Amy Winehouse: nos oito anos de sua morte, lembramos a doce-amarga passagem pelo Brasil
Inspiração

Amy Winehouse: nos oito anos de sua morte, lembramos a doce-amarga passagem pelo Brasil

Passados oito anos de sua passagem pelo Brasil, ela canta cada vez melhor. Cada vez mais amada, Amy Winehouse é inspiração para bonequinhas de pano fuleiras e bonecões de Olinda bicudos, fantasia temática obrigatória em todos os carnavais, objeto de culto e devoção.

Nos grandes, pequenos e médios centros nacionais — e nas periferias também —, a cantora inglesa é homenageada todas as noites. Seja no repertório de barzinhos com música ao vivo, em karaokês ou nas playlists mecânicas — dos mais exclusivos lounges com pulseirinha vip ao mais infecto dos botequins, da mais animada balada vip ao mais triste dos lúmpen lupanares.

Amy Winehouse: mito pop do século 21/Getty/Chris Cristoforou
Amy Winehouse: mito pop do século 21/Getty/Chris Cristoforou

Não, não, não... Não se tratava de ver um artista no auge. Acostumado às visitas de roqueiros legendários, porém na curva descendente de suas carreiras, em 2011, o público brasileiro parecia excitado por uma ideia em torno de Amy Winehouse: testemunhar o ícone enquanto ainda era possível. Em novembro de 2010, quando a Mondo Entretenimento anunciou a turnê da cantora, houve quem hesitasse na compra do ingresso, prevendo eventual prejuízo por um cancelamento pra lá de provável. A moça não tinha feito shows nos últimos dois anos, apenas aparições em programas e participações aqui e ali. No aquecimento para a turnê, houve uma mísera apresentaçãozinha, em festa fechada na Rússia, por 40 minutos. Ninguém poderia garantir nada a partir disso.

Foliã fantasiada de Amy no carnaval de 2013, Bloco das Carmelitas, no Rio/ Getty/Buda Mendes
Foliã fantasiada de Amy no carnaval de 2013, Bloco das Carmelitas, no Rio/ Getty/Buda Mendes

Durante esse longo alcoholiday, semana sim, semana não, Amy oferecia ao maior e mais cruel tabloide do mundo, a internet, imagens de sua decadência. Cambaleante, despenteada, desmaiada, com marcas de porrada, alterada, toda zoada... Superexposição sem filtro, com figurinos e poses hipocritamente descritas como “mostrando mais do que devia” – ou menos, no caso de um ou outro molar desfalcando o terno anti-sorriso Colgate que ela insistia em oferecer ao mundo. Quando as intempéries permitiam, lógico.

Mas os fãs queriam essa mulher assim mesmo. Ou, quem sabe, essa personagem. As entradas para o safári brasileiro foram rapidamente esgotadas e, na reta final, surgiu até uma data extra no Rio de Janeiro. O esquema fora planejado para amortecer os efeitos de eventual forfait: em São Paulo, Recife (na verdade, Olinda) e Florianópolis, Amy viria como atração de fundo de um certo Summer Soul Festival. Nele, atrações de ótima cepa, como os americanos Janelle Monáe e Mayer Hawthorne poderiam funcionar como colchão caso a inglesa caísse da cama. Não haveria perda total, apesar de nem Janelle nem Mayer serem conhecidos por aqui. O cachê de Amy: cerca de 13 milhões de reais, segundo dedurou o jornal britânico "The Sun".

Amy no Brasil: carisma à prova de quase tudo/Getty/Alessandro Auler
Amy no Brasil: carisma à prova de quase tudo/Getty/Alessandro Auler

Ela fez do Rio de Janeiro seu QG. Chegou de jatinho particular na quarta-feira, 5 de janeiro de 2011, e com ele se deslocou até Floripa, Recife e São Paulo. Ficou hospedada junto com 15 pessoas de sua equipe (músicos, técnicos, seguranças..) longe da orla e do burburinho turístico. Por recomendação de Jeff Beck – ele mesmo, o legendário guitarrista inglês -, optou pelo Hotel Santa Teresa, no bairro alto e central conhecido por ser bucólico e ao mesmo tempo boêmio e hippie, sujeito a respingos de violência das oito favelas da área. A aventura prometia. Da varanda da suíte de Amy, 160 metros quadrados, diárias a cerca de 3.000 reais, a vista deslumbrante inclui a serra de Petrópolis e Teresópolis. Da banheira, vê-se o Corcovado, Redentor, que lindo... O número do quarto: 51, detalhe que rendeu a repórteres televisivos um sorrisinho de canto de boca a cada menção.

Só faltava uma coisa ali: zelosa, a produção da cantora ordenara que o frigobar fosse abastecido apenas com água mineral, sucos e refrigerante. Tentaram explicar a uma inconformada Amy que o local era uma espécie de spa, daí a ausência de bebidas alcoólicas. Ela não engoliu: pediu para conhecer mais dependências daquele estabelecimento tão zen e, assim que entrou em outro quarto, abriu a geladeirinha e foi saqueando garrafa por garrafa, começando pelos espumantes.

