‘Álbum Branco’, 50 anos: a última vez que os Beatles se comportaram como uma banda
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‘Álbum Branco’, 50 anos: a última vez que os Beatles se comportaram como uma banda

Quando os Beatles lançaram o disco que mais tarde ficou conhecido como “Álbum Branco”, no dia 22 de novembro de 1968, eles já sabiam que algo havia ficado para trás. Ainda respondiam como um grupo, mas uma rachadura interna já abria-se entre John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, a ponto de batizar o disco apenas com o nome da banda e inverter o padrão do ano anterior, exibindo apenas uma capa em branco. Era um adeus rude à psicodelia, às cores e ao excesso ditado pela era de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, quando o grupo respondeu à altura às questões em relação a manter uma banda de rock que não faz mais shows ao vivo com um disco que agradou público e crítica, além de marcar uma época. No ano seguinte, o álbum duplo com 30 canções que agora vem celebrado em uma caixa de discos cheia de extras e versões inéditas, é o retrato de uma banda se desfazendo.

“The Beatles”, o disco duplo de capa branca lançado no final de 1968, encerrava um ano turbulento para o grupo. Além da morte do empresário Brian Epstein no ano anterior, os Beatles ainda lidavam pela primeira vez com críticas negativas, devido ao filme “Magical Mystery Tour”, projeto psicodélico encabeçado por Paul McCartney que foi exibido pela emissora inglesa no dia de Natal de 1967. E mesmo com vídeos de músicas emblemáticas como “I Am the Walrus”, “The Fool on the Hill”, “Your Mother Should Know” e “Blue Jay Way”, o filme foi menosprezado pela crítica como sendo caótico e sem rumo (o fato de o filme colorido ter sido exibido em preto e branco também prejudicou o resultado que o grupo esperava). Era a primeira vez que os Beatles não eram recebidos com aplausos — embora o público tenha comemorado o filme e o disco lançado simultaneamente.

A alternativa que a banda encontrou foi o isolamento na Índia. A aproximação deles com o Maharishi Maheshi Yogi os levou para um retiro em Rishikesh, no norte daquele país, junto com outros 60 alunos de meditação transcendental — entre eles, algumas celebridades como o cantor e compositor Donovan, o beach boy Mike Love e a atriz Mia Farrow. Os quatro aproveitaram o período para uma desintoxicação geral — à exceção de maconha — e se viram novamente interessados em compor — principalmente juntos.

Entre fevereiro e março daquele ano, Paul, George e John passaram a compor como há muito não faziam, muitas vezes dando pitacos nas músicas uns dos outros. Isolados da grande cidade, compuseram a maioria destas novas canções ao violão — músicas que mais tarde se tornariam a base do novo álbum. Durante a estada, a tensão entre Paul e George ficava cada vez mais intensa: enquanto Paul parecia querer provar para todos que ele era o chefe nos Beatles, falando sobre os planos para o próximo álbum, George sempre o cortava lembrando que a intenção do retiro era meditação.


O grupo se desiludiu com o retiro por diferentes motivos: Ringo foi o primeiro a voltar para a Inglaterra, no início de março, insatisfeito com a alimentação do local e a pedidos da mulher, Maureen, que não gostava de insetos e tinha saudade dos filhos. Paul voltou em seguida, alegando compromissos com a recém-criada gravadora dos Beatles, a Apple, e de sua namorada à época, Jane Asher. George e John partiram por último, motivados por um rumor de que o Maharishi estaria sendo rude na abordagem com algumas mulheres que frequentavam o retiro, em especial com Mia Farrow. O rumor enfureceu John, que foi ele mesmo tirar satisfação com o guru antes de ir embora, em abril.

