A história do fã que convenceu um desconhecido a pagar uma passagem para ver o Led Zeppelin em Londres
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A história do fã que convenceu um desconhecido a pagar uma passagem para ver o Led Zeppelin em Londres

Quando John Bonham morreu, em 1980, o Led Zeppelin se separou quase que instantaneamente. Jimmy Page, Robert Plant e John Paul Jones decidiram encerrar a banda após a perda de seu baterista. Dali em diante, se reuniram apenas duas vezes: para o Live Aid, em 1985, e para o aniversário de 40 anos da gravadora Atlantic, em 1988. As duas tentativas foram consideradas horríveis por Plant. A banda precisava de um momento de redenção. Ele aconteceu em 2007, em Londres, quando menos de 20 mil ingressos foram disponibilizados para compra em um sorteio online. Vinte milhões de pessoas se inscreveram para tentar adquirir uma das entradas (a apresentação entrou para o livro dos recordes de 2009 por isso). Entre eles, o mineiro Jonathan Andrade, nascido em Governador Valadares e radicado em Caxambu. Com 26 anos, ele inscreveu seu nome quase sem esperança de figurar entre os sortudos. A falta de expectativa trouxe boa sorte: ele conseguiu uma chance para comprar dois ingressos. Mas ainda faltava uma parte importante: o dinheiro para a viagem.

Jonathan teve sorte de sobra para ir a show histórico do Led Zeppelin, em 2007 / Foto: Arquivo pessoal
Jonathan teve sorte de sobra para ir a show histórico do Led Zeppelin, em 2007 / Foto: Arquivo pessoal

Os ingressos custavam £ 125 cada, fora os gastos com hospedagem e transporte. O show, que ficou conhecido como “Celebration Day”, seria o ponto alto do evento beneficente organizado em homenagem a Ahmet Ertegun, empresário turco da música que havia falecido no ano anterior. Jonathan, na época com 26 anos, tocava baixo em um grupo chamado Os Quatro Caras, com amigos de Juiz de Fora, onde estudava. Com o dinheiro dos shows, havia feito um pequeno pé de meia, mas ficou receoso sobre gastar a poupança. A vontade era imensa, mas faltava um pequeno empurrãozinho que veio da tia Tarsilia, que vive nos EUA.

“Minha tia não entende nada de rock, mas contei para ela que eu tinha sido sorteado para comprar os ingressos. Ela comentou sobre isso com o marido dela, que é um cara que esteve em Woodstock, em 1969. E ele disse: ‘Eu venderia a casa da minha mãe para ir nesse show’. Foi quando ela me ligou para dizer que, se meu pai não me ajudasse (a pagar os custos), ela ajudaria”, relembra o farmacêutico, hoje com 37 anos e pai de uma menina de quatro. Incentivado pela tia, decidiu procurar alguém que topasse comprar um dos ingressos que ele tinha pelo preço da acomodação e da passagem aérea para Londres.

Com a ajuda do Orkut, Jonathan encontrou uma luz no fim do túnel. “Eu publiquei na comunidade de um dos fãs-clubes que venderia um dos ingressos porque eu não tinha dinheiro. Desliguei o computador e fui dormir. Cinco minutos depois o meu telefone toca. Era um médico do Rio de Janeiro me pedindo para apagar meu post porque ele ia comprar o ingresso de mim”, conta. O comprador empolgado era André Luiz, que sugeriu que, para que Jonathan não duvidasse dele, eles assinassem um contrato registrado em cartório discriminando as responsabilidades de cada um no negócio. Com a ajuda de um amigo advogado, o farmacêutico elaborou o contrato e foi até o Rio para registrar o documento. E somente para isso. “Eu fui da rodoviária para o cartório e do cartório para a rodoviária”.

