municipal de São Paulo para homenageá-lo/Reprodução

Apesar de celebrado como um dos grandes artistas do rock nacional, o músico baiano, falecido aos 44 anos, não tem tanta audiência nos serviços de streaming. Segundo uma reportagem do "G1", há mais de 30 álbuns de Raul disponíveis no Spotify — entre eles, 14 de seus 15 trabalhos de estúdio e algumas compilações de seus trabalhos.

Todo esse material, entretanto, atrai pouco mais de 940 mil ouvintes mensais na plataforma de streaming. Num ranking dos artistas do rock nacional que já faleceram, Raul é o quarto mais ouvido. Na frente dele, está Cazuza (mais de 1 milhão de streams), Legião Urbana (de Renato Russo, com 2,1 milhões) e Charlie Brown Jr. (de Chorão, com 2,3 milhões).

Se comparado aos artistas do rock nacional da nova geração, Raul continua atrás: Pitty, sua conterrânea, tem 1.3 milhão de streams, e o Detonautas, 1,1 milhão. Uma posição, no mínimo desconfortável. E um tanto surpreendente, considerando-se que, na última década, Raul teve o talento referendado por Bruce Springsteen, que se consagrou tocando "Sociedade Alternativa" em 2013, no Espaço das Américas. Antes, um grito de "Toca Raul" chegou a ecoar, em alto e bom som, durante show de Paul McCartney, em Londres, em 2010.

Raul Seixas e sua guitarra/Reprodução/Instagram
Raul Seixas e sua guitarra/Reprodução/Instagram

No YouTube, os números do artista baiano são um pouco melhores (118 milhões em 12 meses). Ele tem mais acessos que Cazuza (20 milhões), mas menos do que Charlie Brown Jr. (204 milhões) e Legião urbana (250 milhões).

"A garotada de hoje escuta música de uma maneira diferente. Mas, quando você para pra ouvir Raul, você realmente para pra ouvir. É um artista de obra, não de músicas circulando em playlists, que aumentam os números de streaming", observou Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas, ao "G1". "A música de Raul é hereditária, passada de pai para filho. Apesar de isso não se refletir nos números, reflete no dia a dia."

Por ocasião dos 30 anos da morte, em uma emissora de rádio jornalística, Raul Seixas foi citado como "grande perda para a MPB", expressão que o cantor baiano abominava. "Acredite que eu não tenho nada a ver/ Com a linha evolutiva da Música Popular Brasileira/ A única linha que eu conheço/ É a linha de empinar uma bandeira", está na letra gravada em "As Aventuras De Raul Seixas Na Cidade De Thor" (ao vivo ele cantava diferente a parte sobre "a única linha que eu conheço"). Como bem lembram os amigos do cantor, Raul chamava a bossa nova de "bosta nova", e fazia questão de, nos shows, durante "Aluga-Se", enquanto os músicos tocavam "Garota De Ipanema", meter a mão nos instrumentos e atrapalhar as "aranhas" — os acordes "complicados" — que estavam fazendo.

Raul Seixas morreu de pancreatite e passou boa parte dos anos 1980 bem isolado. Estava distante até da cena de grupos de rock: não prestou atenção à Legião Urbana, debochava dos Paralamas do Sucesso (que, em contrapartida, jamais deixaram de se derreter por ele) e relutou antes de aceitar trabalhar com Marcelo Nova, seu último parceiro, com quem tinha tanto em comum (começando pelo estado de nascimento — não vamos falar aqui em baianidade, né?). Só topou receber "esse menino", como se referia inicialmente a Marcelo, depois de um empurrãozinho da produtora Maria Juçá, do Circo Voador, e do guitarrista Rick Ferreira, seu fiel escudeiro.

Imortal é imortal: mesmo em suposto declínio no culto pós-óbito, Raul segue cada vez mais relevante. O próprio fato de ser menos tocado do que certas bandas combina com os versos superatuais de "Não Fosse O Cabral" (versão de "Slippin' And Slidin", do repertório de Little Richard), lançada em 1983, já nos anos de declínio: “E dá-lhe ignorância/ Em toda circunstância/ Não tenho de que me orgulhar/ Nós não temos história/ É uma vida sem vitórias/ Eu duvido que isso vai mudar". Um pessimismo tão forte assim só pode ser transformador. Chamemos o Raul!

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