Amadou e Mariam, o casal de cegos mais amado do planeta pop, têm o segredo para resistir e manter a doçura em tempos conturbados
Inspiração

Amadou e Mariam, o casal de cegos mais amado do planeta pop, têm o segredo para resistir e manter a doçura em tempos conturbados

A história de Amadou e Mariam é uma das mais bonitas e inspiradoras da música atual. Uma trajetória de mais de quatro décadas de amor entre dois artistas cegos que se tornaram embaixadores não só da cultura de seu país, mas de toda a África Ocidental subsaariana, e que levaram aos quatro cantos do planeta sua arte sempre a aberta a combinações e misturas. Suas canções e suas apresentações são de uma alegria e um otimismo indestrutíveis, ainda que conscientes das mazelas e tragédias que afetam o continente e, claro, o resto do mundo também. Em um hotel na Lapa, centro do Rio de Janeiro, o casal recebeu o Reverb para uma entrevista antes do show na virada deste sábado (30) para domingo (1º de dezembro), às 0h30, na Fundição Progresso, como atração principal do Mimo Festival.

O Mali fica na África Ocidental, sem acesso ao oceano, e ocupa extensão territorial semelhante à do estado do Pará, um pouquinho menor. É o sétimo maior país do continente, com uma população estimada em 18,5 milhões de habitantes, não muito maior do que a do estado do Rio de Janeiro.A música do país, porém, tem projeção mundial, a partir de nomes como o do cantor albino Salif Keita, 71 anos, que carrega o epíteto "a voz de ouro da África" (e inspirador do verso "quando ouvi Salif Keita, dancei", do sucesso "À Primeira Vista", de Chico César), com quem Amadou tocou no começo da carreira, e também por instrumentistas admirados como o guitarrista Ali Farka Touré (1939-2006), conhecido internacionalmente depois da associação com o americano Ry Cooder e famosamente descrito pelo cineasta Martin Scorsese como "o DNA do blues". Amadou & Mariam seriam uma faceta mais pop do Mali, com imenso sucesso na Europa a partir de "Dimanche à Bamako", álbum de 2004 produzido por Manu Chao, marco do que até então era chamado de world music (antes do rótulo cair em desuso).

Damon Albarn, do Blur, foi um dos fãs imediatamente atraídos por eles. Ele os chamou para seu projeto Africa Express e os fez famosos na Inglaterra, como atrações do festival de Glastonbury. Depois de cantar e tocar na abertura de duas Copas do Mundo (2006 e 2010, quando se apresentaram com Shakira, Alicia Keys e John Legend), Amadou e Mariam excursionaram com Coldplay e U2 e gravaram com TV on the Radio, Santigold, Jake Shears (do Scissor Sisters) e o francês Bertrand Cantat. A mais recente colaboração foi com o tradicional grupo americano de gospel Blind Boys of Alabama, que rendeu duas faixas e alguns shows este ano.

Amadou e Mariam: 41 anos de amor e música/ Foto: Bárbara Martins
Amadou e Mariam: 41 anos de amor e música/ Foto: Bárbara Martins

No sofá do Hotel Vila Galé, na Lapa, Amadou diz que eles estão casados há 40 anos. Mariam o interrompe para corrigir com firmeza: "São quarenta e um". Ao longo desse tempo todo, trabalhando juntos também, eles superaram várias dificuldades, mas preferem se fixar nas coisas boas. "Aprendemos muita coisa juntos, fizemos belas canções de amor e conseguimos jogar um pouco de sol na vida das pessoas, aquecer o coração de muita gente. A maior lição é que é preciso ter muita esperança", conta Amadou. Sobre o casamento em si, que rendeu três filhos já crescidos (e netos), ele diz que "não é fácil, mas amar a música e gostar das mesmas coisas ajudou a lutar juntos". Mariam, mais terna, completa: "Estamos sempre juntos, a felicidade de um é a felicidade do outro".

Os dois se conheceram em 1975 no Instituto Para Cegos de Bamako, capital do Mali — na época, a única instituição educacional do gênero do país. "Era pequeno, começou com duas turmas. Depois viraram nove. Hoje tem um centro com boa estrutura, onde muita gente pode trabalhar. Mesmo com as dificuldades de hoje no país, é um centro que funciona bem, é nossa ponte para integração", comenta Amadou.

