A playlist da Vida de Edi Rock, dos Racionais MC’s
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A playlist da Vida de Edi Rock, dos Racionais MC’s

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 Edi Rock é conhecido há mais de três décadas como um quarto do maior grupo de hip-hop da história do Brasil, os Racionais MC’s. Mas poucos sabem que ele começou na música bem distante das batidas eletrônicas e rimas do rap. “Minha mãe ouvia samba enquanto limpava a casa”, ele recorda, citando nomes como Beth Carvalho, Fundo de Quintal, Almir Guineto e Leci Brandão como alguns dos favoritos da dona Natalícia Maria Alves. A primeira memória sonora do rapper, inclusive, é de ouvir Clara Nunes com a mãe. “Eu acordava com meu pai às 4h da manhã, porque eu dormia na sala, e ele ligava o rádio. O que tocava de manhã era mais sertanejo, e depois eu passava o dia com a minha mãe ouvindo samba, e o que me pegou mais foi o samba”, conta o rapper, em entrevista ao Reverb.

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Foi com a cadência dos pandeiros que Edivaldo Pereira Alves, já nos anos 1980 e ainda pré-adolescente, despertou para a profissão que teria pelo resto da vida. Ele começou a brincar de batucar e não demorou a montar um grupo de samba com os amigos da rua. “Eu frequentava a escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi (na Zona Norte de São Paulo). Eu me identifiquei com o som deles, meus amigos eram de lá”, recorda. Edi tocava o que lhe dessem: repique de mão, tamborim, rebolo ou atabaque. No repertório, clássicos como “Quando Eu Contar (Iaiá)”, de Zeca Pagodinho. Nada, contudo, de música autoral: “Era para alegrar as festas dos outros".

Apesar de o samba ter identificação histórica e origem negra, Edi Rock só foi ter contato com o que é conhecido como black music alguns anos depois. Foi ao primeiro baile black com 15 anos de idade, quando já estava prestes a abandonar a breve trajetória nos batuques. “Comecei a sair e conhecer a rua de verdade, com uns amigos mais velhos”, diz. Entre os novos amigos do (futuro) rapper estava Kleber, que viria a ser conhecido como KL Jay, DJ e produtor dos Racionais. Ambos da Zona Norte, eles se uniram para ter uma equipe de som de baile, chamada Bill Black, tamanho era o interesse pelas músicas que ouviam nas festas. Em São Paulo, os bailes já faziam parte da cultura da cidade há algumas décadas, tendo se expandido ainda mais com os sambas rock de Jorge Ben e Bebeto.

Foi uma loucura, lembro da negada dançando. Foi uma cena que me impressionou para resto da vida. Quando eu volto no tempo, é disso que eu lembro

Mas o que fisgou de vez Edi Rock foi Tim Maia. “Ele tinha os dois: a força e a melodia”, elogia o rapper. O primeiro grande momento dele em baile foi ouvindo “You Don't Know What I Know”, um funk/soul da “fase Racional” do Síndico. “Foi uma loucura, lembro da negada dançando. Foi uma cena que me impressionou para resto da vida. Quando eu volto no tempo, é disso que eu lembro”. Tim Maia é de fato uma grande influência para o trabalho dos Racionais: a base de “Ela Partiu” é o sample principal em um dos clássicos do grupo, “Homem na Estrada”, e “Me Dê Motivo” também constitui o instrumental de outra música do quarteto nos anos 1990, “Fórmula Mágica da Paz”. Isso sem falar no próprio nome do grupo, diretamente influenciado pelos discos da fase “Racional”. No último álbum solo de Edi, “Contra Nós Ninguém Será”, de 2013, outra música de Tim Maia aparece como sample: “Bom Senso” fornece o refrão de “Estrela de David”. 

Foi também nos bailes que o rap também entrou na vida de Edi Rock. “Na época, eles traziam MCs dos Estados Unidos. Vi o (rapper norte-americano) Kool Moe Dee, e também já tinha algumas pessoas fazendo isso no Brasil, como o Thaíde. Eu vi aquilo e falei: quero fazer isso aí. Pensei que era possível. Voltei para o KL Jay e falei: ‘Vai ser assim, você vai ser DJ e eu, o MC, firmeza?”.

O apelo visual dos artistas gringos também foi tão importante quanto a introdução de novos sons na formação de Edi Rock. Em uma época pré-MTV e com a língua inglesa muito menos acessível – especialmente para as classes mais pobres, os clipes eram o complemento necessário para o entendimento da mensagem das canções e da postura dos artistas. E foi nos bailes, com os clipes exibidos nos telões, que os futuros Racionais puderam conhecer o rosto, as roupas e a estética nomes como LL Cool J, Run-DMC, N.W.A. e Public Enemy. “A gente pirava. Gritavam assim: ‘Aí galera, novo clipe de num-sei-quem!’ Aquilo foi revolucionário, mudou a nossa vida, mudou tudo.”

Com os Racionais em hiato por tempo indeterminado, Edi Rock prepara um novo disco solo para o início de 2019. Um dos singles do trabalho, “Sonhos em Construção”, inclusive, é uma canção autobiográfica em que o MC recorda a época dos bailes. Para os novos trabalhos, contudo, Edi também reúne novas influências. Além de ser fã das produções de Dr. Dre, ele ouve Rick Ross, aprova o último disco do Eminem (“Kamikaze”) e revela ter grande admiração por Drake: “Não faria nada igual a eles, mas me inspiram muito”.

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