No menu do estrelado restaurante do hotel, o Térèze, delícias da cozinha brasileira com um toque do chef francês Damien Montecer esperavam o apetite da cantora. Qual o quê! Amy desprezou os hits locais - risoto de moqueca e salada de pupunha com chèvre - e pediu pelo room service uma pizza de pepperoni simplezinha. Comeu sem modos, enrolada em forma de wrap, alternando com talagadas de champanhe, e fez desse seu menu rotineiro. A única concessão à alta gastronomia durante a estadia: um hambúrguer de lagosta, s’il vous plaît.

Do equipamento de ginástica instalado on demand nas proximidades da suíte não fez muito uso. Sem barracos, gritaria ou extroversão desnecessária, Amy deixou entre os funcionários do hotel boa impressão. Tímida, educada e pequenininha foram três adjetivos repetidos na definição da hóspede vip por aqueles que a serviram. Decepção apenas para os que esperavam a diva doidaralhaça vivissecada pelos tabloides ingleses. Na primeira noite, Amy não saiu.

Ainda acordou cedo no dia seguinte: às 9h apareceu na varanda e pouco depois desceu, junto com seguranças, de short e parte de cima do biquíni, para aproveitar o primeiro dia de sol de 2011 na Cidade Maravilhosa. Tomou seus bons drinques, pegou amizade fácil com a nossa caipirinha... e só. Nada de Lapa, não se tem notícia de nenhuma esticada ou de atividade noturna mais animada dentro da suíte 51 entre quinta e sexta-feira.

Porém no dia 7, sexta-feira, devidamente documentada pelos paparazzi, a aparição na varanda foi mais tardia e condizente com a iconografia dos três anos anteriores. Cara de ressaca, cabelo em desalinho, mecha fazendo as vezes de tapa-olho, ela surgiu com a parte de cima do biquíni totalmente fora de prumo, pagando meio mamilo de cada lado. Detalhe: era o mesmo traje de banho do dia anterior, e provavelmente o mesmo short – e sabe-se lá se o mesmo mais o quê por baixo.

A mídia inglesa registrou a cena com entusiasmo. Parte dela tinha cruzado o Atlântico para flagrar a party animal explorando todos os encantos da exótica capital tropical do hedonismo. Outra parte, porém, estava pagando para ver – ou melhor, pagando para ouvir. Será que Amy conseguiria voltar aos palcos? Como soava sua preciosa voz, depois de anos de maus-tratos e destreino? A emissão, em que condições estaria, após o enfisema, o crack e todo aquele silicone? À tarde, Amy deleitou os colegas de piscina – hóspedes, seguranças e staff do hotel - com agradável cantoria. Mas subiria ao quarto amparada pelos seguranças, companhia mais freqüente nos cliques de sua passagem pelo Brasil.

A solidão com entourage, triste modalidade, foi quebrada no sábado pela visita do guitarrista Ron Wood, dos Rolling Stones. Amigo trinta e três anos mais velho que Amy, porém com vários interesses em comum. Fã de soul music, jazz e blues, ele também vinha de um rehab recente e estava na cidade por causa da atual namorada, a brasileira Ana Araujo. Tio Ronnie passeou abraçado com a cantora pelos jardins do hotel e ajudou a amenizar o previsível nervosismo pelo show de retorno, marcado para aquela noite, em Florianópolis.

O voo saiu tarde, Amy só chegaria à capital catarinense às 23h. Foi direto do aeroporto para a boate Pacha, local do show, no norte da ilha de Santa Catarina. Tudo no reloginho: com escolta da polícia militar, em uma hora já estava no camarim Mais meia-horinha lá e deu para entrar no palco pontualmente, dez minutos antes da 1h da manhã. “Oi, Floripa! Introducing Miss Amy Winehouse”, anunciaram os vocalistas de apoio, Zalon Thompson e Heshima Thompson (irmãos com pedigree, filhos de um grande craque do reggae, o cantor e produtor jamaicano Dr. Alimantado). Foi a deixa para o delírio dos dez mil presentes no Stage Music Park, um “complexo de entretenimento” talvez mais afeito a festivais eletrônicos, micaretas pseudochiques e afins.

O clima era de balada, calorão, todo mundo calibrado e acelerado pelos shows anteriores – de Mayer Hawthorne e Janelle Monáe... Amy entrou de vestidinho curto cor de salmão com decote branco e mandou uma sequência de três hits do rolo compressor Back To Black: “Just Friends”, ‘Back to Black” e “Tears Dry on Their Own”. Não era a mesma cantora do showzão da BBC em Dorchester ou do incrível DVD que converteu boa parte dos fãs, "You Know I’m No Good – Live in London". Mas a voz estava lá, intacta, o jeito de moleca à vontade, o carisma de ícone... Então veio a primeira surpresa: o tango estilizado “Boulevard of Broken Dreams”, standard de Al Dubin e Harry Warren conhecido na voz de Tony Bennett. Amy se atrapalhou na introdução e certa aura foi se dissipando. Sem parecer incomodada, emendou outra cover, de Little Anthony & The Imperials, a delicada “I’m on the Outside (Looking In)”, em dinâmica antagônica à turma dos energéticos.

