A playlist da vida de Speto, o punk do grafite

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A playlist da vida de Speto, o punk do grafite

 Os anos 1980, no Brasil, foram de profundas transformações nas artes urbanas. O país vivia as consequências do êxodo rural exacerbado, quando as capitais do Sudeste viraram verdadeiras metrópoles, e a música mais tradicionalmente identificada com as ruas, como o punk e o hip-hop, começava a fazer a cabeça dos jovens mais antenados. Em São Paulo, paralelamente, o grafite – hoje uma expressão artística mundialmente conhecida pela identificação com a cidade – dava seus primeiros passos. “Comecei por volta de 1985, era fim da ditadura militar”, conta Paulo Cesar Silva, mais conhecido como Speto, pioneiro na arte de rua do país. Ele tinha 13 anos quando pintou o s primeiros muros, motivado pelo filme “A Loucura do Ritmo” (1984). “A informação nessa época era um pouco restrita, apesar de chegar por uma curadoria muito preciosa.”

Para Speto, veio tudo mais ou menos junto: as artes plásticas, o skate e o punk. “O contato com a música punk era desde muito cedo”, ele conta. “Já haviam fanzines e eu fui trabalhar como ilustrador na revista de skate “Yeah”, da qual o João Gordo, dos Ratos de Porão, também participava, só que escrevendo sobre música”. Do movimento estrangeiro de Ramones e Sex Pistols, Speto pegou as referências visuais, tanto das capas como, posteriormente (com a MTV), dos videoclipes. A presença dos desenhos de caveira vieram também dos shapes de skates da marca norte-americana Powell Peralta. Mas a principal lição que o artista aprendeu com o punk tem a ver com a ideologia anárquica e inquieta do movimento. “Os fanzines tinham uma parte visual muito forte e eu podia experimentar todas as técnicas possíveis. Usava técnica de xerox, trabalho com fax”. Ele era tão reconhecidamente punk que até o nome artístico vem disso. “Eu tentava fazer um cabelo no estilo Sid Vicious (icônico baixista do Sex Pistols). Eram uns espetinhos.”

Speto e uma de suas obras / Reprodução
Speto e uma de suas obras / Reprodução

Speto hoje é reconhecido, tem obras em galerias de Europa e Estados Unidos, fez campanhas de marcas mundialmente imensas (Brahma, Coca-Cola), colaborou com nomes como Alice Cooper e Beyoncé (no clipe de “Blue”) e até trabalhou na identidade visual da Copa do Mundo de 2014. Quando ele começou, contudo, nem o nome “grafite” era empregado para designar o tipo de arte que fazia com os amigos (entre eles, OsGemeos, outros expoentes do gênero). Conforme o grafite foi deixando os bairros da periferia para chegar ao centro e a outras cidades, já na virada dos anos 1990, toda a arte urbana também foi passando a ter mais a cara do Brasil. O rock já estava estabelecido, após fenômenos de massa como o RPM e a histórica primeira edição do Rock in Rio, só que a geração seguinte queria unir as guitarras aos nossos batuques, estilos e linguagens. “Havia, naquela música, uma identidade brasileira: Sepultura, Nação Zumbi, Planet Hemp, Raimundos… E o grafite ainda era muito reprodução de norte-americano, não tinha tanto uma coisa nossa.”

Grafite de Speto / Reprodução
Grafite de Speto / Reprodução
Chorão e eu íamos brigar, era coisa relacionada a mulher, só que ele estava com camiseta de banda e eu também. Aí desistimos, porque percebemos que tínhamos um bom gosto musical. Pelo menos para a época (risos)

A motivação de Speto, novamente, veio a partir da música. Mais especificamente da capa do disco “Dead Man's Party” (1985), do Oingo Boingo, cuja ilustração remete ao Día de Muertos, feriado mexicano. “Foi um insight muito grande. Fui pesquisando aquela capa e cheguei no cordel”. O hoje histórico primeiro disco do Raimundos, lançado em 1994, teve a arte – com o “cangaceiro caveira”, marca registrada da banda – assinada por Speto. “Nas sessões de gravação, eu ficava lá com os caras, ouvindo e desenhando. É minha versão de ‘Dead Man's Party’”. Ele também acabou criando o logotipo do selo do grupo brasiliense, o Banguela, encabeçado pelo produtor Carlos Eduardo Miranda e por integrantes dos Titãs. O desenho retrata uma espécie de Mickey Mouse com um prego enfiado em um dos olhos. E a experiência com o cordel ainda o levou a outro projeto marcante envolvendo o rock. Convidado pelo Rappa, o artista plástico trabalhou em cerca de 400 apresentações da banda, fazendo desenhos ao vivo enquanto os shows se desenrolavam. Foi no trabalho como cenógrafo, entre 1999 a 2004 – exatamente quando Marcelo Falcão e companhia ganharam notoriedade no cenário nacional –, que ele desenvolveu o estilo de desenho de traço grosso pelo qual hoje é mundialmente conhecido.

Música urbana, skate e grafite é uma combinação até hoje presente nas praças e espaços públicos da grandes cidades – uma prova da ligação profunda que essas expressões possuem. No Brasil, Speto é o nome dessa mistura, um pioneiro do grafite que viveu, foi influenciado e participou ativamente do desenvolvimento da identidade do rock nacional nos anos 1990. “Havia uma união muito grande, e também uma militância, uma vontade de ter unidade como geração, de todos os discursos serem coerentes, trazer algo novo, diferente”. Speto lembra de viajar bastante e de ter conhecido, na noite, gente como Seu Jorge (“quando era morador de rua”, segundo ele) e Planet Hemp ainda no anonimato. Mas a maior prova dessa união através da arte – de som e de imagem – certamente é a história de um encontro dele com Chorão, o finado líder do Charlie Brown Jr. “A gente ia brigar, era coisa relacionada a mulher, só que ele estava com camiseta de banda e eu também. Aí desistimos de brigar, porque percebemos que tínhamos um bom gosto musical. Pelo menos para a época (risos)”.

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