A década em que a música evaporou: os 20 melhores álbuns do rock e do rap nacional
Na BR-3

A década em que a música evaporou: os 20 melhores álbuns do rock e do rap nacional

Se você assistiu ao documentário “All Things Must Pass”, que conta a história da rede de lojas Tower Records, deve ter notado como a plataforma mais ou menos determina a música, ou o norte musical, de seu período. Quando reinavam os singles nas prateleiras das lojas, o tipo de música que reinava era o de apelo imediato, refrãos grudentos fosse “I Want To Hold Your Hand” na Inglaterra, “Surfin’ USA” nos Estados Unidos ou “É Proibido Fumar” no Brasil.

A era dos álbuns começou em 1966 e determinou uma fase em que a música passou a ser levada a sério e os discos viraram peças de arte. Os anos 1980 ganharam o impulso da MTV e os 1990 a coexistência dos “clássicos” com os novatos nas prateleiras graças ao CD que nos obrigou a comprar todos os discos de novo.

Com as diferenças entre eras e eras, uma coisa todos tinham em comum: o público comprava a música. Como dizia Paul McCartney, o hit parade era “sobre a economia das pessoas” que optavam por comprar um single em vez de um Big Mac ou um álbum em vez de uma camisa da moda.

Nos anos 2010, a coisa mudou. A relação do fã com a música deixou de ser uma questão do compromisso que você assumia com 3 minutos de música ou com 40 minutos de música ou com o compromisso com os dois ou três CDs que você comprava no mês e se tornou uma questão de compromisso nenhum. As músicas estão à disposição o tempo todo, em todo lugar, e a tecla que mais usamos é a “skip”, pra pular entre uma canção e outra.

Cartaz da turnê nostálgica de Los Hermanos em 2019/Reprodução
Cartaz da turnê nostálgica de Los Hermanos em 2019/Reprodução

Recomendo a leitura do texto “Música não movimenta mais o mercado, e sim a figura do artista”, que Thales de Menezes escreveu para a Folha. Ele está se referindo ao mercado da música, surpresa, que, ao longo da década de 2010 viu desacoplar de seu corpo o suporte físico, a comunicação de massa, o hit parade até desacoplar a própria música.

Não é de se admirar que na lista dos melhores álbuns da década da coluna Na BR-3 não haja sombra de gente surgida no século 20. Porque o ambiente da música dos anos 2010, especialmente o que guarda algum parentesco com o rock, é ingrato demais para quem já viveu tempos de grandes contratos, shows em ginásios e espaços na programação da Globo. Um universo de música sem música, sucesso medido em likes, sucesso restrito a nichos, sem suporte físico, sem MTV e com FMs tocando eternamente a mesma “Californication” de 20 anos atrás, parece um cenário distópico de ficção científica. Pela primeira vez, tivemos uma renovação completa do cenário – e pode apostar que não foi por gentileza dos veteranos.

Parece simbólico que a maior banda de rock brasileiro da década, a única capaz de lotar o Allianz Parque e o Maracanã na mesma turnê, tenha lançado UMA música apenas nos últimos anos, tenha se revestido de nostalgia e aplicado o já clássico truque das turnês periódicas de reunião. O Los Hermanos é cara da década em que a música evaporou.

Com tudo isso, não foi nada difícil reunir 20 álbuns que representam muito bem a música que rompeu o silêncio durante os anos 2010 no pop-rock brasileiro. Poderia ter chegado fácil aos 30, mas tentei ser o mais variado possível (por isso não repeti artistas) e olhar para a lista com os olhos de quem a revisitasse do futuro. Confira abaixo e, no final, acesse a playlist com o melhor de cada um dos 20 álbuns:

Marcelo Jeneci – 'Feito pra Acabar' (2010)

O povo com diploma universitário adora pensar que a carpintaria pop é apenas uma questão de condescendência. Mas FAZER pop, com dignidade, inventividade e autoridade, é para poucos. Jeneci foi um desses abençoados nos anos 2010.

Bixiga 70 – 'Bixiga 70' (2011)

O afrobeat estava predestinado a virar o samba-rock da década (o som favorito dos hipsters e “faria limers”) mas o Bixiga 70 veio reverter esse inglório destino com doses de psicodelia e nível internacional.

Criolo – 'Nó na Orelha' (2011)

A verdade é que a expectativa criada por Criolo com "Nó na Orelha" nunca chegou a se cumprir totalmente, mas o impacto desse álbum alterou o rumo do rap nacional para sempre – e para muito melhor.

Boogarins – 'As Plantas que Curam' (2013)

A psicodelia goiana dos meninos do Boogarins provou que quando a música está além da compreensão do próprio criador, fica mais fácil de ser compreendida (ou não) pelo mundo inteiro.

