Aldir Blanc, ao homenagear Elis Regina, definiu — involuntariamente — sua própria dimensão dentro da música brasileira
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Aldir Blanc, ao homenagear Elis Regina, definiu — involuntariamente — sua própria dimensão dentro da música brasileira

O compositor, escritor e psiquiatra Aldir Blanc morreu nesta segunda-feira (04/05), aos 73 anos, com infecção generalizada em decorrência do novo coronavírus. Na perda de um gigante único, especial, insubstituível como Aldir Blanc, melhor usar as palavras dele mesmo para conseguir homenagear à altura.

O que Aldir Blanc escreveu sobre Elis Regina (1945-1982), sua mais expressiva intérprete, tida por muitos como a maior da MPB, vale para ele também. “Para a imensa maioria das pessoas, a vida é como a visão do transatlântico Rex, em ‘Amarcord’: uma espera ansiosa no escuro, um brilho de luzes e adeus, adeus! Mas uma estrela como Elis não se extingue. Cada vez que explode em suas canções, surgem novas galáxias.”

Aldir Blanc, poeta e letrista: eterno como Elis, sua grande intérprete/Divulgação
Aldir Blanc, poeta e letrista: eterno como Elis, sua grande intérprete/Divulgação

Não é preciso ter assistido a “Amarcord”, obra-prima do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) para compreender a metáfora do texto publicado originalmente na edição brasileira da “Billboard” em 2012: Aldir Blanc é um astro, uma luz que nunca vai se apagar. Canções como “O Bêbado E A Equilibrista”, “De Frente Pro Crime”, “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”, “Kid Cavaquinho”, “O Mestre-Sala Dos Mares” e “Resposta Ao Tempo” hão de fazer surgir novas galáxias, novos universos — mesmo nos mais devastados cenários culturais, como o que hoje se apresenta no Brasil.

Naquele texto de 2012 sobre Elis, que tive o prazer de editar, Aldir Blanc foi além, na definição: “Elis Regina é um pluriverso, como querem os astrônomos. Seria preciso um Carl Sagan para escrever com precisão sobre estrela de tamanha grandeza”.

Pois então sigamos com ele próprio, Aldir, lembrando a primeira vez em que Elis cantou “O Bêbado E A Equilibrista”, clássico pelo qual será mais universalmente lembrado — historicamente associado à resistência diante de um regime autoritário que perdurou no Brasil entre 1964 e 1985.

“‘O Bêbado E A Equilibrista’ foi aprendida com João Bosco uma hora antes de o programa de TV entrar no ar e cantada só com o violão do Bosco pela urgência que Elis teve de comunicar ao Brasil de Marias e Clarices o sentimento que a música despertou nela. Não por acaso, alguns poetas do significante até hoje ‘não entendem’ a letra. Que bom”, escreveu Aldir, com o humor ácido habitual.

Ele recordou também a primeira ocasião em que Elis Regina foi apresentada ao que viria a ser um clássico de sua até então pouco conhecida lavra: “João Bosco e eu vimos como ela interrompeu um ensaio para ouvir ‘Bala Com Bala’”, suas risadas de entusiasmo, sua promessa – cumprida – de gravação”.

Homem de intensa vida interior (que exerceu a psiquiatria até o começo dos anos 1970), com uma boa dose de tragédias familiares (perda de duas gêmeas nascidas prematuramente; o acidente de carro em 1991, que o deixou com dificuldades de mobilidade) no percurso, Aldir conheceu o melhor e o pior da existência. Ficou íntimo do outro lado muito antes de deixar a cena de fato, após quase duas décadas de reclusão, talvez na tal espera ansiosa no escuro, como a maioria dos mortais e dos personagens de "Amarcord" que citou.

Voltemos ao próprio texto de Aldir Blanc sobre Elis: “Henfil escreveu a frase definitiva sobre sua morte física: os homens a matamos. Matamos a maior cantora do Brasil com desprezo, críticas hidrófobas, ressentimentos mesquinhos de incompetentes que serão tragados pelo tempo, ao passo que esse mesmo tempo, que devora o coração dos invejosos, a rejuvenesce cada vez mais”.

O desgosto do letrista e cronista genial com os descaminhos da cultura brasileira e, em particular, do seu Rio de Janeiro, sempre gerou, mais que amargura, comentários desbocados e irônicos.

Ousando parafrasear o que o próprio Aldir escreveu no “Pasquim”, em 1975, também a respeito de sua mais amada cantora ( “Pois é, Elis. Você continua Regina.”), arrisco agora: Pois é, Aldir. Você continua foda. Você continua.

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