A volta dos que não foram: como a tecnologia salvou três histórias musicais dos anos 60/70, 80 e 90
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A volta dos que não foram: como a tecnologia salvou três histórias musicais dos anos 60/70, 80 e 90

Quem tem Garage Band em seu tablet, filtros e plugins digitais à disposição deve achar muito, muito estranha a história de artistas que atravessaram décadas sem realizar o sonho de registrar seu repertório decentemente. Pois acredite: durante a maior parte do tempo daquilo que se chamava “indústria fonográfica”, gravar era coisa para estúdio, e estúdio era coisa de quem tinha contrato com uma gravadora. Aliás, boa parte dos estúdios pertencia às gravadoras, que os ocupavam com seus artistas vendedores e suas apostas. Boa parte dos grandes discos de estreia do rock foram gravados em horários mortos dos estúdios, produzidos por técnicos de som tentando fazer um extra. Se eventualmente algum herói conseguisse registrar seu repertório decentemente, e lançá-lo de forma independente, distribuir era outro desafio.

Na coluna desta semana, você vai conhecer três casos diferentes entre si. Em comum, o fato de serem obras com trajetórias inconclusas em seu próprio tempo, que só conseguiram ser gravadas/ouvidas/descobertas graças ao mundo ultraconectado que vivemos no século 21.

Tonelada em ação, nos anos 80/ Arquivo pessoal
Tonelada em ação, nos anos 80/ Arquivo pessoal

Tonelada

Com todo o interesse em torno do rock brasileiro dos anos 80, é de se espantar que só agora o revisionismo tenha chegado ao grupo Tonelada & Seus Kilinhos (ou apenas Tonelada, como passaram a assinar). A banda foi formada em 1980 e estava na hora certa, no lugar certo para circular por todo o circuito da época: Lira Paulistana, Madame Satã, festivais universitários. Mas, com seu som paulistano herdeiro do Joelho de Porco mas antenado com o pop mais “redondo” e leve da nova década, fazia o som errado na hora errada para pegar o bonde das emburradas bandas de São Paulo que apareceram no mercado por volta de 1984 como RPM e Titãs. Acabaram atravessando toda a década sem gravar até finalmente se separarem em 1990.

Quatorze anos depois, o quarteto original (Kiko, Nando Moro, Frajola e Bêlla) resolveu convocar tantos quanto topassem entre os 14 músicos que passaram pelas diversas formações da banda para entrar em estúdio e registrar seu primeiro álbum, com doze músicas perfeitamente conhecidas de quem frequentou os shows dos anos 80, como “Pança”, “Lunática” e “Grande”. O CD saiu pela Spin Music e rendeu uma série de shows que assumidamente pareciam mais reencontros de amigos – tanto no palco como na plateia.

“Tonelada”, o álbum, foi gravado ao longo de três anos, e driblou bem a tentação de transformar o repertório do grupo em algo mais “atual” ou complicado do que foi. Nas palavras da própria banda registradas no lindo encarte, “despretensão e diversão”. E, vamos admitir, uma boa dose de nostalgia, que, a esta altura do campeonato, não faz mal a ninguém.

Os Mamíferos

O filme “Diante dos Meus Olhos” estreou oficialmente em 05 de dezembro como mais um fruto de um longo processo de valorização do movimento underground capixaba da virada entre os anos 60 e 70. O documentário, de André Felix, conta a história de uma banda local que escapou até agora dos pesquisadores do rock brasileiro: Os Mamíferos, ativos entre 1966 e 1971, que em cinco anos pularam da música beat para o tropicalismo em direção a um rock experimental que, dizem os mais entusiasmados, juntava as influências dos Mutantes com uma visão antecipada do folk-glam dos Secos & Molhados.

