50 anos do fim dos Beatles — ou seriam 40? A década nada perdida pós-separação de John, Paul, George e Ringo
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50 anos do fim dos Beatles — ou seriam 40? A década nada perdida pós-separação de John, Paul, George e Ringo

Em 9 de abril de 1970, um release chegou às redações dos jornais ingleses com uma entrevista de Paul McCartney, com duas perguntas sobre os Beatles: "Você planeja novo álbum ou single com os Beatles?" e "Você prevê um retorno da parceria Lennon-McCartney?". "Não", respondeu a ambas. "Paul sai dos Beatles", estampou o "Daily Mirror" em 10 de abril, há 50 anos. Só que nos 10 anos que se seguiram, Paul, George Harrison, John Lennon e Ringo Starr ainda se encontraram muitas vezes. "Os Beatles não acabam aí. A esperança de voltarem sempre existiu e eles fizeram várias coisas juntos até a morte de Lennon em 1980", observa Ricardo Pugialli, escritor e estudioso do quarteto de Liverpool. Brincando com a piada do português da padaria e a frase "tem mas acabou", seria um caso de... o sonho acabou, mas continuou "tendo".

Em "The Beatles 1970-80", seu mais recente livro, lançado em 2019, Ricardo fala justamente dessa produção que aconteceu nos anos após a separação que, salienta, não foi nem de longe causada por Yoko Ono, como muitos pensam.O livro inspirou também uma playlist acessível no Spotify, montada pelo site Beatlelogias.

Ricardo Pugialli e seu livro. Foto: Divulgação
Ricardo Pugialli e seu livro. Foto: Divulgação

Ricardo conta que começou a escrever "The Beatles 1970-80", em 2017, mas uma depressão profunda — ele perdeu, em intervalo de poucos meses, a mãe, o pai e o irmão — o fez parar o projeto. "Já havia levantado um valor bom no crowdfunding e tinha escrito o primeiro capitulo quando interrompi. No meio de 2018 peguei de volta para valer e em seis meses estava pronto", conta ele, que começou a pesquisar sobre os Beatles ainda adolescente, guardando recortes de jornais e revistas.

O autor acha que ainda há muitas informações inéditas sobre o quarteto por aí. "Outro dia descobri que tinha ido a leilão uma guitarra sem trastes Black Widow que usaram no 'Álbum Branco', isso através de um áudio do Lennon", conta ele que, entre as amizades que fez em tantos anos de dedicação ao quarteto, estava George Martin (1926-2016). "Ele fez o prefácio do meu livro 'Beatlemania', a gente mantinha contato por fax e cartas. Das vezes que fui à Inglaterra, eu levei meus livros para ele e ele me indicava várias entrevistas. Uma até publiquei no último livro, um verdadeiro bate-boca entre ele e Lennon em 1973", destaca.

No final de 1968, Ricardo lembra que eles estavam com a ideia de fazer um show nos moldes do "The Rolling Stones Rock and Roll Circus", de que Lennon havia participado. "Pensaram na Roadhouse, em Londres, depois em outros lugares, e a última maluquice era que seria na Tunísia, em um anfiteatro em ruínas, onde começariam a tocar e, ao entardecer, fãs de todas as etnias iriam chegando e ocupando o espaço", conta o escritor, que é especialista em instrumentos e discos dos Beatles lançados pelo mundo e colabora com o Museu de Instrumentos dos Beatles do Paraguai.

Em meio a essa discussão do show, outra bem mais séria se formava. Até então, George vinha participando do repertório dos discos de forma pontual, mas ele já contava com um material numeroso e muito bom e, claro, queria ter uma parcela maior nas faixas. Só que os egos de Paul e John, que até então eram os competidores, barravam suas chances. George então decide sair, dizendo que só voltaria se cancelassem o tal show e gravassem em outro estúdio, Abbey Road.

John, George e Paul em 1968. Foto: Getty Images
John, George e Paul em 1968. Foto: Getty Images

Mais desavenças surgiram quando John avisou que sairia em setembro de 1969, algo que foi mantido entre eles. Em 1970, eles assinaram um novo contrato que dava mais direitos autorais só que, junto, veio o empresário Allen Klein (1931-2009). "Paul não gostava dele, pois sabia que ele tinha dado um jeito de ficar com os direitos dos Rolling Stones. Além disso, ele já havia começado seu disco solo. Até então, Ringo, George e John, com Yoko, já haviam lançado solos, ninguém ligou, mas um solo de Paul metia medo. Ele não gostou nada de terem chegado e falado que ele não poderia lançar seu disco antes do 'Let It Be', foi quando fez a tal entrevista falsa — ele mesmo escreveu as perguntas e respostas - e mandou para os jornais. O resultado foi a manchete do 'Daily Mirror' anunciando o fim da banda", diz Ricardo.

O escritor ressalta que a presença de Yoko não tem nada a ver com a separação. "A Linda McCartney estava sempre presente também. Acho que Yoko ficava mais por perto para segurar a onda dele, que estava sempre chapado de heroína. Eu vejo 'Oh, Darling' como resposta a 'Don't Let Me Down', quando Paul sentia que estava perdendo o amigo", opina.