Os Beatles voltaram a se encontrar em maio daquele ano, quando, na casa de George Harrison em Esher, subúrbio de Londres, começaram a passar a limpo as canções que haviam composto no retiro. George tinha um gravador de quatro canais em casa e estas gravações, predominantemente acústicas, formam um dos discos na recém-lançada caixa que disseca o “Álbum Branco”. Batizado de “Esher Tapes” (as fitas de Esher), o disco traz o grupo em versão unplugged, rascunhando canções que seriam lançadas ao público no final daquele ano, além de músicas que iriam usar em suas carreiras solo, como “Child of Nature” (que John Lennon reescreveria com o título de “Jealous Guy”), “Junk” e “Not Guilty”.

Não é exagero dizer que foi a última vez que os Beatles se comportaram como uma banda. O clima dali para frente ficaria cada vez mais azedo, com os quatro se evitando mutuamente inclusive no estúdio, onde ainda gravariam mais três discos. Em janeiro do ano seguinte, fariam a última apresentação ao vivo ao encerrar as gravações do álbum que se tornaria “Let it Be” em 1970, tocando no alto do prédio onde funcionava sua gravadora. Mas a magia já havia sido maculada e, por mais que parecessem à vontade neste último show, não eram mais um conjunto. Não compunham mais juntos, não tinham mais o senso de unidade. A última vez que tiveram isso foi justamente nas gravações acústicas na casa de George.

O disco entrou para a história da banda e do rock como uma das principais obras da música pop, mostrando como até a falta de objetivo e propósito pode gerar beleza e luz — bem como feiúra e trevas

Quando levaram estas músicas para o estúdio Abbey Road, no final daquele mês, as coisas começaram a desmoronar. O clima quase pacífico do retiro dava lugar a uma disputa de egos principalmente entre seus três principais compositores, mas que afetou a todos envolvidos no processo. Como não faziam mais shows, o grupo usava o estúdio para repassar as músicas constantemente, em alguns casos testando a paciência mútua com canções que tiveram mais de cem takes no estúdio, algo sem precedentes até então. Muitas músicas foram gravadas sem a participação de outros integrantes, apenas com seu principal compositor trabalhando a melodia principal e acrescentando instrumentos ou por conta própria ou chamando músicos de fora.

O clima errático é traduzido na inconstância do álbum, que, ao contrário dos discos mais recentes dos Beatles, não tentava sintetizar uma única ambiência sonora que desse coerência ao trabalho. Cada faixa ia para um lado, e os polos eram os mais distintos possíveis. Por um lado, havia as músicas compostas na Índia, quase todas individuais, tocadas apenas ao piano ou ao violão: “I Will”, “Julia”, “Martha My Dear”, “Mother Nature’s Son”, “I’m So Tired”, “Long Long Long”, “Blackbird”, “Piggies”. Por outro havia verdadeiras aventuras musicais que iam das paródias de Paul McCartney (“Back in the USSR”, que ironizava os Beach Boys, o pastiche de ska “Ob-La-Di Ob-La-Da”, a festeira “Birthday” e o western de mentira “Rocky Raccon”), às faixas experimentais de John Lennon (“Happiness is a Warm Gun” com várias fases, a autorreferente “Glass Onion” e, claro, a colagem “Revolution 9”), verdadeiros tour-de-force elétricos (“Yer Blues”, “Everybody’s Got Something to Hide Except Me & My Monkey”, “Wild Honey Pie”, Helter Skelter” e “Why Don’t We Do It in the Road?”), baladas de toda espécie (“Honey Pie”, “Don’t Pass Me By”, “Good Night” e “Dear Prudence”) e canções clássicas (“While My Guitar Gently Weeps”, “Revolution 1”, “Savoy Truffle” e “Sexy Sadie”). Trinta canções que atiravam para todos os lados e deixavam claro que os Beatles não tinham um rumo definido adiante.

