Ameaçado de extinção, Projeto Guri já iniciou 770 mil alunos na música
Inspiração

Ameaçado de extinção, Projeto Guri já iniciou 770 mil alunos na música

O Projeto Guri se apresenta como “referência na música e na vida”. E de uma forma simplificada isso resume bem o que é o programa do estado de São Paulo, considerado um dos maiores do país no âmbito sociocultural. Ali, a música é o ponto de partida, mas o projeto se estende por tantas outras áreas que só a palavra vida para compilar toda amplitude dessa atuação. Presente em 280 municípios, com 336 pólos e 50 mil vagas para formação musical oferecidas de forma gratuita a crianças e adolescentes de 6 a 21 anos, o Guri virou notícia recentemente não pelos seus grandes feitos, mas por conta do corte de verba na cultura que resultaria na demissão de boa parte de seus funcionários.

A controvérsia foi tanta que o caso teve uma reviravolta pouco tempo depois. No último dia 1º de abril, após pressão popular, o governo de São Paulo decidiu voltar atrás. Portanto, o programa continuaria funcionando na íntegra e ainda com a promessa de ser aumentado em 2020. Foi um alívio aos mais de 1.500 profissionais empregados na área musical, além de cargos administrativos, e para os alunos, a maioria carentes, que se beneficiam das aulas.

Em meio a todo esse imbróglio, o projeto se viu abraçado até por quem ainda não o conhecia, como explica Maria Eugênia de Menezes, gerente de comunicação e marketing da Amigos do Guri, órgão responsável pela administração do programa, em entrevista ao Reverb: “Além da mobilização dos estudantes e da população para que o Projeto não sofresse redução de suas atividades, foi lançado um abaixo-assinado no Avaaz contra o fim do Projeto Guri que já reuniu mais de 178 mil assinaturas”.

E quanto mais se sabe sobre o programa, maior é a certeza da sua relevância. O Projeto Guri oferece 29 cursos — iniciação musical, coral, prática e construção de instrumentos —, e foi criado em 1995 pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa. Hoje é uma política público-privada que em 24 anos de existência já atendeu mais de 770 mil alunos no Estado de São Paulo, causando impacto direto na formação de crianças e jovens e, consequentemente, na vida de milhares de famílias. Deixando um verdadeiro legado para quem passa por lá.

Exemplo disso é o percussionista Jônatas Campos de Oliveira, 22 anos, que entrou no programa aos nove, no Polo Pilar do Sul. Durante esse tempo, se apresentou em grandes teatros de São Paulo, gravou em estúdio para o aniversário de 18 anos do Guri e participou do Festival Ethno, na Suécia, onde conheceu músicos de outros países. Em 2018, ainda recebeu um convite irrecusável: tocar nas comemorações dos 60 anos do cantor Andrea Bocelli, durante passagem pela capital paulista.

Experiências como essa foram fundamentais para que ele escolhesse a música como profissão. “Aos 15 me tornei bolsista do Grupo de Referência de Sorocaba, com formação Coro e Percussão. Foi o momento em que decidi ser músico pela experiência incrível que eu tive de fazer um espetáculo chamado ‘Calunga — O Mar que Separa é o Mar que Une’, na qual gravamos um DVD no auditório do Ibirapuera, tocando ao lado do grande Naná Vasconcelos, que infelizmente já faleceu”.

Aluno do Projeto Guri, Jônatas Campos de Oliveira realizou o sonho de tocar com Andrea Boccelli em São Paulo / Divulgação
Aluno do Projeto Guri, Jônatas Campos de Oliveira realizou o sonho de tocar com Andrea Boccelli em São Paulo / Divulgação

O jovem músico entrou no programa em um momento difícil da família, quando estava sofrendo por conta da separação dos pais. Foi então que o curso de percussão, escolhido apenas porque Jônatas achou o nome bonito, passou a ser também um refúgio dos problemas em casa. Hoje ele faz parte da Orquestra Sinfônica Heliópolis, sob a Regência de Isaac Karabtchevsky, maestro brasileiro considerado um dos ícones do país, e reconhece o quanto isso é reflexo do tempo em que esteve no programa: “O Guri me ensinou que é possível conquistar tudo o que eu quero, basta uma decisão minha de lutar para chegar nos meus objetivos. Eu sou muito grato ao projeto”.

Assim como ele, outros alunos também participam de vivências extraclasse memoráveis para qualquer músico, independentemente da idade. OGrupo de Referência de Jundiaí – Orquestra Sinfônica, por exemplo,já se apresentou com a cantora Leci Brandão. Enquanto oGrupo de Referência de Franca – Camerata de Cordas Dedilhadasfez uma performance com Ivan Vilela, um dos violeiros mais importantes do país.

“Os Guris também já tocaram com Zeca Baleiro e muitos outros artistas. Inclusive, dentro do Projeto Guri temos um trabalho chamadoGuri Convidaonde artistas conhecidos do cenário musical se apresentam com nossos alunos para uma troca de experiências.Acreditamos que a convivência com músicos consagrados possibilita o aprimoramento de técnicas, estimula a criatividade e amplia a referência musical dos jovens”, enumera a Amigos.

Assim, promovendo intercâmbios e encontros musicais, o Projeto Guri segue na missão de contribuir para um mundo de possibilidades aos alunos. E aproveita o recente fôlego para seguir mais forte nesse propósito: “Nosso objetivo é continuar trabalhando para a excelência musical, em prol do desenvolvimento humano de gerações em formação. Pretendemos manter a qualidade do Projeto Guri e continuar como referência na música e na vida de jovens”.

Tags relacionadas:
InspiraçãoEducação

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest