AC/DC, há 40 anos, abria as 'portas do inferno' hard rock com 'Highway to Hell', último grito de Bon Scott
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AC/DC, há 40 anos, abria as 'portas do inferno' hard rock com 'Highway to Hell', último grito de Bon Scott

Já faz 44 anos que o AC/DC se mudou da Austrália e surgiu na cena internacional com seu estrondoso álbum de estreia, o "High Voltage" (1975). Desde então, o grupo passou por muitos altos e baixos: lançou discos e singles de sucesso, foi introduzido no prestigiado Rock and Roll Hall of Fame, perdeu membros fundadores em circunstâncias trágicas, entre outros causos.

O mais impressionante deles, talvez, é o de ser considerado como um dos artistas mais vendidos da história dos EUA. O AC/DC figura na 10ª posição dessa lista, deixando para trás outras bandas de rock famosas, como U2, Aerosmith, Metallica, Rolling Stones e o Guns N' Roses. E o que foi responsável para tal sucesso? O disco "Highway to Hell", lançado em 27 de julho de 1979.

Antes da divulgação de "Highway to Hell", o AC/DC não fazia muito barulho nos EUA. Seus cinco trabalhos anteriores, "High Voltage" (1975), "T.N.T." (1975), "Dirty Deeds Done Dirt Cheap" (1976) — que sequer foi lançado no país antes de 1980 —, "Let There Be Rock" (1977) e "Powerage" (1978), não alcançaram as vendas esperadas pela Atlantic Records, gravadora que representava a banda no país. Naquele momento, o que bombava mesmo nas rádios eram as canções disco, e os principais hits das paradas americanas eram "Baker Street", de Gerry Rafferty, "Miss You", dos Rolling Stones, "Hot Blooded", do Foreigner, e "Wheel in the Sky", do Journey.

O selo bem que tentou dar uma nova chance para o AC/DC, quando lançaram o álbum ao vivo "If You Want Blood You Got It". Ele chegou nas lojas cerca de seis meses depois de "Powerage", mas, novamente, nem chegou perto de fazer sucesso. Com essa cartada, a Atlantic esperava que o disco fizesse pelo AC/DC o que o "Alive!" fez pelo Kiss em 1975. Não rolou.

O ponto de virada aconteceu apenas com "Highway to Hell", que pode ser apreciado hoje do jeito como conhecemos graças a uma intervenção do vice-presidente da Atlantic Records, Michael Klenfner. Ele viajou até Sidney, na Austrália, para se encontrar com os membros do AC/DC e planejar uma nova estratégia para o sucessor de "Powerage".

Até esse momento, os discos da banda eram produzidos pela dupla Harry Vanda e George Young, o irmão mais velho de Malcolm e Angus, e gravados no Albert Studios, em Sidney. Ele pediu que, para o novo trabalho, tudo fosse feito diferente, mas isso gerou um certo desconforto na banda. No livro "AC/DC: Maximum Rock & Roll", dos autores Murray Engleheart e Arnaud Durieux, o ex-empresário do grupo, Michael Browning, disse que Malcolm e Angus ficaram chateados com a situação, que chegou a ficar ainda pior, com a entrada de Eddie Kramer, produtor e engenheiro de som experiente, no mercado desde meados dos anos 1960.

Eddie já havia trabalhado com Jimi Hendrix, Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin e o Kiss. Isso, no entanto, não foi o suficiente para se dar bem com os caras do AC/DC — que, além do mais, não curtiam a ensolarada Miami, onde ficava o estúdio na qual Eddie trabalhava. As ideias do produtor e da banda não batiam, o que fez com que ele fosse colocado de lado após algum tempo, pouco mais de três semanas, tentando trabalhar no disco.

Malcolm Young ligou para Michael Browning e explicou toda a situação. A solução encontrada de última hora foi uma daquelas peças que o destino prega nas pessoas. Para a sorte do AC/DC, Michael estava morando em Nova York e dividindo apartamento com Robert John "Mutt" Lange e o empresário Clive Calder.

"Fomos muito cautelosos em trabalhar com alguém novo", disse Angus Young na edição de abril de 2003 da revista "Guitar World". "A gente se perguntava se existia alguém lá fora, além de George e Harry, que poderia realmente fazer justiça à nossa música."

Esse alguém foi o produtor Robert Mutt Lange, o cara responsável pelo AC/DC de "Highway to Hell". Até então seu currículo não era tão empolgante, vinha de um hit chamado "Rat Trap", de uma banda pouco conhecida, Boomtown Rats (liderada por um cara que ficaria famoso, Bob Geldof, futuro organizador do Live Aid). Robert levou a banda de Miami para Londres e, aí, sim, as coisas começaram a andar. Por incrível que pareça, os músicos se deram melhor em um estúdio frio e sem aquecedor — onde precisavam gravar de casaco — do que numa cidade ensolarada e com muita influência hispânica. Vai entender? Eles também gostaram bastante do novo produtor, que os deixava livres para criar — menos o vocalista Bon Scott, que frequentemente recebia críticas por sua voz.

"Bon Scott sempre foi o cara diferente no AC/DC. Numa banda de irmãos jovens que viviam imersos na música, ele era mais velho — e não necessariamente mais sábio — e definitivamente se divertia mais pesado. E era o que o tornava um cantor de rock", escreve o jornalista americano Joseph Schaver, em artigo da revista inglesa "Kerrang!" a respeito dos 40 anos de "Highway To Hell".

Bon morreu em 19 de fevereiro de 1980, menos de oito meses depois do lançamento do disco. Tinha a idade de Cristo, 33 anos, quando foi encontrado morto dentro do carro de um amigo, em East Dulwich, subúrbio ao sul de Londres, depois de uma noitada no clube Music Machine (hoje em dia chamado KOKO) e consumo de substâncias tóxicas. Isso aconteceu quando "Highway To Hell" recém havia entrado no Top 200 da parada americana.

"A história de Bon é a história de uma grande queda", prossegue o artigo da "Kerrang!". Mas, para além do estilo "viva rápido, tome todas e tudo", é possível projetar em algumas das canções dele até mesmo uma percepção do empoderamento feminino: seja no "ritmo de banco de trás do carro" de "Girl's Got Rhythm", ou em "Touch Too Much", que fala de uma mulher que, dona de seus impulsos sexuais, deixa o cantor/narrador "maluco" ("insane", no original).

O polimento sonoro trazido pelo produtor Robert Mutt Lange iria gerar o pop metal dos anos 1980, epitomizado por "Pyromania", do Def Leppard. O senso pop acabaria afastando o AC/DC de suas origens, deixando para trás a força suarenta, sanguínea e simples rumo aos estádios. "Depois, Brian Johnson (cantor que subtituiu Bon Scott) iria adoçar o chá de uma forma que Bon jamais faria, e centenas de bandas de hair metal iriam cooptar os exageros virtuosísticos e o guarda-roupa do Van Halen", lamenta o texto da "Kerrang!". Ficaram a saudade — e as lições de vida do imortal Bon Scott, que, em "Highway To Hell", escreveu os premonitórios versos: “Hey, Satã, paguei minhas contas / Tocando numa banda de rock / Ei, mãe, olha pra mim/ Tô no meu caminho rumo à terra prometida, wooo!/ Estou na estrada para o inferno".

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