Mas era essa ideia que eles queriam passar. Deixar o barroco psicodélico e voltar a fazer música. A questão era que tipo de música iriam fazer. Eles, que reinventaram a música jovem como uma leitura inglesa do pop norte-americano, misturando rockabilly, rhythm’n’blues, soul music, country, surf music e outros elementos dos EUA em uma mesma sonoridade que agora era apenas referida como rock. Dentro deste cenário, evoluíram musicalmente ao ponto de escolherem parar de fazer shows e se reinventar mais uma vez no estúdio. Quando retomaram o fio da meada que largaram entre os discos “Revolver” e “Sgt. Pepper’s” tinham um universo musical muito amplo para se manterem em apenas um tipo de som — ou sequer um único disco.

Infelizmente, à medida em que amadureciam musicalmente, tornavam suas relações pessoais péssimas. John Lennon quebrou um pacto velado da banda e começou a trazer sua nova namorada, Yoko Ono, para o estúdio, colocando-a inclusive para gravar (além de fazer uma voz infantil em “The Continuing Story of Bungallow Bill”, Yoko, uma artista plástica e performática respeitada nos meios da alta cultura, mas desconhecida do público pop, ainda foi instrumental na criação da colagem “Revolution 9”). Aos poucos a camarilha dos quatro começava a desmoronar. Logo era George Harrison quem trazia o amigo Eric Clapton para gravar o solo de “While My Guitar Gently Weeps” e as rusgas, farpas e indiretas deixavam o clima cada vez mais pesado no estúdio.

O primeiro a deixar o barco foi o engenheiro de som Geoff Emerick, que gravava com os quatro desde 1966, e decidiu não continuar com o “Álbum Branco” no meio de julho. Depois era a vez do próprio produtor George Martin, que cansado do clima (entre outras coisas, ao pedir para Paul McCartney cantasse menos empolgado em “Ob-La-Di Ob-La-Da”, ouviu o beatle dizendo que ele deveria cantar em seu lugar), alegou que iria tirar uns dias e deixou o sub Chris Thomas para terminar o disco. Em agosto seria a vez de Ringo Starr deixar a banda por uma semana, voltando a pedido dos outros integrantes do grupo. George e John lançaram seus primeiros discos solo durante as gravações do disco — o eletrônico “Wonderwall” de George e o experimental “Two Virgins” de John e Yoko seriam os primeiros discos lançados pela nova gravadora dos Beatles. O terceiro seria o primeiro single tirado daquelas sessões: a balada “Hey Jude” de um lado, e a elétrica “Revolution” do outro. As duas músicas não entraram na versão final do “Álbum Branco”.

Não foram as únicas faixas deixadas de fora. Além das três demos gravadas em Esher que seriam adaptadas por John, Paul e George em seus primeiros trabalhos solo, outras músicas também não viram a luz do dia com o lançamento do novo disco, como “Look at Me”, “Circles”, “Sour Milk Sea”, “Can You Take Me Back?” (que virou apenas uma vinheta), “What’s the New Mary Jane?” e a introdução sinfônica que George Martin bolou para a primeira música composta por Ringo Starr, “Don’t Pass Me By” (que dispensou por considerá-la “muito bizarra”). Outras duas — “Polytheme Pan” e “Mean Mr. Mustard” — apareceriam no disco seguinte da banda, “Abbey Road”. Todas estas faixas — em versões demo ou finalizadas — estão na nova edição do disco.

Quando foi lançado, em 22 de novembro de 1968, o “Álbum Branco” pegou a todos de surpresa. Seja por sua variedade musical, pela quantidade de novas músicas, pelo clima de que talvez os Beatles não fossem mais uma banda (explicitado em quatro retratos de cada um dos integrantes que o grupo anexou ao disco, em vez de uma foto com todos), o disco entrou para a história da banda e do rock como uma das principais obras da música pop, mostrando como até a falta de objetivo e propósito pode gerar beleza e luz — bem como feiúra e trevas.

Está tudo lá, bem como o rascunho da maioria das canções está nesta nova caixa de CDs, que inclui variações extremas, primeiras tentativas, versões viradas do avesso, detalhes sutis e arranjos distintos que mostram por que este é um dos grandes discos da história — e não apenas da história dos Beatles.

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