A playlist da vida de Lenine
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A playlist da vida de Lenine

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Anos atrás, se você citasse o nome “Lenine” em uma conversa sobre música, ele viria atrelado à sigla MPB. Atualmente, a música de Lenine é popular e é, claro, brasileira, mas é impossível enquadrá-la no que é comumente chamado de MPB. Até a Academia Latina de Gravação reconhece isso, tanto que o pernambucano saiu vencedor na categoria melhor álbum de rock ou música alternativa no Grammy Latino, no último mês de novembro, com o álbum "Em Trânsito". “Prêmio é bom porque tem a possibilidade de confirmar a equipe, a turma. E eu sou muito coletivo. Imagina o Bruno Giorgi, que dirigiu o projeto todo, gravou, mixou. Acho que eu estar nesta categoria é, de alguma maneira, culpa dele”, ri o músico, em entrevista ao Reverb

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Bruno, filho de Lenine, tem grande influência sobre os caminhos musicais trilhados pelo pai hoje, especialmente no sentido de “desconstrução” de qualquer coisa que pudesse se tornar rotina no processo de criação. Mas a veia roqueira de Lenine vem de muito, muito antes. “Quando adolescente, já fora de casa, descobri o rock”, ele conta. Genesis, Yes, Deep Purple e Alice Cooper estavam na vitrola do estudante, mas foi o Led Zeppelin que deixou a impressão mais indelével. “Tenho que dizer o quanto o rock foi fundamental na minha vida. E foi o Zeppelin que me estimulou o desejo de querer fazer música”.

O grupo de Robert Plant, Jimmy Page, John Bonham e John Paul Jones pode ter feito nascer em Lenine a vontade de produzir, mas foi o pai dele quem o ensinou a amar a música. A mãe, Dayse, era religiosa; o pai, José Geraldo, não, e fazia da audição dos discos de vinil a sua própria missa. Os domingos na casa da família eram reservados a esse sagrado ritual sonoro. “Eu sempre tive esse tipo de arrebatamento que se dá quando determinada canção toca a sua alma”, explica o compositor. “Ouvi com meu pai 'Último Pau de Arara' (1958), do Ary Lobo, e 'Canções Praieiras' (1954), do Dorival Caymmi. Lembro de, com uns 7, 8 anos, tomar esses discos da mão grande dele, dizendo: ‘São meus’. Refletiram muito no que eu fiz ao longo da vida. Acho que 'Canções Praieiras' é um dos maiores marcos da história musical do Brasil, por trazer essa coisa do cantautor: alguém que, municiado de um único instrumento, canta com propriedade a sua autoralidade. Dorival foi o ápice disso. Já Ary Lobo representou, para mim, o banho do ritmo”.

Eu sempre tive esse tipo de arrebatamento que se dá quando determinada canção toca a sua alma

Lenine foi da nata da música brasileira à nata do rock internacional, para, já no curso de Engenharia Química da Universidade Federal de Pernambuco, descobrir a fervilhante produção musical do MAU — Movimento Artístico Universitário, do qual faziam parte Gonzaguinha, Aldir Blanc, João Bosco, Taiguara e Ivan Lins, entre muitos outros. Todos eles passaram a ser admirados pelo então aprendiz, que inclusive se recorda de um encontro definidor com Ivan Lins no começo da carreira. “Ele tinha estourado com o maravilhoso disco "Somos Todos Iguais Nesta Noite" (1977), e estava fazendo show no Recife. Eu, garoto, ousei chamá-lo para um encontro com um grupo de compositores, que fazíamos aos domingos. E ele foi, cara! Ele foi, de uma maneira generosa e linda, e jamais vou me esquecer disso”.

