Aos 19 anos, Gabz é uma das grandes promessas do rap nacional
Inspiração

Aos 19 anos, Gabz é uma das grandes promessas do rap nacional

O contato com a arte começou muito cedo, ainda dentro de casa. Todo domingo era dia de faxina no pequeno apartamento de um conjunto habitacional no bairro do Irajá, Zona Norte do Rio de Janeiro, e a família aproveitava o momento para colocar suas músicas preferidas para tocar. Do pai, veio o rock gringo dos anos 1980; da mãe, influências nacionais como Os Mutantes e Secos e Molhados. Essa é a primeira lembrança marcante — e bastante definitiva — para o que ainda estava por vir na trajetória de Gabrielly Nunes. Em pouco mais de dez anos, sem se conter à fronteiras sociais pré-estabelecidas, a jovem se tornou uma das maiores promessas do rap nacional: adotou o nome artístico Gabz e recentemente ultrapassou a marca de meio milhão de visualizações no seu clipe de estreia, do “Do Batuque as Bass”, lançado em abril.

Autora de rimas provocativas, daquelas que não desgrudam da cabeça, a cantora de 19 anos tem como objetivo levar para o seu público as mensagens que nasceram ainda no subúrbio carioca. E quem vê Gabz, tão nova e toda empoderada nos palcos, não imagina o longo caminho de descobertas até lá. “Sempre tive certeza da arte como a única maneira possível para me expressar, mas demorei muito até encontrar o espaço certo para mim”, lembra. Incentivada pelos pais a desenvolver seus dotes artísticos desde criança (raridade, segundo ela, para quem vem da periferia), a menina ingressou em aulas de balé no Theatro Municipal e artes cênicas no Tablado. Chegou a trabalhar na série “Teca na TV”, do Canal Futura, e integrou o elenco do filme “Xuxa — Um Sonho de Menina”. Quando as primeiras oportunidades em novelas começaram a aparecer, vieram junto alguns questionamentos.

Ao frequentar o universo luxuoso de estúdios da maior emissora de TV nacional, Gabz percebeu que o destino em uma carreira estável como atriz não dialogava com as suas origens humildes. “Independentemente de onde estava, acabava me sentindo excluída. Ao mesmo tempo que levava uma vida glamourizada, eu tinha que voltar para casa à noite e sofria com a falta de pertencimento com o lugar onde nasci”, explica ela, que decidiu fugir de moldes estereotipados para encontrar sua própria linguagem. Voltou aos estudos — a jovem só levou uma rotina convencional nas escolas a partir do Ensino Médio — e foi a primeira da família a passar para uma faculdade: Ciências Sociais, na Unirio, quando ainda tinha 16 anos. Perto desta fase, sucumbiu ao preconceito, alisou o cabelo e percebeu que ainda estava longe de se encontrar.

Em busca de suas raízes, mergulhou de cabeça na arte de rua e, em meio à cultura do skate e do grafite, descobriu o slam — espécie de batalha performática, onde os competidores lêem suas poesias. Com tanta coisa para dizer, não foi à toa que um vídeo com uma de suas apresentações chamou atenção do produtor de rap francês Damien Seth após viralizar no final do ano passado. “A intensidade da sua performance me passou uma verdade muito grande. Era uma entrega típica de grandes artistas”, conta ele, que já trabalhou com nomes como Emicida, Marcelo D2 e Iza. Parceria formada, o primeiro clipe gravado com baixíssimo orçamento atingiu mais de 100 mil visualizações em duas semanas e a música se tornou a maneira como Gabz, já dona de longas tranças, passou a se comunicar com o mundo.

Em pouco tempo, a cantora conquistou espaço e respeito em um dos gêneros musicais mais dominados pelos homens. “Estou aqui para criar precedentes e construir a minha própria narrativa”, afirma certeira. Tanto que no setlist de seus shows está uma versão para “Maria da Vila Matilde”, canção de Elza Soares sobre relacionamentos abusivos. Se antes a jovem tinha medo de como o público masculino receberia o recado, agora o tema será até mesmo levantado na música autoral “Me Deixe Só”, com previsão de lançamento até março do ano que vem. “Ser quem eu sou e falar neste espaço sobre amor já é algo revolucionário”, afirma, parafraseando uma de suas ídolas, a rapper e atriz americana Lauryn Hill. Erykah Badu e Anderson Paak são outros nomes lá de fora que figuram a lista de inspirações, ao lado de representantes daqui como Nação Zumbi e Sabotage.

Para os que ainda teimam em criticar, a garota manda o recado nas suas próprias letras. “Nesse game ninguém sabe o que faz, mas / Se bater comigo, cê já sabe que cai cai”, canta ela em “Bota a Cara”, seu segundo single que apresenta diversas referências da cultura pop para suas metáforas. Ainda este ano, o público ainda poderá conhecer uma parceria com o rapper e compositor Diogo Moncorvo, mais conhecido pela alcunha de Baco Exu do Blues. E ele dá o seu aval: “A união de uma musicalidade bela e letras inteligentes é o que cativa o público hoje. Talento não tem idade”. O disco completo fica para 2019 e promete agradar muito além dos amantes de rap. “Quero que minha música consiga transcender as fronteiras do gênero e atinja o maior número de pessoas possível”, conclui Gabz, agora já esbanjando o tão almejado poder de comunicação.

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