A deliciosa loucura criativa de Jorge Ben Jor
Especial

A deliciosa loucura criativa de Jorge Ben Jor

Publicidade

Se a mistura de estilos e ritmos é valor central na música popular do Brasil, é justo enxergar Jorge Ben Jor como um verdadeiro super-herói. Não é por acaso que Gilberto Gil, outro desses heróis maiores, considerou deixar de compor após ouvir o disco de estreia de Jorge, o celebrado “Samba Esquema Novo”, de 1961. Estava, afinal, tudo lá: a revolução estilística da bossa nova já devidamente atualizada e reprocessada em algo mais moderno, mais radical e ainda mais brasileiro. Ninguém menos que Gilberto Gil achou que não precisaria mais contribuir com a música brasileira diante do que havia feito e viria a fazer Jorge Ben.   

Tudo isso, porém, não passaria de uma bula técnica e conceitual se Jorge Ben não processasse tais elementos feito o alquimista que de fato é, com um talento descomunal para criar canções deliciosas e inesquecíveis com inteligência, charme, balanço e singularidade. Pois se em uma primeira leitura os elementos que formam o universo das canções de Ben podem ser vistos como clichês da identidade nacional — samba, Flamengo, futebol, mulher  —, em um olhar minimamente mais sensível torna-se evidente que só um compositor raro seria capaz de tornar tais signos óbvios em algo memorável e único. 

Os elementos que formam o universo das canções de Ben podem ser vistos como clichês da identidade nacional — samba, Flamengo, futebol, mulher  — mas um olhar minimamente mais sensível torna evidente que só um compositor raro seria capaz de tornar tais signos óbvios em algo memorável e único

Acontece que, em meio ao sucesso acachapante da Bossa Nova e em seguida da Jovem Guarda, Ben trazia elementos que o deslocavam radicalmente de tudo que acontecia na música brasileira no início dos anos 1960. Afirmava-se nele também a cultura negra, não só como tema de canções, mas na própria mistura de estilos. Diante de uma bossa e de um rock majoritariamente brancos, Ben se deixou influenciar para criar uma música ainda mais moderna e radical, que rapidamente se misturaria com o soul e o funk para formar seu próprio estilo, um triunfo da música brasileira que se afirmaria ao longo da década junto principalmente de Tim Maia e do próprio Gil – que, para a saúde e a felicidade de todos, jamais deixou de compor. 

Olhar para seus grandes clássicos, como “Chove Chuva”, “Zumbi”, “País Tropical”, “Jorge da Capadócia”, “Taj Mahal”, “Que Pena” e “Que Maravilha” é se ver diante de um dos mais singulares arquitetos da música brasileira, que ajudaram a elevar a grandeza da musicalidade e da identidade brasileira ao topo. Mas há outro elemento que parece mais apuradamente definir o que faz de Jorge Ben o compositor que é: a loucura criativa. Há um componente aparentemente aleatório, uma sucessão de escolhas inusitadas, um sem-fim de temas e pontos de vista inesperados e personagens excêntricos ou histórias exóticas – e tudo isso com muito humor e sátira, e nada é mais difícil do que fazer bem e com sucesso uma música com humor - que parece ainda mais formar a obra de Jorge Ben em sua singularidade. 

Basta notar canções como “O Circo Chegou”, “O Homem da Gravata Florida”, “Os Alquimistas Estão Chegando”, “O Namorado da Viúva”, “Meus Filhos Meu Tesouro”, “O Filósofo”, “Spirogyra”, “Rita Jeep” e tantas, tantas outras para perceber quantos novos patamares criativos foram fundados e explorados por Jorge – e, com um pouco de pesquisa, se espantar que a maioria dessas ditas loucuras é baseada em personagens reais, históricos ou mitológicos, traduzidos à simplicidade de uma canção popular com a genialidade de um poeta profundo. 

Picasso dizia que havia levado quatro anos para pintar como o mestre Rafael mas uma vida inteira para pintar como uma criança. Há da mesma forma em Jorge Ben um aspecto infantil que faz da sua música ao mesmo tempo emocional e completamente maluca, criativa e única, explosiva, excitante e simples. E não só pelas letras: os maneirismos com que quebra palavras, repete sílabas e insere ritmos e divisões quando canta fazem das canções verdadeiras brincadeiras inesquecíveis, como cantigas de adulto. Jorge destila olhares absolutamente peculiares sobre aspectos supostamente mundanos, que em suas mãos são transformados em epopeias – as religiões africanas, um gol no maracanã, uma moça que passa ou o ato de dançar. 

É como se a obra de Jorge Ben fosse uma estranha, divertida e profunda sessão de terapia com nosso sentido nacional, em que as questões que formam nossa identidade, nossa religiosidade, nosso desejo, nossas loucuras, nosso amor, são trazidas à tona com profundidade e franqueza, despidas, para serem sentidas, dançadas e cantadas. São investigações de quem somos enquanto concidadãos e enquanto pessoas que cantam e dançam, escondidas em canções de quatro minutos que necessariamente nos levam além - e à alegria. 

Publicidade

Background

Relacionados

Canais Especiais