Não ajudou muito abrir espaço logo depois para Zalon cantar outro doo-wop, “Lovers Never Say Goodbye” (The Flamingos). Ele ainda teria dois outros solos no roteiro, incluindo versão de “Everybody Here Wants You”, de Jeff Buckley. Deu tempo para Amy se concentrar no final matador, com “Rehab”, “You Know I’m No Good” e “Me and Mrs. Jones”. O bis, algo protocolar, diante dos pedidos pouco incendiários, teve “Valerie”. Durante o show, porém, a cada vez que Amy bebia água, gritinhos de excitação ganhavam a arena. O circo não chegou a bater a música, mas fez jogo duro naquele primeiro show de pouco mais de 70 minutos.

A escala seguinte, na Arena HSBC, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, seria mais acidentada ainda. De microvestido tigrado, Amy repetiu quase todo o repertório, mas claramente não estava apenas na aguinha. Cambaleou com certa graça, riu à toa com os músicos, leu letras abertamente e bebeu direto de uma enigmática canequinha. Durante “You Know I’m No Good”, com o simples ato de virar uma cervejinha longneck, extraiu gritinhos eufóricos de boa parte dos 15 mil presentes. Antes do fim da música, porém, já dava mostras de impaciência. Em meio ao bis precoce, deixou a banda sozinha tocando “You’re Wondering Now”, original dos Skatalites. No taxímetro de alguns fãs e de muitos vips (Rio, terra de globais e celebridades), os 55 minutos foram considerados mixaria. “Avisa a Amy que não tá fácil pra ninguém – minhas irmãs pagaram 700 reais pra ver o show”, resmungou Luana Piovani.

A cantora deve ter levado algum puxão de orelhas ou pelo menos um toque dos produtores, porque no show do dia seguinte, no mesmo cafundó cercado de trânsito por todos os lados, ficou no palco por pouco menos de 80 minutos. Com flor no cabelo, fez questão de interagir com o público, dançou bastante, levantou a barra do vestido e demonstrou estar se divertindo – dessa vez, não só consigo mesma. Estava desfeita a má impressão – a nova leva de 15 mil cariocas saiu satisfeita com seu pedaço de Amy.

No Centro de Convenções de Olinda, mais soltinha, mais confiante, ela deu o show mais longo da turnê, cravando 1 hora e 20 minutos sobre o palco. A confiança, no entanto, provou-se perigosa. Na hora de apresentar os músicos, arriscou uma pirueta e, apoiada em um pé só, caiu. Levantada com ajuda de seu anjo da guarda Zalon Thompson, não sentiu o golpe e seguiu o baile na mesma toada trôpego-simpática. Com um bônus: uma cover papa fina para “Stagger Lee”, de Lloyd Price.

A curva crescente parecia apontar para uma apresentação melhor em São Paulo, diante da maior plateia, 30 mil pessoas. Parecia... O Anhembi, como sempre, não ajudou. As dimensões, pouco adequadas às sutilezas do repertório, ganharam o desserviço de uma abominável área vip, distanciando mais ainda os fãs do palco. E os telões pareceram ter bebido: falharam por 10 minutos justamente durante o show dela. A estrela? Esteve opaca, meio ausente, deixando a desejar mesmo no quesito afinação.Nesse contexto caótico, o hit “Rehab” foi sacrificado como apresentação da banda e Amy deixou de cantar até mesmo um pedaço de “You Know I’m No Good”. No bis burocrático, “Love is a Losing Game” e “Me and Mr. Jones”.

Amy Winehouse deixou o Brasil dando esperanças a seu empresário, Ray Cosbert. Mas já em 11 de fevereiro, no passo seguinte da turnê, em Dubai, veio a catástrofe; com falas “incoerentes”, Amy Winehouse se arrastou por três canções até sair do palco, vaiada e xingada.

Cosbert não desistiu da mulher que chamava de “minha menina”. Em 16 de junho, ele tentou outra vez, iniciando uma perna europeia por Belgrado, na Sérvia. E o desastre se repetiu. Amy, em estado lamentável, resmungou, cambaleou, tentou sentar num banquinho e não conseguiu... Nove dias depois, o próprio empresário anunciaria a aposentadoria da cantora. “Por anos e anos”, detalhou.

Em 9 de julho, o jornal "The Sun" publicou que ela tinha bebido até cair em três noites de uma mesma semana. Não houve tempo para muitas outras tabloidices. Às 13h, de 23 de julho, a cantora de 27 anos seria encontrada morta em seu apartamento, em Camden Town, Londres.

Coube ao fã brasileiro testemunhar, em janeiro de 2011, aquela Amy possível, em seus últimos lampejos de brilho. Não foi pouco.

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