A playlist da vida de Felipe Cordeiro
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A playlist da vida de Felipe Cordeiro

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O ritmo veio do berço, já que o compositor, guitarrista e cantor paraense Felipe Cordeiro teve desde cedo a influência do pai, Manoel Cordeiro, mestre da guitarrada e influente produtor de lambadas e outros ritmos populares da região Norte. Mas duas das primeiras memórias musicais de Felipe não passam por esse gingado. “Da infância, lembro muito claramente de ouvir o disco ‘Bad’ (1987), do Michael Jackson, e músicas do Raul Seixas, como ‘Maluco Beleza’ e ‘Mosca na Sopa’”, relembra o artista que, quando menino, imitava os movimentos do Rei do Pop.

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Felizmente, anos mais tarde, Felipe deixaria o lado “imitador” para criar a própria música. Em novembro, ele lançou o clipe de “Demais”, primeiro single do quarto disco da carreira, “Transpyra”, que sai em fevereiro. Sua música hoje mimetiza a mistura sonora com a qual ele conviveu desde cedo. Era Raul nas fitas K7 no carro, no caminho de Belém para praias próximas; Michael no toca-discos de casa; carimbó nas idas ao estúdio com o pai. “Antes dos dez anos eu já acompanhava a lambada, o brega”, ele conta. “Eu me lembro de uma coletânea – acho que se chamava ‘Música do Norte’ com todos aqueles clássicos da música paraense. Fafá de Belém, Alípio Martins com ‘Onde Andará Você’... isso também foi muito marcante”, diz ele, em entrevista ao Reverb.

Além de ter fundado a banda Warilou, lenda paraense que fez sucesso nos anos 1990 explorando o mix dançante de lambada, carimbó e zouk, Manoel Cordeiro produziu discos-hit como “Adocica” (1988), de Beto Barbosa. Foi outro marco para Felipe, que até então se relacionava com a música paraense por meio de faixas avulsas, não álbuns completos. “Naquele tempo, com artistas do Pará, não tinha muito essa coisa do disco”, explica. “O Pinduca (também conhecido como ‘Rei do Carimbó Moderno’), por exemplo: eu ia muito aos shows, me impactava com o chapelão que ele usava, com a banda grande de metais. Ouvia bastante nas rádios. Mas não tenho muita recordação dos LPs”. O vínculo com a unidade “álbum” começou a mudar um pouco mais tarde, quando Felipe entrou em contato com a MPB de Caetano Veloso, com “Transa” (1972), e de Chico Buarque, com “Construção” (1971). Na adolescência, reinaram Chico Science & Nação Zumbi, criadores das joias “Da Lama ao Caos” (1994) e “Afrociberdelia” (1996). 

“Dos 12 aos 17 anos, quando eu meio que me forjei como pessoa, comecei a buscar coisas sozinho”, ele prossegue. “Teve um momento bem meu de descobrir a cultura pop nas baladas. A MTV também estava chegando. Depois entrei para a escola de música, comecei a estudar piano, bandolim. Com 20, 21 anos, eu meio que juntei tudo”. É esse, inclusive, o diferencial da obra de Felipe, que, embebido no espírito tropicalista, saiu “puxando o fiozinho da memória afetiva, com os momentos da infância”, e uniu isso à vontade de fazer algo novo. Saiu pop gringo com farinha de mandioca, guitarrada com solo de rock, cúmbia com reggae e brega: mistura das boas.

A música é como se fosse um meio que possibilita a minha existência. Eu tenho o corpo, que me possibilita ter paladar, tato… a música é como se fosse isso no meu espírito.

Algumas décadas mais tarde, em 2018, foram os discos “Ultrassom” (Edgar), “Luvbox” (ÀTTØØXXÁ), “Deus É Mulher” (Elza Soares) e “Relax” (Kassin) que fizeram a cabeça de Felipe. Mas, dentro da safra musical colhida nos últimos anos, nenhum trabalho parece ter deixado criado nele uma impressão tão grande quanto “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” (2009), de Otto. “Quando esse disco foi lançado, eu estava numa fase de muitas intensidades pessoais. Saindo de relacionamentos, começando a cantar mais fortemente pelo Brasil. Lembro de ouvir meio como catarse, porque ele tem essa coisa de liberação emocional. Acho que é um dos grandes discos dessa geração.” 

Só que basta deixar-se levar pelos ritmos tropicais paraenses uma única vez para que uma memória malemolente se imprima no DNA humano. Imagine, então, para quem cresceu ao lado de bastiões da música feita naquele estado. Talvez seja por isso que Felipe acabe sempre voltando ao seu berço musical. “Não posso deixar de citar a Dona Onete na minha história”, ele frisa. “Acho emocionante vê-la ganhando o mundo, não só pela música linda que faz – ela é uma compositora espetacular – mas porque há nela uma coisa da reafirmação da vida. A presença dela no palco, com aquele astral, mostra o quanto a vida é maior do que a gente”. Dona Onete participa do novo disco de Felipe, em faixa que será divulgada em janeiro. Um show em Belém deve marcar o lançamento e fazer um esquenta para a chegada de “Transpyra”.

O nome desse novo disco, aliás, pode fazer referência a uma importante função biológica. Para Felipe, tem a ver não apenas com a ideia de “liberação” que vem com a música, como também com o sentimento de que a música em si é tão importante quanto transpirar. Quanto respirar. “É complicado de explicar, mas acho que a música é como se fosse um meio que possibilita a minha existência”, ele resume. “Eu tenho o corpo, que me possibilita ter paladar, tato… a música é como se fosse isso no meu espírito.” 

A produção de “Transpyra” ficou a cargo de Kassin e do próprio Felipe, que também cuidou de guitarras, vocais, sintetizadores e programações. Stéphane San Juan, que toca atualmente na banda de David Byrne, comandou a bateria, enquanto “papai” Manoel Cordeiro fez participações de guitarra em todas as faixas. Além de Dona Onete, também foram convidados Tulipa Ruiz e os produtores Diogo Strausz e Rodrigo Gorky.

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