Os Mamíferos foram uma espécie de lenda regional em torno da qual orbitaram compositores, poetas e agitadores culturais que chegam até os dias de hoje. Um desses agitadores, Murilo Abreu, filho do baixista d’Os Mamíferos, Afonso, organizou na Universidade Federal do Espírito Santo, em 2005, um evento chamado 70’s. A partir daí, surgiu uma banda-tributo (Aurora Gordon), dois álbuns (“Lamelombras Birinights”, de 2011, e “Aurora Gordon na Ponte da Passagem”, de 2015, com gravações atuais de músicas da época) e um livro, “Crônicas de Uma Banda Insular”, de Francisco Grijó, de 2017 – reconstituindo a biografia d’Os Mamíferos como a mais simbólica e folclórica história daquele movimento.

E agora o filme, que propõe um choque entre a estética contemplativa e delirante própria do underground dos anos 70 com o cotidiano de senhores capixabas na terceira idade, entre cenários bem fotografados e a realidade dura da Vitória do Século 21. Assim como os álbuns do projeto Aurora Gordon, também “Diante dos Meus Olhos” não pretende ser um pastiche dos anos 1960. Tem linguagem própria e assinatura, e serve, além de tudo, como registro de uma história esmagada pelas impossibilidades do Brasil da época. Confira o trailer abaixo:

Edson Natale

Em 1990, a música pop brasileira atravessava um período de entressafra. O rock brasileiro, depois de duas ou três classes de ambições e regiões diferentes, havia chegado num ponto de saturação, espremido até que dele restasse apenas a trinca Legião-Paralamas-Titãs como bastiões de mercado. O mercado, aliás, devastado após o naufrágio do Plano Real, se acovardava à espera da próxima moda (que seria a axé music) numa moita dos cantores românticos, sertanejos românticos e, correndo numa raia completamente própria, jovens com pretensões mais amplas e refinadas do que a turma do pop-rock: Marisa Monte, Ed Motta, Nouvelle Cuisine e outros. E havia o Dharana Quartet que, na falta de definição mais precisa, era “música instrumental” tocada por três violões e um violino. Gravaram dois álbuns e se separaram.

Um dos violões era de Edson Natale que, exatamente na esquina das décadas, inventou de gravar um disco solo. Penhorando um anel egípcio trazido pela avó imigrante para pagar o estúdio e uma fita de duas polegadas que ganhou de presente do pai, Natale usou do respeito entre os músicos da época para rechear as sessões de convidados: André Geraissati, Toninho Horta, João Parahyba e uma das grandes revelações da época, o cantor Edson Cordeiro. Mas a parceria que mais enche Natale de orgulho e significado foi com um desconhecido produtor sérvio chamado Mitar Subotic – o Suba – que havia recém-chegado da Europa após alguns trabalhos com cantores de seu país. A identificação foi tamanha que o álbum acabou se chamando “Nina Maika” – nome de uma canção folclórica bósnia.

Edson Natale /Divulgação
Edson Natale /Divulgação

Musicalmente, o disco paira sobre o pop, a MPB, o pós-punk, o jazz sem se fiar a nenhum estilo, mas soando surpreendentemente ligado ao que se faz na música brasileira jovem e cosmopolita dos anos 2010.

“Nina Maika” saiu em 1990 numa pequena tiragem independente, em vinil. E ficou como uma pequena recordação para Natale pelos anos seguintes, quando ele passou a dividir seus interesses como músico com sua atuação como escritor, jornalista e gerente de música do Itaú Cultural e coordenador do Auditório Ibirapuera. As vendas não foram suficientes para reaver o anel de sua avó.

Surpreendentemente, e-mails a respeito do disco começaram a se tornar mais frequentes a partir de 2014, vindos especialmente de colecionadores da Europa e Japão. Nem que Natale quisesse haveria discos suficiente para atender a demanda. Finalmente, em 2019, a gravadora Disk Union lançou uma edição nova em CD e LP do álbum, que também chegou às plataformas digitais, rendendo uma nova vida internacional como ele jamais havia imaginado no início dos anos 1990. Confira “Nina Maika” abaixo:

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