A playlist da vida de Donita Sparks, do L7
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A playlist da vida de Donita Sparks, do L7

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Por Bruna Veloso

No palco, à frente do L7, Donita Sparks, de 55 anos, é a epítome do rockstar. Enquanto solta riffs sujos em uma guitarra modelo Flying V, notoriamente usada por músicos de heavy metal, ela brada versos “devassos” e balança os cabelos descoloridos como uma boa headbanger grunge. Difícil é imaginar que a jornada musical da roqueira, debochada e desbocada, começou de maneira extremamente doce. “Minha primeira memória musical é a de estar escutando a trilha de ‘A Noviça Rebelde’ muitas, muitas vezes”, relembra Donita, em entrevista ao Reverb. “Minha mãe contou que eu era obcecada pelo disco quando era criança”. 

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Nos anos 1990, o L7, fundado por Donita e pela também guitarrista Suzi Gardner, ganhou destaque em meio à cena grunge. A banda, completada por Dee Plakas (bateria) e Jennifer Finch (baixo), era colega de Kurt Cobain, por exemplo (o L7 se apresentou no Brasil no festival Hollywood Rock em 1993, que também tinha o Nirvana no line-up). Jennifer chegou a tocar com Courtney Love, do Hole, no início da carreira. A ligação com o grunge era direta, mas o som do quarteto se mostrava, muitas vezes, ainda mais sujo que o de seus contemporâneos. Para completar, havia a atitude: Donita ficou conhecida por baixar as calças no programa de TV britânico “The Word” (no qual havia uma “competição de bundas”, que a banda achou de mau gosto) e por jogar um absorvente usado na plateia no também britânico Reading Festival (em resposta a membros do público que jogaram bolas de lama na banda), ambos episódios ocorridos em 1992.

Não é tipo ‘eu amo punk rock’. Não amo, eu gosto de algumas bandas de punk, mas não são todas boas. A maioria é uma merda

Por parte de Donita, essa crueza nasceu, curiosamente, de um lugar puro e cristalino: o berço esplêndido de filmes musicais hollywoodianos e da canção norte-americana. “Rock é um dos meus gêneros preferidos, mas eu conheço e gosto de muitos outros tipos de música. Amo música popular dos Estados Unidos, por exemplo”, conta. “Desde cedo eu também estive envolvida em corais e com os escoteiros, tinha muita cantoria com as minhas irmãs”. Foram as irmãs mais velhas que levaram o rock’n’roll à vida da então jovem aspirante a artista, nascida em Chicago. Os contatos iniciais com guitarras mais proeminentes foram por meio de singles dos Beatles e dos Monkees, apresentados pelas manas.

Donita também amava/ama o funk e o soul da Motown (“Ouvia muito The Marvelettes e Sam Cooke”) e a disco music, ainda que muitos representantes do rock caluniassem fortemente o estilo nos anos 1970 (“Nunca odiei a disco, pelo contrário, sempre adorei”). Toda essa variedade musical não a preparou, no entanto, para o choque que foi se deparar com os Ramones pela primeira vez.

“Eles mudaram minha vida”, ela afirma, engrossando o coro de astros do rock que idolatram a banda nova-iorquina. A faixa “The Miracle (of Joey Ramone)”, lançada pelo U2 em 2014, é apenas um exemplo de como os Ramones influenciaram diferentes estilos e gerações. “Eu amava o jeito como eles se vestiam, amava que eram de Nova York, o fato de que eram aqueles jovens tipo ‘os esquisitos do bairro’. Eles tinham humor nas músicas, mas também tinham letras bem dementes e sombrias. Mudaram o jogo para mim”, diz ela, que foi introduzida ao mundo dos Ramones com o álbum “Rocket to Russia” (1977).

Como fã da grupo de Joey, Johnny, Tommy e Dee Dee e tendo no portfólio as canções que criou para o L7, Donita só poderia ser fã convicta de punk rock, certo? Não é bem assim. “Sou bem exigente quanto às bandas de que gosto dentro de cada gênero”, ela explica. “Não é tipo ‘eu amo punk rock’. Não amo, eu gosto de algumas bandas de punk, mas não são todas boas. A maioria é uma merda” Sendo assim, ela preferiu ficar com o crème de la crème da cena do clube CBGB, da qual os Ramones faziam parte, ouvindo Blondie, Patti Smith e Velvet Underground. Um pouco depois chegaram Bob Marley, The B-52’s e The Specials. Veio, então, o primeiro show ao vivo ao qual ela assistiu: The Rolling Stones, em 1978, parte da turnê “Some Girls”, em Chicago. 

Nunca odiei a disco music, pelo contrário, sempre adorei

Hoje, Donita vez ou outra compra um vinil, mas prefere adquirir singles no iTunes a discos físicos completos. De uma safra mais recente, ela cita The Growlers, Bleached e Allah-Las entre as bandas que lhe chamaram atenção nos últimos anos.

O modo como a artista se relaciona emocionalmente com a música, aliás, também mudou, ainda que suas preferências tenham permanecido as mesmas. “Não tem música de que eu gostava quando jovem que eu não goste mais. Meu gosto não se alterou desde, provavelmente, 8 anos de idade”, ela discorre. “Mas quando você é jovem, adolescente, a música é provavelmente a coisa mais importante da sua vida. É a sua conexão com a sanidade, e traz conforto para algumas das suas dores. Quando você é mais velho… Ainda sou apaixonada por fazer música, mas não é mais uma coisa que salva a minha vida. Não é ‘nossa, isso está salvando minha vida no momento’. Essa é uma fala de uma pessoa mais jovem. E isso é ótimo e válido”.

O L7 voltou ao Brasil depois de 25 anos para shows no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre. A banda deve lançar o primeiro disco de inéditas desde 1999 no primeiro trimestre de 2019. As gravações foram viabilizadas via financiamento coletivo, assim como ocorreu com o ótimo documentário “L7: Pretend We’re Dead”. 

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