Nessa reunião, Ivan se deparou com algumas canções de Lenine e disse que o compositor  parecia “mais mineiro que pernambucano”. Não à toa: o artista viveu um daqueles momentos de “arrebatamento” ao ouvir "Clube da Esquina" (1972), algo que o influenciou fortemente na hora de escrever. “Milton Nascimento foi um divisor de águas”, afirma. “Ele era como um ‘movimento do eu sozinho’ amparado por uma pá de gente muitíssimo competente.” Décadas mais tarde, Lenine viria a cantar com Milton, inclusive sendo convidado a participar do DVD "Pietá" (2006), do mineiro, em que apresentou uma de suas mais emblemáticas canções, “Paciência”. Na gravação, é possível testemunhar o olhar reverenciador do pernambucano à frente do ícone. 

Como ouvinte, Lenine foi da MPB ao  rock, depois de volta à MPB, depois de volta ao rock. Como criador, ele usou das referências para fazer nascer uma música quase inclassificável, amparado pelo seu característico modo de tocar violão e guitarra — instrumento que foi protagonista nas mãos dele no projeto "Em Trânsito", que segue em andamento. Depois de ter escolhido lançar o disco/DVD diretamente no formato ao vivo, ele trilha agora o caminho inverso. Três EPs estão a caminho, cada um com duas das inéditas lançadas no álbum, mais uma terceira nova canção, desta vez gravadas em estúdio. O primeiro dos EPs deve sair entre fevereiro e março. Depois, o pacote completo sairá em formato físico, em iniciativa que fará parte do ciclo de "Em Trânsito", mas intitulada "O Tom É Grave, o Tempo É Breve".

Aliás, o formato físico, especificamente o CD, continua querido por Lenine, ainda que ele também tenha apreço por um antigo iPod com cerca de 8 mil faixas. O aparelhinho – que já foi tão usado que “logo, logo deve quebrar”, brinca  – é a fonte de música no orquidário que Lenine mantém em um sítio localizado a pouco menos de duas horas do Rio de Janeiro, cidade onde mora desde o final dos anos 1970. Na capital, curiosamente, é o carro o local onde ele mais costuma ouvir música. “Isso já acontece faz alguns anos”, diz. “Sempre fico com uns dez discos lá, no repeat. Só digo que ouvi quando passou uma semana dentro do carro (risos). Embora eu tenha um som em casa, quando eu quero ouvir algo com atenção, desço para o carro”. 

Bruno Giorgi, além de parceiro atual no estúdio e na estrada, é também um dos responsáveis por apresentar novos nomes da produção nacional a Lenine, assim como os dois outros filhos dele, Bernardo e João Cavalcanti (ex-Casuarina). Foi Bruno quem trouxe nomes que o artista tem reverenciado nos últimos meses: os pianistas pernambucanos Vítor Araújo e Amaro Freitas. “Para mim é marcante, porque o piano, pelo menos no Recife, não é um instrumento que tem muita tradição. Os dois são gênios da composição e grandes instrumentistas.” Cada um dos rebentos de Lenine tem seu papel na hora de acrescentar sons à audioteca do pai. “Os três me apresentam muita coisa o tempo todo. Bernardo, por exemplo, que tem interesse mais pela música urbana, por hip-hop, foi quem me mostrou há um tempo as primeiras coisas do Rincon Sapiência e do MC Marechal. E o João é um estudioso da música brasileira. Então, estou sendo sempre municiado”. Far From Alaska, Francisco El Hombre e Baleia são outras das bandas contemporâneas que Lenine admira e com quem pretende colaborar.

Enquanto trabalha no estúdio, concretizando "O Tom É Grave, o Tempo É Breve", e na estrada, com a turnê "Em Trânsito", Lenine também se dedica à família. Além dos filhos e da mulher, Anna Barroso – para quem ele escreve uma nova canção a cada disco –, há ainda quatro netos. Também se doa às orquídeas e ao estudo e defesa de questões indígenas, que há anos fazem parte da agenda ambiental e humana das preocupações do músico (ele também é um conhecido apoiador do Projeto Tamar). No ofício ou fora dele, Lenine sempre se mantém de olho no processo, e não na conclusão. “O caminho é mais importante que a chegada. Em tudo na vida”. 

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