K-pop: um universo onde ser gay assumido ainda é visto com reservas
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K-pop: um universo onde ser gay assumido ainda é visto com reservas

Em programas de TV, não é incomum ver astros masculinos de k-pop em brincadeiras que terminam em um selinho ou em beijos supostamente acidentais. Exemplo: dois rapazes mordiscando extremidades do mesmo bastão longo de chocolate. À medida que o doce fica menor, eles se aproximam até os lábios "se chocarem". Na indústria do entretenimento da Coreia do Sul, isso faz parte do show, conforme reportagem da "CNN".

Mas a homofobia ainda é comum no país: pouquíssimas estrelas locais da música são assumidamente gays. Não há leis antidiscriminação abrangentes para proteger os sul-coreanos LGBTQ. A aceitação de casais do mesmo sexo é bem menor do que no Japão e em Taiwan.

A cantora Sunmi disse que era uma "rainha LGBT", declaração que tratou de explicar melhor, dizendo que não se identificava como LGBT. Foto: Getty Images
A cantora Sunmi disse que era uma "rainha LGBT", declaração que tratou de explicar melhor, dizendo que não se identificava como LGBT. Foto: Getty Images

Taiwan já legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, embora o Japão não tenha feito o mesmo, algumas cidades emitem certificados de parceria entre pessoas do mesmo sexo. Uma opção inexistente na Coreia do Sul. Lá, o sexo homossexual não é proibido; elé ilegal nas forças armadas, onde quase todos os homens devem passar por um período de recrutamento obrigatório.

Mas ídolos do k-pop do mesmo sexo costumam simular ceninhas de sedução e dançam com olhos fixos nos do outro. Nos videoclipes, não é incomum vê-los em jogos que resultam em um roçar de lábios seguido de um afastamento estratégico, para mostrar que tudo era apenas brincadeira.

Essa aparente contradição não é casual. Embora as grandes gravadoras tenham medo de deixar as estrelas falarem sobre sua sexualidade por medo de prejudicar as carreiras, elas permitem — e às vezes incentivam — que se toquem em público.

"É meio triste", disse Jungmin Kwon, acadêmica que escreveu o livro "Straight Korean Female Fans and Their Gay Fantasies". "Por um lado, parece que a indústria tem uma mente muito aberta à cultura do 'shippar'. Por outro, eles não são muito... Se você sair do armário, seus fãs ficarão tão furiosos", disse ela à CNN, referindo-se à cultura entre os fãs de imaginar relações entre suas estrelas favoritas — incluindo as gays.

Durante décadas, a Coreia do Sul esteve sob domínio militar. Só em 1993, quando foi eleito o primeiro presidente civil, o país inaugurou uma nova era de crescimento nas áreas econômica, tecnológica e no setor de entretenimento — incluindo os primeiros ídolos do k-pop.

Os adolescentes sempre tiveram fome de consumir tudo sobre seus ídolos. Mas era um tempo antes da mídia social, então não se sabia tanto sobre as vidas dos artistas. Então, os fãs se tornaram criativos. Segundo Kwon, eles foram inspirados pelo "yaoi" — um tipo de mangá japonês que apresenta relações gays entre casais do sexo masculino — e começaram a inventar histórias sobre suas estrelas favoritas. Mas, em vez de desenhar, eles escreveram histórias, bastante compartilhadas ainda na era da internet discada.

As histórias geralmente mostravam romance entre estrelas do mesmo sexo. Kwon disse que existem vários motivos para isso. Os fãs consideravam seus ídolos inatingíveis, então, em sua imaginação, os combinava com colegas de grupo.

Yaoi: mangás que mostram relações gays entre homens. Foto: Reprodução
Yaoi: mangás que mostram relações gays entre homens. Foto: Reprodução

Com a queda na venda de discos físicos nos anos 2000, as gravadoras da Coreia do Sul perceberam que não podiam se concentrar apenas na música para faturar em cima dos ídolos locais.

Como parte significativa das fan fictions envolvia romances entre pessoas do mesmo sexo, uma das maiores empresas de entretenimento do país, a SM Entertainment, começou a incentivar suas estrelas a fazer "skinship"— tocar em partes do corpo de companheiros de banda, segundo Kwon.

Mesmo atualmente, as gravadoras de k-pop às vezes cultivam o apelo homoerótico dos ídolos na esperança de torná-los mais populares na fan fictions, onde Kwon estima que 80% são de histórias gays. Algo que pode se traduzir em benefícios econômicos.

As gravadoras acham tranquilo os fãs fantasiarem sobre os ídolos serem gays. Mas não querem que os ídolos gays assumam sua sexualidade. Isso foi algo que o astro Holland percebeu de cara.

Holland — cujo nome verdadeiro é Go Tae-seob — tem 23 anos passou por um treinamento rigoroso com uma gravadora, que ele não revelou o nome. Mas quando chegou a hora de ser lançado, a gravadora foi contra ele estrear como um artista gay. "Eles disseram que seria ruim para a minha imagem", disse Holland à CNN. O que foi decisivo, pois depois de sofrer bullying no ensino médio, era importante para ele ser aberto sobre sua sexualidade. Então ele saiu do selo e estreou como um artista independente.

Holland saiu da gravadora e estreou como artista independente. Foto: Reprodução Instagram
Holland saiu da gravadora e estreou como artista independente. Foto: Reprodução Instagram

"Eu queria provar que sou digno de amor e que sou digno de alcançar o que quero e me sentir realizado", disse ele. "Eu senti que assim era a única maneira de me amar", completou.

As estrelas do k-pop geralmente estão sujeitas a regras rígidas - muitas não têm permissão para namorar publicamente, pois as gravadoras temem que qualquer relacionamento faça com que os artistas percam sua mística entre os fãs. Para os principais selos, as relações públicas entre pessoas do mesmo sexo parecem estar fora de questão.

Nesse contexto, Holland trouxe uma grande ruptura com a tradição. Quando estreou em 2018, ele teve uma ótima recepção no exterior, mas na Coreia do Sul, a reação foi abafada - ou até negativa.

No entanto, Holland permaneceu determinado a fazer uma declaração. Enquanto filmava o videoclipe de seu primeiro single "Neverland", o diretor disse a ele que haveria uma classificação acima de 19 anos na Coreia do Sul se o clipe mostrasse alguma carícia entre o mesmo sexo.

Então Holland decidiu incluir uma cena em que ele beija um homem para levantar o questionamento entre o público: por que um beijo entre dois homens merecia uma classificação explícita e um beijo entre um homem e uma mulher não?

Ele acha triste quando alguns programas fazem as estrelas se beijarem. "Eles transformam em uma situação cômica que acaba por constrangê-los. É uma pena que seja o limite que eles podem atingir quando se trata de mostrar interação homossexual — algo que só pode ser retratado como engraçado", disse Holland.

Na Coreia do Sul, a decisão de Holland em se assumir como gay é incomum. Para muitas celebridades, o caso do apresentador de TV Hong Seok-cheon ainda pesa. Ele foi demitido depois de se assumir gay em 2000.

O apresentador Hong Seok-cheon foi demitido depois de se anunciar publicamente que é gay. Foto: Getty Images
O apresentador Hong Seok-cheon foi demitido depois de se anunciar publicamente que é gay. Foto: Getty Images

Timothy Rich, professor do Departamento de Ciência Política da Western Kentucky University, disse que qualquer empresa ou celebridade ficaria preocupada com a reação potencial e o risco financeiro. "No clima atual, eu suspeito que haveria uma reação conservadora considerável a qualquer artista que resolvesse assumir sua homossexualidade, possivelmente resultando em boicotes", disse ele à CNN.

Mas há razões para pensar que as coisas podem mudar. À medida que o alcance internacional do k-pop cresce, o próprio gênero vai mudando. Na Coreia do Sul, a interação entre estrelas é vista sob uma lente diferente — os fãs a veem como fantasia, e também há uma cultura de achar comum amigos se tocarem. Mas internacionalmente, os fãs de k-pop vêem interações estreitas entre as estrelas como evidência de relacionamentos genuínos, e desejam confirmar isso.

Holland acha que mais artistas parecem indicar que são aliados da comunidade gay. No ano passado, a cantora Sunmi ganhou as manchetes ao dizer que era uma "rainha LGBT", embora mais tarde tenha esclarecido que só queria dizer que apoiava a comunidade e não que se identificava como LGBT.

O BTS é frequentemente visto como simpático aos direitos LGBTQ, embora suas declarações de apoio sejam vagas. Na ausência de confirmação, os comentaristas usaram pistas pequenas para especular sobre sua postura, como por exemplo quando RM twittou a música de Macklemore "Same Love", que fala sobre direitos iguais para os gays.

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