A Playlist da Vida de Rincon Sapiência começa com Michael Jackson
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A Playlist da Vida de Rincon Sapiência começa com Michael Jackson

Rincon Sapiência não titubeia na hora de eleger sua mais antiga memória musical. Para o rapper paulistano, atualmente um dos mais importantes dentro do cenário brasileiro, Michael Jackson foi um marco. “Tinha cassete e disco em casa. Meu tio também gravava os clipes em uma fita VHS”, relembra o artista de 33 anos em entrevista ao Reverb. “Michael foi o primeiro músico que vi como ídolo, e talvez o primeiro popstar que conheci”.

"Thriller" (1982), produzido pelo mestre Quincy Jones, está no ranking pessoal de Rincon não só por ser uma obra-prima, mas também por ter “levado a black music – o funk, a disco – e outros ritmos a se tornarem sons globais”. Bem antes de "Thriller", a Motown, gravadora que lançou o Jackson 5, já tinha ajudado a elevar diversos artistas ao olimpo da música. Era, no entanto, percebida por leigos como uma gravadora de “nicho”, para artistas de “nicho” (no caso, a black music). "Thriller" virou o jogo, juntando diversas vertentes da música negra e as levando ao topo das paradas do pop.

Dá pra fazer uma ligação com a atualidade: Michael botou a música negra nas listas de mais vendidos ("Thriller", aliás, segue como o álbum mais vendido da história), possibilitando que o globo conhecesse tais sons e, mais tarde, os casasse com outros gêneros. E essa mistura é hoje parte do fazer (e do consumir) música. Rincon é, indiretamente, filho disso. Ao tomar inspiração de sons de matrizes africanas, ele intitula a música que faz como afro-rap. Insere tais elementos na sua obra sem deixar que percam a essência, enquanto, paralelamente, caminha por outros gêneros musicais. Um exemplo é a parceria dele com o duo eletrônico Tropkillaz e a cantora Clau, que deu origem a um dos sons mais legais desse verão, “Dame Mais”.

Michael ocupou o posto de primeiro ídolo, porém quem incitou Rincon a trabalhar com música foi o paulistano Xis. “O disco "Seja Como For" (2000) fez com que eu me idealizasse fazendo rap”, ele conta. Hoje, Rincon e Xis são amigos, e costumam provocar um ao outro por causa de futebol (Xis é corinthiano; Rincon, palmeirense). Outra obra do rap que não sai da lista dele é "Holocausto Urbano", EP lançado pelos Racionais MCs em 1990. É também dos Racionais a música “Voz Ativa” (do EP "Escolha o seu Caminho", de 1992), que por conta de seus versos abriu os olhos e ouvidos de Rincon para diversos nomes da resistência e da música negras, como Malcolm X, Nelson Mandela, Leci Brandão e Moisés da Rocha. Na mesma época, ele conheceu o trabalho musical de Zezé Motta. “Apesar de ter trilhado uma carreira como atriz, ela também lançou alguns discos, e são muito bons. A discografia dela me influenciou demais, principalmente no meu primeiro EP, "SP Gueto BR", de 2015”.

A música urbana chegou ao núcleo da família Ambrosio – Rincon nasceu Danilo Albert Ambrosio – por meio do primogênito, Leandro, de 38 anos. Até então, em casa predominava o samba (Art Popular e Sensação foram os que mais “impactaram” Rincon; é do Sensação “Sorriso de Marfim”, que embalou romances adolescentes dele). Leandro era fã de Bone Thugs-n-Harmony, e a admiração foi herdada pelo irmão mais jovem. “O primeiro disco que comprei com meu dinheiro foi "Thug by Nature", do L-Burna, integrante do Bone”, relembra. “Fazia poucos dias que tinha arrumado meu primeiro emprego, como office-boy, então não ia receber adiantamento. Inventei uma desculpa para meu chefe, dizendo que precisava ajudar minha mãe. Ele me adiantou uns R$ 30 e fui direto para a Galeria do Rock comprar o CD”.

Na categoria “laços fraternos”, aliás, não é só Leandro que tem destaque. Evandro, de 35 anos, irmão do meio, foi quem deu o start na letra do que viria a ser o primeiro rap escrito por Rincon.

Alguns anos mais tarde, fincaram raízes nas playlists pessoais do artista "Tha Carter III" (2008), disco de Lil’ Wayne que é considerado um dos mais importantes da história do rap, e a mistura inovadora e rebolativa promovida pelo grupo baiano Attoxxá. “O disco "Blvckbvng" (2016) é uma referência”, diz. “Na mesma perspectiva de que o rap é o som da periferia em São Paulo, o pagodão é o som do gueto na Bahia. E, para mim, a sonoridade e o lugar aos quais o Attoxxá levou o pagode baiano eram inimagináveis".

Enquanto prepara as ideias para o segundo disco cheio da carreira (o primeiro, "Galanga Livre", de 2017, foi exaltado por público e crítica), Rincon também investe no próprio selo, que criou há alguns meses. “O MGoma me coloca numa outra responsabilidade”, ele explica. “Ando me organizando para poder contribuir para o mercado da música urbana, de rua, que passa não só pelo rap, como também pelo funk, pelo brega”. Mas não se preocupe: se você está no volumoso time de pessoas que aguarda com ansiedade um novo disco de Rincon, ele manda um recado: “Pode garantir que em 2019 tem disco novo”.

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