Apanhador Só – ‘Antes que Tu Conte Outra’ (2013)

O quinteto gaúcho, e sua música, foi “cancelado” pela patrulha da internet depois que um de seus integrantes foi denunciado pela namorada por conta de um relacionamento abusivo. Você não vai ver “Antes Que Tu Conte Outra” nas outras listas de melhores dos anos 2010, mas seguramente vai encontrá-lo daqui a 20 anos nos compêndios de tesouros perdidos e injustiçados do rock brasileiro.

Felipe Cordeiro – ‘Se Apaixone pela Loucura de Seu Amor’ (2013)

Foi só nos anos 2010 que o carimbó e a guitarrada emergiram definitivamente como força pop no sudeste, com direito a uma estrela televisiva (Gaby Amarantos) e um nome roots com trânsito entre a tradição e o circuito indie, como Felipe Cordeiro.

Juçara Marçal – ‘Encarnado’ (2014)

Em uma década dividida entre os que buscavam o pop e os que buscavam o choque, Juçara trouxe uma pedrada musical recheada de canções redondas e melódicas revestidas dos arranjos noise e guitarras dissonantes

Far from Alaska – ‘Mode Human’ (2014)

A pretensão era alta (como a própria banda admitiria depois): uma viagem conceitual embalada num rock pesadíssimo, moderno com vocais femininos e capacidade de realização em pé de igualdade com o que se fazia no mundo. Se conseguiram ou não, se houve esgotamento emocional ou não, o fato é que o fruto do exercício compensou.

Silva – ‘Vista pro Mar’ (2014)

Ao longo da década, Silva foi trocando o difícil equilíbrio entre o synthpop radiofônico e a estranheza elegante por um baralho mais fácil de cartas marcadas (que incluiu tributo aos grandes da MPB e uma senha na longa fila de duetos com Anitta). Em ‘Vista pro Mar’, seu segundo álbum, a tensão está no ponto perfeito, e ainda por ser descoberta por seu público crescente.

Ventre – ‘Ventre’ (2015)

Nos anos 2010, achar uma banda que R-O-C-K que se assumisse como tal e fosse identificada como tal era o mesmo que procurar música desimportante, caricatural e datada. Os cariocas do Ventre foram uma das gloriosas exceções. Talvez tenha sido nossa melhor banda grunge, se é que eles concordariam com o rótulo.

BaianaSystem – ‘Duas Cidades’ (2016)

Aqui chegamos no provável maior nome da década, uma saque autorizado do carnaval baiano em cima do mangue beat, do tropicalismo em cima do samba reggae, do afrobeat em cima do rock, sensual, politizado, esperto e alto astral.

Bruno Souto – ‘Forte’ (2016)

Indie, branco e nordestino, em impressionante viagem adulta, nova-iorquina e soul, o segundo álbum solo de Bruno Souto mantém seu interesse pela composição pop perfeita, mas adiciona um insuspeito manto black.

Céu – ‘Tropix’ (2016)

Céu entregou ótimos discos ao longo de toda a década, mas ‘Tropix’, lançado em um momento particularmente sombrio do Brasil, talvez tenha sido o que mais apontou um caminho possível para o país.

Mahmundi – ‘Mahmundi’ (2016)

Mahmundi aprendeu todas as lições de Marina Lima e a elas adicionou um toque soul/synth e uma manha pop que abriu espaço para uma carreira que ainda tem muito a render.

O Terno – ‘Melhor do Que Parece’ (2016)

O pressuposto era difícil de realizar: ser um power trio na tradição do rock psicodélico dos anos 60 e não soar nostálgico; ser inventivo e dialogar com o público da faixa dos 20-30 anos. Eu acho que eles conseguiram – e conseguiram algumas vezes, com destaque para o álbum ‘Melhor do que Parece’.

The Baggios – ‘Brutown’ (2016)

O rock do agreste nordestino dos anos 70 encontra com o blues do deserto do Saara dos anos 2010. Uma das bandas indispensáveis do rock nacional atual.

Rincon Sapiência – ‘Galanga Livre’ (2017)

Depois de ter se deixado seduzir por uma promessa de flerte com o mainstream, Rincon Sapiência voltou soltando fogo pelas ventas. Um dos álbuns mais furiosos e requintados do rap brasileiro.

Scalene – ‘Magnetite’ (2017)

Poucas bandas brasileiras ousaram trazer o rock de guitarras para os dias de hoje quanto os brasilienses do Scalene. No caminho, flertaram com a música eletrônica e, em ‘Magnetite’, com as harmonias e climas da música brasileira.

Paula Santisteban – ‘Paula Santisteban’ (2018)

A última produção de Carlos Eduardo Miranda, um dos mentores do rock nacional pós-1990, é uma artista que paira sobre rótulos e classificações, entre a melancolia e a esperança, entre o suave e o intenso num álbum sublime do início ao fim.

Emicida – ‘AmarElo’ (2019)

Um atestado de maturidade do rap brasileiro, uma carta de fé no povo brasileiro e no Brasil, um álbum que vai ser ouvido no futuro como uma espécie de bunker contra a explosão de ódio e intolerância do final dos anos 2010.

Siga a Playlist da coluna NA BR-3 no Spotify

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest