A história de 'I Feel Love', hit revolucionario do pop que Sam Smith acaba de regravar
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A história de 'I Feel Love', hit revolucionario do pop que Sam Smith acaba de regravar

Sam Smith acaba de regravar umas das canções disco mais famosas e revolucionárias da história da música popular. Trata-se de "I Feel Love", hit de Donna Summer (1948-2012) que completa 42 anos em 2019. A faixa, do álbum "I Remember Yesterday", de 1977, foi produzida pela dupla Giorgio Moroder e Peter Bellote, peças fundamentais na difusão e evolução da disco music na década de 1970 e 1980. Antes, havia sido regravada também em 1985, com uma ressignificação gay, pelo grupo Bronski Beat do cantor Jimmy Sommerville, em duo com Marc Almond, famoso pelo magnífico trabalho na dupla Soft Cell.

Em entrevista com Giorgio escrita para o site "Pitchfork", em 2017, o repórter Simon Reynolds fez um balanço sobre a importância histórica da faixa. Ela é apontada como a origem de toda a dance music eletrônica que viria a partir dali. Em 2011, a Biblioteca do Congresso americano a inclui no cânone do Registro Nacional de Gravações, como "cultural, histórica e esteticamente importante".

"I Feel Love", repleta de elementos musicais de outros gêneros — como o uso de sintetizadores, comuns no rock progressivo —, influenciou muito além das pistas de dança. Entre os artistas que nutriram uma paixão especial pela música estavam David Bowie e Brian Eno.

De acordo com Bowie, que então estava gravando em Berlim: "Brian Eno chegou certo dia no estúdio e avisou: 'Ouvi o som do futuro'. E tocou 'I Feel Love'. Ele disse: 'É isso, não adianta procurar em outro lugar. Este single vai mudar o som da música da noite pelos próximos quinze anos. O que estava mais ou menos certo". Na verdade, dá para botar mais de 40 anos nessa conta.

O lançamento de "I Feel Love" ajudou principalmente a alavancar a carreira de Giorgio Moroder, que passou a ser um produtor reconhecido. Sua "fábrica" de fazer hits chegou a ser chamada de "Motown dos anos 1970", e Donna Summer foi considerada sua Diana Ross. Pete Bellotte, por sua vez, era um cara bem mais quieto, não muito chegado a aparecer na frente das câmeras ou a conceder entrevistas. Ele, entretanto, desempenhou um papel fundamental em "I Feel Love". O principal deles foi notar os dons vocais de Donna Summer.

Para realizar a entrevista, Simon Reynolds foi até o apartamento de Giorgio em Los Angeles, no bairro de Westwood. Ele descreveu a decoração da casa do produtor como "brega" ou algo que "saiu diretamente de 'Scarface' (1984)", filme no qual, aliás, Giorgio fez a trilha sonora. O repórter também comentou que o conhecido bigode do produtor continua no mesmo lugar, só tendo mudado de cor, de castanho para grisalho, transformando Giorgio em um tipo de "papai noel".

A memória do italiano radicado nos EUA falhou em conceder grandes detalhes sobre a criação de "I Feel Love". Sua maior contribuição foi falar um pouco de sua vida e sua infância no Norte da Itália. "Na minha cidade natal, Urtijëi, conversávamos em três idiomas a qualquer hora do dia. Isso era comum", disse.

Na juventude de Giorgio, ele costumava fazer performances em boates e produzia discos em meados dos anos 1960. Na Europa, o produtor conseguiu emplacar alguns hits de sucesso, como "Moody Trudy" e "Looky Looky". No começo dos anos 1970, ele conheceu Peter Bellote, um britânico expatriado ainda sem muita experiência para emplacar canções de sucesso. Isso mudou radicalmente depois que os dois se juntaram para lançar "Son of My Father", faixa bem-sucedida após ser regravada por Chicory Tip, em 1972.

Uma das qualidades de Peter era reconhecer o potencial de grandes cantoras. E foi exatamente isso que ele viu em Donna Summer, na época, ainda chamada de LaDonna Gaines — o sobrenome Summer ela herdou do marido. Ele esbarrou com a artista enquanto ela viajava pela Europa apresentando musicais e trabalhando como cantora de estúdio. Encantado com sua voz, Peter e Giorgio a convidaram para realizarem parcerias musicais.

A dupla esteve com Donna no seu álbum de estreia e nos discos seguintes até chegarem em "I Remember Yesterday", álbum que inclui "I Feel Love". O disco era conceitual, cada faixa deveria evocar uma década: o swing dos anos 40, o pop dos girl group dos anos 60, o funk dos anos 70... "I Feel Love" foi concebida como a faixa futurista. Ela, como lembrou Giorgio, "foi escrita ao contrário" do que Peter estava habituado. Em vez de compor a faixa no piano, ele o fez quando Donna estava dentro do estúdio.

O que faz a diferença, porém, são os sons sequenciados hipnóticos e o baixo dobrado com efeitos de delay. Apenas o som do bumbo era humano. A voz de Donna, como se sabe e já foi descrita assim dezenas de vezes, era angelical, muito diferente do modo gritado como as cantoras de disco e rhythm & blues trabalhavam. Donna gravou em um take apenas.

Donna Summer e Giorgio Moroder em 1976/Getty Images
Donna Summer e Giorgio Moroder em 1976/Getty Images

Para falar em Donna Summer, o repórter precisou recorrer a outra fonte: o baterista de "I Feel Love", Keith Forsey. Ele contou que a artista era viciada em astrologia e deixava compromissos profissionais de lado por conta de conselhos de sua astróloga. Um desses episódios envolvendo o "cosmos" aconteceu justamente na noite em que "I Feel Love" foi composta. Neste mesmo dia, Donna conheceu Bruce Sudano, guitarrista e cantor do Brooklyn Dreams, que foi marido da artista até o fim da vida dela.

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