A playlist da vida de Thiago Amaral, atleta paralímpico
Especial

A playlist da vida de Thiago Amaral, atleta paralímpico

Quando o Nirvana, de Kurt Cobain, estourou com “Smells Like Teen Spirit” e o álbum “Nevermind”, Thiago Amaral ainda era um bebê. Nascido em 1990, em Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro, mal sabia ele que dali a alguns anos encontraria na banda uma de suas referências musicais mais sólidas, que o acompanharia entre momentos difíceis da vida. “Eu sempre ia em uma loja de CDs de Friburgo, onde eu podia ouvir o disco em um fone. Só consegui comprar o álbum quando vim ao Rio”. Em 2011, aos 21 anos, ele sofreu um acidente de carro enquanto voltava de uma prova de corrida e ciclismo. Ele, que era atleta, chegou a ficar tetraplégico, mas recuperou os movimentos dos braços. Aos 28 anos, faz parte da seleção brasileira de rúgbi em cadeira de rodas e ainda coordena a equipe de acessibilidade do Rock in Rio.

“De casa eu nunca recebi muita influência musical. Nem minha mãe nem meu pai nunca foram muito ligados nisso, apesar de o meu pai ter tocado caixa na banda marcial do colégio. É algo muito tradicional em Friburgo”, conta Thiago. Quando mais novo, ele seguiu os caminhos do pai e também assumiu as baquetas no grupo estudantil no Colégio Nossa Senhora das Dores, onde ambos estudaram. A banda ensaiava toda semana e desfilava pela cidade. Mas a tradição familiar, agora, parece ter parado: aos oito anos, o irmão mais novo de Thiago não demonstra querer seguir os passos do pai e do irmão. “Acho que a onda dele é mais o futebol mesmo”, brinca o atleta.

O contato com o esporte paralímpico surgiu ainda no hospital de reabilitação que Thiago frequentou durante os anos de 2012 e 2013, por conta do acidente. Ele conta que sua vida como deficiente físico começou já dentro de quadra. “Eu procurei um time e comecei a me familiarizar com o esporte no final de 2013. Mesmo que não fosse jogando, eu ia sempre aos treinos para ver. Hoje sou atleta e estou na seleção”.

Todos os dias, Thiago treina em média três horas. Para ter pique e se manter motivado, a música o acompanha principalmente nas etapas de aquecimento. Não só a ele, como todo o time do Santer Rio. Por escolha de uma das treinadoras, muitas vezes o pré-jogo rola ao som do bom e velho pagode. O gênero não é lá um dos preferidos de Thiago que, como bom fã do Nirvana, curte algo mais pesado, como o Blink 182 e Sum 41. “A gente coloca a música para o pré-treino, usamos a música como incentivo”, diz.

A alma de roqueiro foi alimentada por um primo, ainda quando ele vivia em Friburgo. Na juventude, foi do parente que Thiago recebeu apoio para tocar guitarra, quando percebeu que curtia uma pegada mais hardcore. A primeira música que aprendeu a tocar foi “Come As You Are”, do Nirvana, banda que conheceu graças a um amigo de colégio que hoje é rapper e tatuador na cidade serrana.

Diferentemente do primo, baterista, que montou uma banda de blues cujo nome o faz rir até hoje (“Blues da Peste”), a banda de Thiago só se reunia em pequenos eventos entre amigos. Na época dessas reuniões, costumavam tocar faixas de bandas locais, como For Fun, Diwali, Dibob e outros grupos de sucesso regional no começo dos anos 2000. A nostalgia trazida pelas músicas do surf core, inclusive, são remédio para Thiago até hoje. “Eu fui nos shows de despedida do For Fun. Estar lá e ouvir aquelas músicas foi como voltar no tempo”.

A música, assim como o esporte, teve um papel importante na recuperação do friburguense. Cristão, ele buscou em letras católicas um alento para os dias de tristeza. “Eu nunca fui muito religioso, mas eu sou cristão. Quando você está muito fragilizado, acaba fortalecendo sua fé. Foi quando eu vi, em um comercial, uma banda católica chamada Rosa de Saron. Eu ouvia aquelas músicas todos os dias pela manhã. Era como uma preparação para mais um dia de hospital”.

Depois de integrar a equipe do Rock in Rio, Thiago passou a enxergar a música de uma forma diferente. Ele foi contratado para a equipe após ir ao evento de 2015 como espectador e perceber que o festival poderia ser mais acessível aos deficientes. Solicito, Thiago enviou um e-mail indicando o que poderia melhorar para a edição seguinte e, após ser convidado para uma reunião, passou a coordenar a área de acessibilidade dos projetos da casa. Ao exercer a nova função, percebeu que não compreendia por inteiro o que a música era de fato.

“Eu tive que olhar um outro lado da música que eu não conhecia. Quando eu comecei no projeto do Rock in Rio, eu tive que perceber a acessibilidade de outra forma, por exemplo, para as pessoas surdas. A música não é só algo auditivo. Ela é visual, ela é vibrante”, pontua. “Eu tenho um amigo que é surdo. Uma vez, dando carona para ele, percebi que ele mexia a cabeça no ritmo da música que estava tocando e ele me disse que sentia a vibração. Música não é só audição. É vibração e luz também”.

Canais de Marcas

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest