A vida dupla de Marina Cyrino, advogada e cantora lírica
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A vida dupla de Marina Cyrino, advogada e cantora lírica

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Quando Marina Cyrino escolheu prestar vestibular para Direito, deixou seus pais um tanto quanto desapontados. A vontade de ambos era de que a filha fizesse prova para Música. Raridade, né? Desde a infância, Marina se mostrava interessada por música clássica, até que, aos 17 anos, resolveu levar o estudo de canto a sério. Embora a opção de graduação tenha sido pela carreira jurídica, a paixão pelos dois ofícios a fez trilhar os diferentes caminhos com igual dedicação. Advogada de um grande escritório do Rio de Janeiro, ela produz os próprios espetáculos e se prepara para lançar um álbum em homenagem a Villa-Lobos

A decisão de estudar canto começou a frutificar cedo. Aos 12 anos, Marina foi levada pelo pai a um concerto na Quinta da Boa Vista, parque municipal em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. A performance de uma das solistas despertou na cantora a vontade de imitá-la. “Eles apresentaram ‘A rainha da noite’ (de Mozart) e eu achei aquilo tudo muito impressionante. Lembro do meu pai dizer que aquela ária tinha sido feita para uma voz única e eu achei realmente incrível. Acho que foi ali que eu decidi que queria cantar”, relembra a soprano, nascida em Belo Horizonte, mas que vive na capital carioca há quase 30 anos.

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Desde o princípio da graduação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) — um dos vestibulares mais concorridos para a área na cidade — Marina se mostrou disposta a não abrir mão do canto. Isso ficou claro desde a primeira entrevista de estágio que fez. “Eu contei que eu era cantora e que quando tivesse ensaio, eu teria que sair mais cedo. Avisei que poderia trabalhar a hora que fosse, mas na hora do ensaio, eu teria que sair. A entrevistadora olhou para mim e disse: ‘você sabe que isso não vai ser assim a vida inteira, né? Uma hora você vai ter que decidir’. Isso foi em junho de 2001. Até hoje eu não decidi”.

Marina é advogada em um dos principais escritórios de petróleo e gás do Brasil. Com mestrado em Direito Tributário feito nos Estados Unidos, nos últimos anos ela passou a atuar na área de regulatório, contratos e compliance. Por conta dessa mudança, iniciou outro mestrado nesta mesma área, na Faculdade Getúlio Vargas (FGV). Dia desses, por conta de um show que faria na Cidade das Artes, no Rio, teve sua foto exibida no telão do complexo artístico, que fica exposto para quem passa pelos arredores. Recebeu a ligação de dois clientes, incrédulos, perguntando se era ela que eles tinham visto na propaganda. 

“É difícil falar como eu divido meus dias, mas eu vou seguindo as tendências. O escritório é onde eu trabalho, onde eu ganho o meu dinheiro. Eu não posso descumprir prazo com os clientes. Quando eu tenho show, apresentação, ensaio ou algo preparatório, eu saio do escritório, vou fazer o que eu tenho que fazer de música, volto para casa, sento no computador e trabalho de madrugada”, explica sobre sua rotina. Ela conta que, em uma dessas vezes, viajou para Guarulhos para se apresentar. Durante o dia, trabalhava do hotel e saía apenas para ensaiar. Quando a prática acabava, retornava ao hotel para seguir trabalhando e não perder nenhum prazo.

“As pessoas me perguntam se eu não durmo. Eu durmo pouco, se é saudável eu não sei, mas é o que eu consigo”, ri. Entre os chefes, a advogada e cantora não encontra resistência. Um deles, inclusive, também é cantor lírico e entende o esforço de Marina. “Eu acho que é mais socialmente aceito a pessoa correr uma maratona e deixar de sair para beber com seus amigos porque você vai correr no dia seguinte. Em termos de dedicação não é muito diferente de ca ou um Iron Man (do que cantar). O trabalho e a dedicação são os mesmos. É um esforço diário. Nós temos que abrir mão de finais de sntar, mas as pessoas estranham”. 

Marina Cyrino é advogada especializada na área de Petróleo e Gás / Foto: Divulgação
Marina Cyrino é advogada especializada na área de Petróleo e Gás / Foto: Divulgação

Produtora dos próprios espetáculos, no primeiro semestre ela não fez muitos shows. Estava se dedicando à gravação do primeiro projeto, “Cores de Villa-Lobos”, uma homenagem aos 130 anos do maestro brasileiro. A intenção é dar mais visibilidade a compositores nacionais. 

Estou pensando em cantar algumas coisas da Disney. Vamos ver se pelo menos assim a minha filha se convence de que eu sei cantar 

“A gente não tem muita referência de gravação de composições de câmara de autores brasileiros. Então eu queria mostrar para o mundo o que a gente tem no Brasil. Eu pensei primeiro em fazer um mix de compositores, mas depois percebi que dentro de Villa-Lobos existe um mix de estilos muito grande, daí o nome do álbum”, explica. “Eu canto desde pontos de macumba à música sacra, canções que ele fez para a Broadway e canções de ‘A Floresta do Amazonas’”.

Diante da vida agitada, Marina acha que o momento de decidir entre uma ou outra profissão não deve chegar. Mãe de uma menina de cinco anos, ela conta que achava que pararia com uma ou outra profissão quando a criança nascesse, o que não aconteceu. “Minha filha diz que eu canto muito mal. Eu achava que ela dizia isso porque eu não cantava nada que ela gosta tanto, mas quando ela tinha três anos tive que levá-la comigo a um concerto da Rosana Lamosa com o Flávio Augusto (pianista) tocando Liszt. Achei que ela dormiria, mas ela ficou de olho aberto o tempo todo e falava para mim: ‘Mamãe, ela canta muito alto!’, super empolgada”, conta. “Quando deu o intervalo, falei para ela: ‘Filha, vamos para casa’, mas ela respondeu: ‘Mamãe, ainda não acabou, isso é só um intervalo’. Aí eu vi que o problema sou eu”, se diverte. 

Para tentar impressionar a filha, Marina pensa em gravar músicas que sejam mais familiares para a menina. No alto de seus cinco anos, a pequena costuma dizer para a mãe que canta melhor que ela. “Eu não vou discutir com ela”, ri a cantora. “Estou pensando em cantar algumas coisas da Disney ou de coletâneas infantis que ela curte. Vamos ver se pelo menos assim ela se convence de que eu sei cantar um pouco”.

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