A história do rock brasileiro, segundo Dinho Ouro Preto (Parte 2): 'É possível não enferrujar, mas é preciso se movimentar'
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A história do rock brasileiro, segundo Dinho Ouro Preto (Parte 2): 'É possível não enferrujar, mas é preciso se movimentar'

O título da coluna desta semana é uma citação à comédia que Mel Brooks rodou em 1981, “A História do Mundo – Parte 1”, uma piada com a grandiloquência dos filmes de época, com a ideia de que alguém pudesse concentrar a história DO MUNDO em um filme, e com a ideia de que aquela seria apenas a primeira parte da epopeia.

No caso de Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, a referência é apenas para levantar a bola para dizer que “Roque em Rôu” não tem nada de grandiloquente e que, ao mesmo tempo, pretende (e cumpre) contar a história do mundo. Ao menos a do mundo de Dinho que, desde a adolescência, é, de fato, a história do rock brasileiro.

Dinho revisa o rock nacional em “Roque em Rôu” / Foto: divulgação
Dinho revisa o rock nacional em “Roque em Rôu” / Foto: divulgação

O projeto é o de um álbum com releituras de clássicos do rock nacional dividido em bundles de três canções. Primeiro, vieram “Rolam As Pedras”, de Kiko Zambianchi, “Tarde de Outubro”, do CPM 22 e “Saideira”, do Skank. No último dia 22, saiu um novo pacote com mais três músicas: “Metamorfose Ambulante”, canção de 1973 de Raul Seixas, “A Mais Pedida”, dos Raimundos, do ano 2000, e “Inverno”, do repertório da antiga banda grunge de Dinho, a Vertigo (1994). O álbum cheio estará completo no início de 2020. Tudo gravado no estúdio caseiro de Dinho de forma despojada e entusiasmada – zero grandiloquência, portanto.

O álbum é uma ótima oportunidade para conversar com Dinho, testemunha ocular do repertório que escolheu cantar em sua nova aventura sola, a respeito de seu “objeto de estudo”: o pop-rock brasileiro, seus erros, acertos e contradições.

Antes de ser um cantor ou compositor, você é um fã de música – um fã que está celebrando a história do rock brasileiro em um álbum de versões. Falando como fã, você é capaz de reconhecer uma identidade verdadeira no rock feito no Brasil? Como você explicaria para um estrangeiro essa identidade, em relação ao rock feito no resto do mundo?

Eu diria que há um a cena de rock em todos os países do mundo, do Afeganistão ao Brasil. As bandas de rock desses países se dividem em dois grandes grupos: o das que cantam em inglês e o das que preferem sua língua local. E o grupo das que escolhem a língua nativa também se divide em dois: as bandas que misturam seu som com o folclore e as que não fazem isso. Não acredito que nenhuma dessas escolhas determine a qualidade do resultado. Há bandas brasileiras, argentinas, francesas, italianas etc, bandas excelentes com ou sem folclore. Em última análise, eu diria que há bandas de punk rock, metal, hard rock, gótico ou pop, cuja única diferença para o rock anglo-saxônico é a língua. Mas é preciso reconhecer um fato: quando se escolhe fazer rock na sua língua nativa você fica circunscrito a seu próprio país – a menos que faça um mix com a cultura local.

Eu te vi explicando que, ao selecionar o repertório, você tentou mapear a cronologia do rock nacional desde os anos 1970. Primeiro eu gostaria de te perguntar a respeito dos anos 1960. Por que ficou de fora no seu mapeamento, se aquele talvez tenha sido o momento em que o rock foi mais popular no Brasil – talvez mais até do que nos anos 80?

Sim, muitos artistas importantes ficaram de fora. Décadas relevantes também. Tanto os precursores dos anos 50 e 60quanto o sangue novo do século 21não foram incluídos. Minha intenção foi celebrar o rock brasileiro, mas tive que estabelecer um critério, arbitrário, reconheço – regravei o que era importante pra mim, pessoalmente falando. O disco poderia ter sido mais rigoroso historicamente, é verdade. Eu poderia ter feito do álbum um retrato mais minucioso do gênero no país, mas ele teria se afastado do meu coração. Ele teria se tornado um projeto mais cerebral e menos emocional.

A segunda pergunta, a respeito dessa cronologia, é sobre o amadurecimento do rock nacional. Como você vê as marcas das gerações se somando, uma após a outra? Você não sente que há uma descontinuidade forte entre os anos 1960 e 70, 1970 e 80? Pra mim, parece que o único momento em que houve algo próximo de uma “evolução” foi entre os anos 80 e 90, mas logo o fim do mercado fonográfico interrompeu essa linha evolutiva... O que você acha?

Concordo em parte. Acredito que evolução é notável em vários aspectos. Em vários sentidos o rock brasileiro amadureceuao longo do tempo. Eu percebo uma inocência nos anos 1950, seguida de muito experimentalismo no final dos anos 60, principalmente com os Mutantes. Nos anos 70, o rock se recolhe – ele continua vivo e saudável, mas a maioria das bandas não consegue alcançar o país inteiro. Essa foi a década em que descobri o rock. Tanto brasileiro,quanto gringo. Fui ameus primeiros shows – O Terço e Mutantes, juntos em Brasília, quando eu tinha 12 anos. Lembro do quanto a capa do disco “Jack, O Estripador”, do Made in Brazil,me chamou a atenção na loja de discos. Eu jáandava com o Herbert, o Bi e seus irmãos – eu era mais novo,mas eles me toleravam. Dessas turminhas de adolescentes de classe média, crescendo durante o regime militar, nasceu o rock dos anos 80. Nóséramos adolescentes quando o regime caiu. Nada poderia ser mais auspicioso. Surge uma quantidade sem precedentes de bandas. Dessa quantidade vem também uma qualidade inédita. Chegam aos nossos ouvidos compositores do porte do Renato, Cazuza e Arnaldo Antunes. A ressonância popular dessa geração é proporcional ao seu talento. Nos anos 1990 o rock vai em outras direções. Falam mais abertamente sobre sexo e drogas. Seus discos são mais bem gravados. As produções se sofisticam. A MTV chega ao país. Shows gringos se tornam rotina. Há outra renovação com a virada do século. Aparece o CPM22,Pitty, NXZero, Fresno. Tudo parecia certo. Mas não estava – embora essas bandas se saiam bem, por algum motivo elas já não encontram mais uma atmosfera tão receptiva. Lentamente o rock perde espaço....

E por que será que o rock perdeu espaço entre o grande público do Brasil? Será que o futuro dele é no underground?

Não sei. O rock perdeu espaço fora do Brasil também, ainda que não na mesma proporção. Aqui houve uma perda de contato entre o grande público e o rock. Mas, mesmo assim, as bandas estão compondo, gravando e fazendo turnês. Todos seguem suas carreiras, indiferentes à diminuição do espaço. Temos nossas rádios, nossas casas de shows e nosso público. O que seria realmente assustador e comprometedor,é se não houvesse talento novo. Mas há e muito. Gosto muito das bandas novas, de todos os cantos do país. Há uma garotada escrevendo e tocando muito bem. Acho que eles devemir adiante sem se importar com a dimensão que seu trabalhorepercute.Afinal, quando começamos com o Capital Inicial, não havia absolutamente nada. Não conseguíamos comprar discos, comprar instrumentos, assistir a bons shows, gravar em estúdios profissionais, não havia nenhuma rádio de rock... e deu no que deu. Eu sempre digo às bandas novas: concentrem-se no amor à camisa. Ao rock. Não se distraiam. Esqueçam o ruído de fora.

Há algumas semanas o Samuel Rosa, de quem, aliás, você está regravando “Saideira”, anunciou a separação do Skank, dizendo que, para um grupo tão grande quanto o dele, os riscos artísticos possíveis estão fora da banda. Ele te citou nominalmente, aliás, como alguém que eventualmente estaria numa situação parecida. Eu tenho certeza que você, fã do Clash (10 anos de carreira), dos Ramones (22 anos de carreira), dos Beatles (10 anos) já se questionou sobre isso também, sobre acabar ou prosseguir.A que conclusão você chegou?

Sim, eu li a entrevista do Samuel. Gosto muito dele, grande músico! Espero que ele consiga se realizar. Pessoalmente, acho que é possível compatibilizar novos desafios e a continuação de um trabalho. É possível, sim, uma banda veterana trilhar caminhos inesperados. Aliás, pra continuar é preciso estar sempre em movimento, de preferência fora da zona de conforto. Na última década, por exemplo, o Capital Inicial fez um esforço deliberado para nos reciclarmos. Lançamos um disco novo a cada dois anos. No”Das Kapital”fomos atrás doDavid Corcos, produtor do Marcelo D2.

No disco seguinte, “Saturno”, fomos revisitar nossas raízes punk rock e gravamos nosso disco mais pesado em anos. No"Viva a Revolução”,eu procurei oThiago Castanhodo Charlie Brown Jr para compor, e chamamos o Cone Crew Diretoria para uma parceria. No”Acústico em NYC” convidamos gente de fora do rock, como Lenine e Seu Jorge. É um “acústico” turbinado, com todos os violões processados. No “Sonora”, nosso último disco, chamamos Lucas Silveira, da Fresno, para a produção. Gravamos na casa dele, num estúdio doméstico. Todas as canções passaram no liquidificador. Buscamos arranjos, timbres e sonoridades novas. Também convidamos vários artistas novos para tocar e cantar. Minha conclusão – dando uma volta imensa pra responder à sua pergunta – é queé possível não enferrujar, mas é preciso se movimentar. Além disso, nada me impede de gravar discos sozinho também… Como, aliás, estou fazendo agora, e como continuarei fazendo. Há espaço para as duas coisas.

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