Andy Manson, o luthier britânico que constrói guitarras para lendas do rock
Inspiração

Andy Manson, o luthier britânico que constrói guitarras para lendas do rock

Com pouco mais de 9 mil habitantes, o vilarejo português de Mortágua é pacato. A cerca de 50 quilômetros de Viseu, no norte do país, lá a vida corre sem grandes preocupações e a grama nas matas cresce rápido. A quietude é tanta que mal se percebe que o lugar esconde um paradoxo. Foi lá que um dos maiores luthiers de violões do século escolheu para viver. Há quase oito anos, o britânico Andy Manson mora com a família em terras portuguesas. Para lá, levou toda a bagagem de quem constrói guitarras, violões e bandolins do zero para músicos anônimos e ícones do rock, como Jimmy Page e John Paul Jones, ex-Led Zeppelin, além de Josh Homme, do Queens of the Stone Age, e Matt Bellamy, do Muse.

O luthier britânico é a mente responsável por trás do icônico instrumento de três braços do lendário baixista do Led Zeppelin. Composta por um braço de 12 cordas, outro de seis e um de bandolim, a criação surgiu depois de uma ida de Manson a um show da banda. Em um determinado momento da apresentação, ele percebeu que John Paul Jones alternava entre três instrumentos para um set acústico.

“Eu vi aquilo e pensei que talvez seria melhor se ele ele pudesse fazer tudo ao mesmo tempo, sem precisar alternar. Até para a experiência do rock’n’roll ser melhor”, conta o senhorzinho de 68 anos. “Eu comecei a construir sem falar com ele, porque não sabia se daria certo. Quando mostrei ao John, ele ficou muito empolgado e falou: ‘espera eu entrar no palco com isso! Mal posso esperar para ver a cara do Jimmy’”, relembra, em meio a risos tímidos e com a voz sempre serena. A brincadeira de John era para implicar com o colega Jimmy Page, famoso por ostentar uma double neck, a guitarra de dois braços.

Manson e John se conheciam desde quando o luthier decidiu tocar a campainha do artista sem ser convidado. Assim mesmo, na cara de pau.

“Eu tinha acabado de sair da faculdade e simplesmente bati na porta dele e disse ‘oi, eu sou o cara que conserta guitarras por aqui. Se você precisar de algo, pode falar comigo’. Ele já era famoso com o Led Zeppelin. Morava em uma casa enorme, com um estúdio de gravação e todo o resto. Eu, enquanto jovem, fiquei muito impressionado. Ele me chamou para entrar e me deu uma Telecaster (famoso modelo de guitarra) para eu dar uma olhada. Acho que aquilo foi uma espécie de teste.”

John Paul Jones e a guitarra de três braços construída por Andy Manson / Foto: Arquivo
John Paul Jones e a guitarra de três braços construída por Andy Manson / Foto: Arquivo

E ele passou. Desde os anos 1970, Andy já fez mais de 15 instrumentos para Jones. Entre eles, muitos bandolins: “Ele é um fã de bluegrass e vai a todos os festivais disso. Eu fiz muitos bandolins para ele de diferentes tipos”. Entre os clientes famosos, estão ainda Andy Summers, do Police, Ian Anderson, do Jethro Tull e Mike Oldfield.

Filho de pai engenheiro, Andy começou a carreira como construtor de instrumentos por acaso. Também por acaso, segurou um violão pela primeira vez. Seu instrumento de origem era o piano: ele fez aulas dos seis aos 15 anos. Aos 16, recebeu um violão velho de presente de um professor em uma época em que todos os colegas de escola estavam em bandas, menos ele. “Eu não tinha um violão, então não poderia entrar em um grupo. Quando ganhei esse, comprei alguns songbooks, um de clássicos americanos, um do Bob Dylan e um do Donovan. Pouco tempo depois um amigo meu decidiu vender o violão que tinha e eu comprei o dele”, conta o luthier autodidata.

A perda dos dois primeiros violões (ele não se lembra exatamente como, mas acha que emprestou para algum amigo que nunca devolveu os instrumentos) o motivou a construir, ele mesmo, os substitutos. A madeira para o serviço veio do entulho que encontrou no galpão que o pai mantinha em casa. O instrumento quebrou após um acidente de carro e foi aí que Andy percebeu como a madeira era importante para o som feito pelo instrumento. “Eu não havia usado a madeira correta na construção e acabei consertando com pedaços de compensado que encontrei no lixo. Foi quando percebi que o som havia mudado e que você poderia controlar a afinação com diferentes tipos de material”.

Para se profissionalizar, ele foi estudar na London College of Furniture. Apesar de a instituição não disponibilizar, à época, um curso para luthiers de guitarra, Andy ficou por lá mesmo (“eu não tinha muito para onde ir”). Durante esse período, conheceu seu mentor, um luthier de Londres que basicamente o ensinou tudo o que pode.

Na vida tranquila que leva em Portugal - para onde foi por influência de amigos e se mudou quase que às pressas para não perder a oportunidade de comprar uma casa -, costuma construir pouco mais de uma dúzia de instrumentos por ano. Os preços variam mas não costumam sair por menos de € 6 mil euros (cerca de R$ 25 mil). A mais cara que já lembra ter feito custou € 11 mil (ou R$ 46,1 mil). Com a mulher e o filho, passa os dias aproveitando a calmaria do vilarejo. Pelas manhãs, quando não está chovendo, gosta de caminhar e observar a rapidez com que o mato ao redor cresce (“é quase um floresta!”). Uma vez por semana, sai para dançar e, em outros dias, se reúne com amigos para fazer um som. Ele, obviamente, fica na guitarra.

“Para mim, tocar música tem sido quase como uma meditação. Você foca naquilo e nada ao redor importa. É uma forma de expressar como você se sente. É uma linguagem universal, independente de idioma ou religião. É algo que você pode aproveitar da forma mais simples e elevar para infinitos níveis”.

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