A vida dupla de Sérgio Bezz, da Taurus: entre o barulho das baquetas e do divã
Especial

A vida dupla de Sérgio Bezz, da Taurus: entre o barulho das baquetas e do divã

0

Publicidade

Sérgio Bezz está acostumado com barulho. Desde os 15 anos, escolheu a bateria como instrumento para tocar. Apesar de entender de guitarra e baixo, prefere o bumbo forte e o rasgar da caixa. No estilo, se inclinou para as levadas explosivas do heavy metal e integra há 30 anos a banda Taurus, precursora na cena do gênero no país. Fora dos palcos, ele é psicanalista, profissão que exerce quase ao mesmo tempo. Contraditório? Não mesmo. No consultório, ele ouve pacientes que remexem questões internas, uma espécie de grito interno. Um barulho particular.

LEIA MAIS: Banda de metal formada por mulheres tem integrantes de diferentes profissões

HUMINUTINHO: Sepultura, a maior banda de heavy metal do Brasil

“Psicanálise não transmite paz, não. Fazer com que as pessoas fiquem tranquilas e em paz não é o ponto de chegada da psicanálise. A vida é muito turbulenta, barulhenta, só que a gente tenta abafar esse barulho o tempo todo. Há um grito interno em cada um. As coisas acabam conversando”, explica o músico sobre o que para ele é um inexistente choque entre as duas carreiras que leva. 

Aos 49 anos, ele vive há 40 em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Fluminense de Rio Bonito, se divide entre o consultório, o Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, na cidade onde mora, e o doutorado em Teoria Psicanalítica na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Todos os dias, o despertador de Sérgio toca às 6h da manhã. Mesmo nos dias em que ensaia até tarde com a Taurus. 

“Não sei como eu consigo conciliar tudo, mas dá”, conta aos risos. “Os ensaios acabam sendo tarde da madrugada, mas fazemos uma ou duas vezes por semana. Como a gente toca junto há muito tempo, não é preciso ensaiar tanto. Tudo já está na corrente sanguínea”, diz. O baterista está em família na Taurus. Seu irmão, Cláudio Bezz, é o guitarrista e principal compositor da banda. As longas jornadas como terapeuta ensinaram Sérgio a ser um bom conciliador nas horas em que as notas desafinam no convívio fraterno. 

“É um exercício pessoal de convivência. Tantos grupos que se desfazem por desavenças… Não é que eu fique ali em uma posição de ‘eu sou psicólogo’, mas meu trabalho com a psicanálise não se separa da minha vida. Tudo que eu faço é atravessado pelo meu trabalho pela minha formação de psicanálise, que é algo muito sério. Eu não tenho como fechar a porta do consultório e encerrar ali. Eu estou ativo de alguma maneira durante as 24 horas do dia”, reflete. 

 Fazer com que as pessoas fiquem tranquilas e em paz não é o ponto de chegada da psicanálise. A vida é muito turbulenta, barulhenta, só que a gente tenta abafar esse barulho o tempo todo. Há um grito interno em cada um. As coisas acabam conversando 

“Desde os anos 1980, antes de começar um curso superior de Psicologia, eu já tocava. Nosso primeiro disco (“Signo de Taurus”) saiu em 1986, logo depois do primeiro Rock in Rio. No último ano, fizemos uma turnê pelo Brasil comemorando o aniversário do álbum”, conta. A sequência de shows cortou o Brasil. Recife, Rio, São Paulo, Belém, Santa Catarina, São Luís... A Taurus rodou os mais distantes cantos do país. Ao longo da carreira, o grupo chegou a tocar para 10 mil pessoas, em Brasília.

O gosto pelo heavy metal veio da influência de amigos da escola. Com o passar dos anos, Sérgio se aprimorou sozinho ouvindo influências do gênero, entre elas, o Iron Maiden. A banda americana se apresentou no Rock in Rio de 1985, evento que, para o baterista, foi um divisor de águas para o fortalecimento do gênero no Brasil. “Fazer parte do movimento do heavy metal brasileiro foi importante para a gente, era uma época de muita troca e integração. No primeiro show do Sepultura no Rio, eu ajudei na produção. Eles tocaram com a minha bateria”, relembra.

Na segunda metade dos anos 1990, a Taurus se separou por um tempo. Sobreviver da música estava ficando cada vez mais difícil e os integrantes buscaram alternativas na medida em que formaram suas famílias. “Foi quando eu enveredei pela psicanálise”. 

O retorno se deu graças ao advento da internet. Com a formação de comunidades no extinto Orkut, a banda retornou à ativa nos palcos do Canecão, então casa de shows tradicional da Zona Sul carioca. 

“Hoje eu coordeno as atividades, as agendas das duas carreiras para não prejudicar uma ou outra, e tem sido possível. Para mim não é uma vida dupla. É uma vida que se articula. As duas coisas conversam”, finaliza. 

Sérgio Bezz e os companheiros de banda em show da Taurus / Foto: Danton Silva / Divulgação
Sérgio Bezz e os companheiros de banda em show da Taurus / Foto: Danton Silva / Divulgação

Publicidade

Background

Relacionados

Canais Especiais