A história apagada da irmã de Mozart
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A história apagada da irmã de Mozart

Em meados do século XVIII, a Europa se admirava com a virtuosidade de Mozart. A criança prodígio arrancava elogios da crítica especializada e provocava positivas reações nas plateias. Mas não, não estamos falando de Wolfgang Amadeus Mozart. Maria Anna, irmã dele, também era compositora, virtuosa e dedicou toda sua infância à música.

“Eu nunca soube que Nannerl Mozart (como Maria Anna era conhecida) existia, até vê-la em uma foto de família”, disse Sylvia Milo, uma das responsáveis por desvendar e contar a história dela para o grande público. “Cresci estudando para me tornar violinista. Nem minha história musical, nem meu repertório incluíam mulheres compositoras. Com meus cabelos trançados, eu era chamada de pequena Mozart por meu professor de violino, mas ele se referia a Wolfi.”, contou Sylvia em seu texto para o “The Guardian”.

Assim como Sylvia, muitas mulheres musicistas cresceram sem referências femininas em sua área de trabalho e criação. Talvez não porque elas não existissem, mas porque, assim como aconteceu com Nannerl, elas tiveram suas histórias apagadas e suas carreiras interrompidas por uma sociedade que não aceitava que mulheres “direitas” vivessem de música ou arte.

O que realmente aconteceu com a obra da irmã de Mozart ainda é, de alguma forma, um mistério. Cinco anos mais velha que o irmão famoso, Nannerl compunha, tocava violino e piano, a ponto de se tornar uma referência e um ídolo para Wolfgang. Mas não há nenhum vestígio de sua música ou de suas composições. O pouco que sabemos é o que está escrito em cartas e nos registros de uma turnê europeia dos dois irmãos.

Nannerl era mais do que ‘a irmã de Mozart’

As plateias de música clássica do século XVIII conheceram Wolfgang Amadeus Mozart como parte de um duo de irmão e irmã, segundo o site “Open Culture”. Nannerl inclusive costumava ser citada antes de Wolfgang. Uma resenha de 1763 falava sobre ela: “imagine uma garota de 11 anos, tocando as mais difíceis sonatas e concertos dos grandes compositores no cravo e no piano, com precisão, incrível leveza e gosto impecável. Era uma fonte de admiração para muitos”.

Nas cartas de Leopold Mozart, pai de Wolfgang e Nannerl, ele dizia que a filha era uma das mais habilidosas artistas da Europa com insight perfeito nas harmonias e modulações, e que seus improvisos era tão bem feitos que espantavam. Mesmo assim, Leopold achava que a música não era para mulheres “feitas”. Quando completou 18 anos, Nannerl foi impedida de continuar se apresentando e deixou a música para trás para se casar e ter filhos.

Muito se especula sobre a obra de Nannerl. Alguns dizem que muitas das composições atribuídas a Wolfgang são, na verdade, de autoria de sua irmã. Há registros de que, por muitas vezes, ela escreveu as músicas do irmão pois ele ainda não sabia como passá-las para o papel. Outros falam como é provável que ela fosse ainda mais habilidosa e virtuosa que ele. Mas não há nada que afirme quaisquer dessas hipóteses.

Como história de Nannerl ainda pode ser contada

O que sabemos, por algumas cartas que escreveu ao irmão, é que a irmã de Mozart não parou de compor e até mesmo enviava suas músicas a Wolfgang (que respondia de forma elogiosa). E que, assim como muitas mulheres talentosas do mundo música e da arte em séculos passados, Nannerl teve seu talento esquecido, suas criações apagadas e sua história reduzida a um comentário de rodapé.

Mesmo assim, a descoberta de sua existência abriu portas para que sua história fosse contada de diversas formas diferentes. O filme francês, “Mozart’s Sister” (2011), é uma das primeiras tentativas de expor ao mundo um pouco do que foi Nannerl e de sua relação com a música, Mozart e o pai. Sob a perspectiva feminina, há a peça “The Other Mozart”, da própria Sylvia Milo, que montou um monólogo off-Broadway, ainda em cartaz, extremamente elogiado.

Há também a esperança de que a história da irmã de Mozart ganhe cada vez mais detalhes e novas informações. Que Nannerl seja finalmente apresentada ao mundo moderno e que possamos conhecê-la fora da sombra de Wolfgang.

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