A admiração musical foi mútua e importante para que os dois se aproximassem. Mariam, que ficou cega aos cinco anos, lembra que sua família não se opôs à carreira musical. Pelo contrário. "Desde pequenininha, os vizinhos chamavam para cantar em casamentos e batizados. Todo mundo me encorajou. A música é um dom. Todos os dias, eu escutava o rádio e depois tentava imitar as cantoras", conta. Suas inspiradoras? "No Mali, tínhamos Fanta Damba (hoje com 81 anos, vinte a mais que Mariam). Na França, havia Nana Mouskouri, Mireille Mathieu, Nicoletta. E Sheila (cantora pop francesa de imenso sucesso nas décadas de 60 e 70, hoje com 74 anos), eu cantava muitas músicas dela."

Mariam lembra que, em que pesem os problemas políticos do pais (guerra civil jihadista no norte do país), muita coisa melhorou nos direitos femininos. "As mulheres não eram consideradas para nada. Hoje há mulheres em vários setores do poder: ministras, deputadas, mulheres no governo", observa. Essa perspectiva não a faz deixar de militar e defender as mulheres de seu país e de outros países africanos, participando do supergrupo feminista Amazones d'Afrique, formado em 2015, e de projetos como o Raise Hope for Congo.

Amadou nasceu com catarata congênita e foi perdendo a visão gradativamente — a cegueira completa só chegou aos 16 anos. Na autobiografia "Longe da luz do dia", ele lembra que, quando morava numa pequena cidade a 800 quilômetros da capital do Mali, o pai não o deixou ir com os coleguinhas a um grande festival de pescaria. Amadou ficou tocando com dois outros meninos e ganhou de presente desse seu primeiro "público" mais peixes que seus companheiros de turma conseguiram pescar. No dia seguinte, o irmão menor de Amadou morreu em um riacho. "Mais tarde na vida, soube que Ray Charles teve a mesma infelicidade (no caso, o irmão do cantor e pianista americano se afogou numa banheira). Eu sorri e entendi que as dificuldades, a cegueira e a morte de um ente amado nos mostraram um caminho na vida. Tivemos que aceitar os obstáculos", conta.

Um encontro com um tipo de música ajudou o guitarrista a escolher seu caminho nas encruzilhadas do começo da adolescência. "Quando eu escutei o blues americano, a partir de John Lee Hooker (1917-2001), adorei. Porque aquilo ia bem com a música do Mali, o blues maliano. E aí tinha também os grandes guitarristas, BB King (1925-2015), Alvin Lee (1944-2013)... E depois dos bluesmen, fui ouvir os roqueiros também. Eu amo o blues em toda a sua diversidade", lembra Amadou, com empolgação quase juvenil ao evocar talentos negros e brancos, americanos e ingleses.

A recente onda de interesse de superastros como Beyoncé e Drake por colaborações com músicos africanos é vista com simpatia por Amadou e Mariam. "É proveitosa para os dois lados. Sei que para os popstars essas parcerias lhes oferecem uma nova cor, uma nova visão. A música africana antes ficava apenas no nicho da world music, no máximo entrava numa percepção de blues. Agora já se mistura com rock, pop e entra na base de todos os gêneros. Para nós, não faz mal misturar tudo", comenta Amadou.

Depois de fazer discos e parcerias com músicos de tantas nacionalidades (incluindo aí o EP "Mali Meets Latin America", de 2013, com toques do grupo colombiano Bomba Stereo, DJs e músicos argentinos, entre outros), fica a pergunta: quando eles irão se juntar a brasileiros em algum projeto? Já em sua quarta visita ao Brasil — a primeira, no Rock in Rio, foi marcante por causa da "ola" do público, audível e sentida por Amadou —, eles avisam que o desejo existe. "Já colocamos o ritmo do samba misturado em algumas de nossas gravações. Amamos muito Gilberto Gil, conhecemos bem as canções incríveis de Jorge Ben e muitos outros grandes artistas. Acho que essa ocasião vai chegar, sim", conta Amadou.

Com letras vistas como ingênuas por parte da crítica, Amadou e Mariam se recusam a perceber o mundo com amargura. Muçulmanos sufi, mesmo com todos os problemas trazidos pelo jihadismo, passam ao menos dois meses por ano em seu país. "Em nosso país, há a guerra. Por todo mundo, há a violência. Mas é preciso encontrar uma saída. Tenho confiança que isso vai terminar um dia e que vamos reencontrar a paz. Vamos nos falar e nos entender", prega Amadou. "Com as mensagens de algumas letras, as pessoas vão se lembrar do que vai mal no mundo. Mas a música faz parte da vida. Nós queremos que as pessoas dancem e cantem. E tenham esperança."

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