Quando tudo parecia ter dado certo, um contratempo imprevisível aconteceu: Jimmy Page havia quebrado o dedo e show teria que ser adiado. As passagens, que já estavam compradas, teriam que ser reagendadas por preços exorbitantes. Não fosse a falência da antiga Varig. Sim, por conta da bancarrota da antiga companhia aérea, Jonathan e André conseguiram parte do reembolso e compraram novos bilhetes. “No nosso contrato não estava escrito de onde para onde ele pagaria minha viagem, só que ele bancária minha ida e minha volta. Aí eu comprei um novo voo de Paris para o Rio e uma passagem de Londres para Paris para conseguir voltar”, relembra Jonathan.

Foi só quando Jimmy Page quebrou o dedo que a mãe dele finalmente acreditou que o filho não estava caindo em um golpe. “Quando ela viu no jornal que o show tinha sido postergado, ela aceitou que era tudo verdade”, ri Jonathan, que faltou à própria colação de grau na faculdade porque a cerimônia, veja só, estava marcada para o mesmo dia da apresentação do Led Zeppelin. Jonathan colou grau por meio uma procuração.

Quem vê tudo o que o farmacêutico fez para ir ao show da banda nem imagina que a paixão pela música dos britânicos não foi à primeira vista. Ele, na verdade, achava a banda de Robert Plant um tanto quanto entediante. “Eu tinha birra com o Led Zeppelin porque quando eu era moleque e estava aprendendo a tocar (Jonathan é baixista e toca um pouco de guitarra), todos os meus amigos eram fissurados na banda, mas a voz do Robert me irritava. Eu só fui gostar quando me mudei para Itajubá (cidade de Minas Gerais onde ele cursou o pré-vestibular) e ouvi em um churrasco de um amigo”, diz.

A viagem para Londres transcorreu quase que perfeitamente. Na hora do tão esperado show, Jonathan se perdeu dos outros três amigos que estavam com ele (além de André, ele estava com outro amigo, que também havia negociado o ingresso, e com o vendedor dele). Acabou ficando próximo à grade que dividia a área VIP da pista normal, onde fez amizade com um segurança que o deixava com uma visão privilegiada. “Eu sou baixinho e os ingleses são todos altões, então você imagina. Mas o segurança ficava tomando conta para ninguém ficar na minha frente”, se diverte o mineiro. Do lugar privilegiado, conseguiu ver de perto figuras icônicas como Dave Mustaine, do Megadeth, e Paul Rodgers, que estavam lá. Além de ter vivido um momento inesquecível o show.

“Eu achei que ia morrer. Quando eles tocaram ‘Kashmir’, então, nem se fala”, relembra Jonathan que, além de Robert, Jimmy e John Paul Jones, viu Jason Bonham, filho do falecido baterista, se apresentar no lugar do pai. Depois de se reencontrar com os três amigos, o quarteto ficou na porta da saída da festa para convidados que aconteceu ao término do show. Lá, viram passar Noel Gallagher (que jogou para cima um CD do Oasis que um adolescente de uns 12 anos havia pedido para ele autografar), Dave Grohl (que prometeu voltar ao Brasil com o Foo Fighters "logo", quando interpelado pelo grupo) e David Gilmour (tratado como a entidade que é e não foi abordado por ninguém tamanho o choque de todos ao redor que o viram passar).

No dia seguinte, depois de um passeio turístico por Abbey Road, Jonathan e companhia perceberam que um músico de rua tocava com um violão autografado por Jimmy Page. Ao perguntarem onde ele tinha conseguido aquela assinatura, ouviram incrédulos a resposta de que ele havia acabado de sair da casa do astro. “Entregamos um mapa na mão dele e pedimos para ele marcar onde que ficava a casa. Pegamos o metrô e ficamos seis horas em pé em um frio do c****** na frente da casa dele. Ele não apareceu, mas deixamos uma carta na caixinha do correio, que nunca foi respondida”.

O quarteto de sorte: Felipe, Jonathan, Lula Zeppeliano e André Luiz / Foto: Arquivo pessoal
O quarteto de sorte: Felipe, Jonathan, Lula Zeppeliano e André Luiz / Foto: Arquivo pessoal

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