Afrofuturismo à brasileira: Xênia França, Jonathan Ferr, Larissa Luz e Doralyce unem tecnologia a tradição ancestral
Rock in Rio 2019

Afrofuturismo à brasileira: Xênia França, Jonathan Ferr, Larissa Luz e Doralyce unem tecnologia a tradição ancestral

Por Kamille Viola

Com o lançamento do longa “Pantera Negra”, em 2018, o conceito de afrofuturismo ganhou mais visibilidade no Brasil e em outros lugares do mundo. A tendência, que une elementos da estética ancestral africana ao futurismo (em um conceito mais amplo, nada específico, sem relação com o futurismo de pintores e poetas do começo do século XIX), vem conquistando cada vez mais espaço no Brasil, sobretudo na música. Com o anúncio de uma edição brasileira do icônico Afropunk Festival, confirmado para acontecer em Salvador no ano que vem, ele ganha ainda mais evidência por aqui. A cantora Xênia França é considerada um de seus expoentes aqui, mas nomes como Larissa Luz, Jonathan Ferr e Doralyce também apostam nessa estética.

Larissa lançou no mês passado seu terceiro álbum solo, “Trovão”. Produzido por Rafa Dias, do Àttøøxxá, que também é parceiro dela em todas as faixas, o disco une batidas eletrônicas à sonoridade afro-brasileira. “Eu queria trazer uma abordagem da nossa ancestralidade sob a perspectiva contemporânea, futurista, não óbvia, porque a gente já conhece algumas coisas, já viu algumas coisas sendo feitas nessa direção. É um disco que fala de ancestralidade, de , de conexão com o sublime e a conexão do sublime com o terreno. Fala de religiões de matriz africana e práticas dessas religiões, mas de uma perspectiva futurista, contemporânea”, resume a cantora e compositora baiana.

Larissa Luz fala de ancestralidade e fé em seu terceiro álbum solo, ‘Trovão’ / Foto: Breno Galtier / Divulgação
Larissa Luz fala de ancestralidade e fé em seu terceiro álbum solo, ‘Trovão’ / Foto: Breno Galtier / Divulgação

O clipe “Gira”, com direção de Heitor Dhalia, dá uma amostra do que ela diz: o vídeo traz a artista em um cenário futurista com referências explícitas ao candomblé, enquanto a música une os toques matriciais afro-brasileiras a batidas eletrônica e efeitos no vocal. “Acho que estamos tendo acesso cada vez mais ao que é produzido no mundo. Com a internet, derrubamos umas fronteiras e nos conectamos com uma imensidão de possibilidades que nos leva diretamente ao futuro. O Brasil é um país onde a cultura negra pulsa intensa, é base da nossa construção uma proposta artística que conecta nossas raízes ancestrais ao futuro. Tem muito argumento para funcionar aqui”, acredita Larissa Luz.

Pernambucana radicada no Rio, cantora e compositora Doralyce é outra a sentir a influência afrofuturista. Também recém-lançado, o álbum “Pílula Livre” é o encontro das influências de música tradicional brasileira da cantora — coco, maracatu, ijexá e samba — com batidas eletrônicas.

“O afrofuturismo é esse mergulho ancestral com olhar tecnológico sobre cultura e arte, sendo também um movimento estético. Então ganha mais força no Brasil quando a gente tem mais pretos entrando nas universidades, quando a gente tem mais pretos com seu poder de fala respeitados e resguardados”, discursa ela.

Doralyce: ‘O afrofuturismo é esse mergulho ancestral com olhar tecnológico sobre cultura e arte’ / Foto: Beatriz Salgado / Divulgação
Doralyce: ‘O afrofuturismo é esse mergulho ancestral com olhar tecnológico sobre cultura e arte’ / Foto: Beatriz Salgado / Divulgação

O Novíssimo Edgar, Sebastian (da banda Francisco, El Hombre), as integrantes da banda Mulamba, Luisa Nascim (Luisa e os Alquimistas), Luê e Jéssica Caitano participam do disco. Para ela, o movimento tem sido abraçado pela maioria dos pretos e pretas brasileiros com pensamento descolonizado. “O afrofuturismo no Brasil é a revolução preta que já está acontecendo. O Brasil tem um papel fundamental quando a gente fala dele, de apresentar novas perspectivas de sociedade para o mundo”, acredita.

“Nosso país tem muito para contribuir com o afrofuturismo, porque vive a diáspora africana. O povo que foi sequestrado, escravizado e trazido pra cá criou raiz com os povos latinos, indígenas. É assim que nasce a Jurema Sagrada, a Umbanda, o maracatu de baque solto e o maracatu de baque virado. É assim que nasce a história da cultura popular brasileira”, exemplifica.

No álbum “Trilogia do Amor”, o compositor e pianista Jonathan Ferr — atração do Palco Favela do Rock in Rio em 5 de outubro — aposta na estética não só em sua música, que ele define como urban jazz afrofuturista, mas no audiovisual: o lançamento vem acompanhado de três curtas-metragens dirigidos pelo próprio músico que seguem essa linguagem. O primeiro deles, “A Jornada”, saiu no fim de abril. “Na verdade, eu acredito que essa ideia estética e filosofia afrofuturista sempre esteve na música negra brasileira. A começar pelos temas tão singulares em torno da espiritualidade dos ancestrais. As músicas e ideias do trio Os Tincoãs, por exemplo, tinham o lance místico, focado na religião de matriz africana, enaltecendo essa cosmologia negra, apontando para o futuro de uma maneira poética”, defende ele.

Mas ele concorda que, hoje, vários artistas negros estão, cada vez, mais buscando uma música que os que conecte com a ancestralidade e aponte para o futuro. “A ideia da cosmologia africana está cada vez mais forte e ativa no país. Com isso, vêm a filosofia e a estética”, arrisca. “Vejo nas ruas a estética que jovens negros escolhem para se vestir, os poetas, meus amigos diretores de cinema, artistas plásticos, todos negros, também se expressam de maneira afrofuturista. É uma linguagem que esta geração está descobrindo, que ainda vai se transformar, criar novos braços e descobrir novos caminhos dentro desse pensamento”, prevê.

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