A Playlist da Vida de Tássia Reis
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A Playlist da Vida de Tássia Reis

No caso de Tássia Reis, a expressão “vem de berço” tem um sentido literal. Na casa da família da cantora e rapper de 29 anos tudo sempre foi feito com música ao fundo. “Minha mãe colocava o radinho para tocar na hora de dormir. Ela sempre fez tudo com música – lavava roupa, lavava louça”, lembra Tássia, que atualmente trabalha na pré-produção do segundo disco cheio da carreira – o primeiro, “Outra Esfera”, foi considerado um dos melhores lançamentos de 2016.

No som que cria, Tássia mistura o peso da crítica social ao poder suave da própria voz (“Ouça-me”). Ou uma força nas cordas vocais ao balanço do soul (“No Seu Radinho”). Ou, ainda, a onipotência, típica daquele verso que fala a qualquer pessoa, unida ao peso que chega com o sofrimento (“Se Avexe Não”). O rap de Tássia nunca é traçado em linha reta – passeia por gêneros, por sentimentos, por críticas, por desejos. E essa versatilidade parece também ter nascido em casa. “Acho que a primeira música que aprendi a cantar foi ‘Ê Baiana’, da Clara Nunes, de quem a minha mãe gosta muito. Tinha uns 4 anos”, ela lembra. A mãe, Myriam, cantava ininterruptamente durante os afazeres domésticos. O pai, Benedito, chegou a ter um grupo de dança quando jovem.

Adolescente nos anos 2000, Tássia cresceu em meio ao surgimento do MP3. Tinha no lar os vinis e as fitas K-7 dos pais – além de Clara, também havia Milton Nascimento, Elis Regina, James Brown e Ray Charles; da rua vinham as coletâneas em MP3 gravadas pelos amigos. “Eu queria ouvir o que estava rolando no mundo, só que não tinha internet, demorou para chegar na minha casa. Então, meus amigos gravavam para mim, misturando tudo: Destiny’s Child, Lauryn Hill, Erykah Badu. Até hoje tem coisa que não sei de que disco exato que é, porque está tudo misturado na minha cabeça”, ela explica. Felizmente, quando se trata de música, importa menos o conhecimento enciclopédico que a marca emocional. “Quando comecei a compor, percebi que queria me consolar, ou me entender, me inspirar com algo que eu não estava conseguindo ouvir nas outras músicas. Foi uma forma de me encontrar. Tanto quando estou criando algo que acho que pode ser relevante para mim e para outras pessoas, como também na relação de ouvinte, com aquelas faixas que você escuta e sente ‘nossa, era isso que eu precisava ouvir agora’”.

Na adolescência, também fizeram parte dos soundsystems de Tássia os sons de Helião & Negra Li e Mariah Carey (“Naquela época, um amigo que tinha grana para comprar CDs deixou comigo o “Guerreiro, Guerreira” e o “The Emancipation of Mimi”); o pagode de Pixote, Sorriso Maroto, Os Travessos e Só Pra Contrariar (“O pagode foi um suporte para a juventude da minha galera. Todo mundo sofria por aqueles romances das letras, mesmo que não tivesse romance na vida real”); e o samba do Fundo de Quintal. Um dos primeiros shows a que ela assistiu de perto, porém, passava longe desse universo: Tássia viu os Raimundos quando tinha “8 ou 9 anos”. Mais tarde, veria Pitty no palco, sem imaginar que seria convidada pela cantora anos depois, em 2018, a gravar a parceria “Contramão”, ao lado de Emmily Barreto (Far From Alaska).

Tássia caminha naturalmente por tantos universos musicais que tem dificuldade de pinçar discos ou faixas dentre os tantos que lhe marcaram. Mas, nesse exercício de casar a memória afetiva a canções, salta-lhe na mente o trabalho de Djavan. “Sou muito fã, teve uma época que fiquei fissurada em alguns discos dele. O primeiro, “A Voz, O Violão, A Música de Djavan” (1976), é incrível. “Luz” (1982), que foi um dos primeiros discos físicos que tive em mãos, é inteiro lindo”.

Djavan, que acabou de lançar o álbum “Vesúvio”, tem tanto destaque no coração de Tássia que chega a causar calafrios a ideia de dar de cara com o músico. “Tenho medo de conhecer (risos). Como fã, não sou o tipo de pessoa que vai atrás, prefiro deixar a vida rolar”, ela conta, relembrando um encontro com Paulinho da Viola que a fez perder o tino. “Pegamos um mesmo voo. Ele estava na esteira, esperando a mala; eu estava com o meu CD “Outra Esfera” na bolsa e resolvi me apresentar. Paulinho foi muito fofo, até elogiou a capa, mas me deu um certo pânico, não consegui nem conversar”, diz, rindo. Depois que Tássia passou ela própria a ser objeto de admiração de fãs, ficou marcado na memória o abraço que conseguiu dar em Alcione. “Também fiquei besta, sorrindo à toa. Foi um momento muito feliz, porque consegui levar meus pais, que são fãs e nunca tinham ido a um show dela”.

Nesse final/início de ano, Tássia aproveitou para tirar férias antes de começar a gravar o novo disco, que deve sair no final do primeiro semestre de 2019 (para dar um gostinho, ela lançou a inédita “Shonda” em novembro, de beats mais pesados, em parte inspirados por Cardi B, a quem a brasileira define como “icônica”). Nesse período de relax ela quer aproveitar para dar atenção aos discos que não conseguiu ouvir na correria dos últimos meses. “Quando estou viajando, gosto de ouvir playlists. Para ouvir discos, gosto de parar, fazer meio que um ritual. E cada vez mais a gente tem menos tempo. Vou entrar de férias e já estou pensando ‘nossa, vou ouvir vários discos’”. Recentemente, entraram para a audioteca da cantora “Parador Neptunia” (2017, da brasileira radicada no Uruguai Tami), “Ambulante” (2018, Karol Conka) e “Selvagem Como o Vento” (2018, Brisa Flow)

Opa, espera. Faltou falar de Belchior, de Baco Exu do Blues, “do casal”, como ela chama Beyoncé e Jay-Z (que juntos trabalham como The Carters)... Tássia é ampla, não se limita quando o assunto é música, seus estilos e significados. “É difícil escolher. Sou uma pessoa que um dia acorda e quer ouvir a discografia da Beyoncé. Aí, no outro, a do Djavan. E depois a do Belchior”. O radinho de Tássia é variado, assim como as inspirações e motivações da cantora em sua relação com a música. “Acho que é uma das formas de arte mais poderosas que existem. Tem a ver com vida, história, memória, afetividade, política… É uma relação completa. Uma relação vital”.

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