John Lennon e Yoko Ono em 1975. Foto: Getty Images
John Lennon e Yoko Ono em 1975. Foto: Getty Images

Chamando a atenção para que "Abbey Road" é o real último disco dos Beatles em que gravaram juntos, e que "Let It Be" foi o último lançado, Ricardo diz que sempre houve uma esperança de que eles se reuniriam novamente. "Eles continuaram gravando uns nos discos dos outros. Só que teve o processo de Paul contra os três que, na época, não entenderam. Na verdade, se o império Beatles existe, é graças a Paul, que teve a visão de tirar o controle das mãos de Allen Klein. Ele tinha que encerrar a empresa para seguir adiante", lembra.

Quando os três caíram em si e perceberam a verdadeira intenção de Paul — principalmente John e George, que foram prejudicados pelo empresário — teoricamente abriu-se uma brecha para uma nova reunião. "Foi quando John resolveu se retirar da vida pública para dar atenção ao filho Sean, afinal, Yoko já havia perdido duas crianças".

Nos dez anos que se seguiram até o assassinato de John, eles se encontraram várias vezes. Ricardo destaca dez desses momentos:

1) 'It Don't Come Easy'

"A canção escrita por Ringo Starr e George Harrison foi creditada só a Ringo. George também produziu a gravação, que foi lançada como single em abril de 1971. Há uma outra versão em que eles tocam juntos, a do Concerto para Bangladesh, no mesmo ano."

2) 'Imagine'

"George fez uma participação maravilhosa no disco de John tocando guitarra em três músicas que considero seminais: 'Love', 'Gimme Some Truth' e 'How Do You Sleep'."

3) 'John Lennon/Plastic Ono Band'

"O álbum, lançado em dezembro de 1970, traz um verdadeiro power trio formado por John, Ringo e Klaus Voormann. Ainda contou com Phil Spector e Billy Preston nos pianos. Eric Clapton diz que John fez a guitarra falar na faixa 'I Found Out'."

4) 'Ringo'

"É o disco com a famosa participação de todos os Beatles — Ringo, como sempre, juntando todo mundo. Lançado em 1973, Paul só não esteve junto no estúdio porque estava sem visto para entrar nos Estados Unidos. A faixa 'I Am The Greatest' tem John no piano e vocal de fundo, George na guitarra, Ringo na bateria e Klaus no baixo. A gravação foi o mais próximo do que se teve de uma formação dos Beatles nos anos 1970."

5) 'You're Sixteen' e 'Six O'Clock'

"Se Paul não conseguiu ir aos Estados Unidos, Ringo foi à Inglaterra gravar com ele. Ele fez vocais e tocou pianos e sintetizadores nas duas faixas ("Six O' Clock" é de Paul e Linda)."

6) 'Goodnight Vienna'

"O álbum seguinte de Ringo teve a participação apenas de John, que compôs aquela que se tornou a faixa título. Ele também participou tocando piano e sugeriu que Ringo gravasse 'Only You (And You Alone)', do The Platters — as duas faixas foram produzidas por ele."

7) TV e baseadinhos para as visitas

"Sem dúvida que ótimos momentos nesses dez anos eram as visitas de Paul a John no edifício Dakota. Eles passavam tardes queimando seus baseados e assistindo TV."

Paul McCartney e John Lennon. Foto: Getty Images
Paul McCartney e John Lennon. Foto: Getty Images

8) Pandemônio entre parças

"No famigerado 'fim de semana perdido' ('lost weekend', na expressão original, derivada do filme homônimo de Billy Wilder de 1945, que mostra a vida de um escritor alcoólatra) de John, que acabou durando nove meses, a casa em Los Angeles era um verdadeiro pandemônio. Paul esteve lá duas vezes pelo menos e há fotos deles com Ringo fazendo a maior festa. Infelizmente George estava na Inglaterra na época, se não certamente teria participado também."

Ringo, John e Paul: festa no fim de semana perdido. Foto: Getty Images
Ringo, John e Paul: festa no fim de semana perdido. Foto: Getty Images

9) Harry Nilsson, 'soulmate' de copo

"Em 1973, o Nilsson (1941-1994, muito admirado como compositor, mas famoso por suas gravações como intérprete de 'Everybody's Talking' e 'Without You') e John se encontraram na Califórnia ereacenderam sua amizade anterior. John ia começar a produzir o próximo álbum de Nilsson. No intervalo entre uma bebedeira e outra, eles iam para o estúdio. Em uma dessas ocasiões, Stevie Wonder e Paul estavam no local e há uma gravação deles fazendo um monte de palhaçadas."

Harry Nilsson e John Lennon: bebedeiras. Foto: Getty Images
Harry Nilsson e John Lennon: bebedeiras. Foto: Getty Images

10) 'Venus And Mars'

"Estava tudo certo para Paul e John gravarem juntos, em New Orleans, o álbum 'Venus And Mars' em 1975. Só que coincidiu com a confusão das brigas contratuais e sumiço de gravações dos álbuns 'Roots' e 'Rock 'n' Roll', que John teve que resolver. Além disso, ele e Yoko reataram. Paul lançou o álbum no mesmo ano com o Wings."

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