Aos 82, Chris Blackwell, 'descobridor' de Bob Marley e U2, revê acertos e revela que não quis Elton John, Madonna e Pink Floyd
Inspiração

Aos 82, Chris Blackwell, 'descobridor' de Bob Marley e U2, revê acertos e revela que não quis Elton John, Madonna e Pink Floyd

Quem vê aquele senhor de 82 anos com cabelos e barba brancos, passeando de bermudas por algumas propriedades da Jamaica, nem imagina que já foi o dono de uma das gravadoras mais importantes do século XX. Chris Blackwell hoje se preocupa em administrar uma fazenda; um resort de luxo chamado The Caves in Negril; Strawberry Hill, casa nos arredores de Kingston, onde Bob Marley se retirou após ser baleado em 1976; e em seu refúgio paradisíaco em GoldenEye, onde vive a maior parte do ano e onde o escritor britânico Ian Fleming escreveu todos os 14 de seus romances de James Bond.

Todo esse patrimônio é resultante de seu trabalho à frente da Island Records, que criou em 1959 de forma quase descompromissada. Aos 22 anos, nascido na Inglaterra, ele estava trabalhando como instrutor de esqui aquático na costa norte da Jamaica quando se apaixonou por uma banda local e decidiu gravar sua música. O primeiro passo para um negócio que mudaria completamente sua vida. Hoje o selo revolucionário está fazendo 60 anos, e Chris, aplaudindo de longe, realizado.

Strawberry Hill, uma das propriedades de Blackwell na Jamaica. Getty Images
Strawberry Hill, uma das propriedades de Blackwell na Jamaica. Getty Images

Dos primeiros anos vendendo compactos na mala de seu Mini Cooper pelos bairros de Londres e tentava licenciamentos no estrangeiro para DJs como Coxsone Dodd e Duke Reid, Blackwell chegou a impulsionar as carreiras de nomes como U2, Stevie Winwood, Cat Stevens, Robert Palmer, Roxy Music, e a de um jovem cantor jamaicano chamado Bob Marley.

Ao longo da carreira, ele encabeçou acordos de distribuição inovadores que redefiniram o que uma gravadora independente poderia fazer. Ele abriu dezenas de subsidiárias que permitiram que a Island se expandisse para a música africana, hip-hop, folk e dança - tudo sem diluir sua marca. Ele também fundou uma editora, a Blue Mountain Music, em 1962, e vendeu uma participação de 80% para a Primary Wave no ano passado por US$ 50 milhões.

Comemorando 60 anos em 2019, a Island Records - que Blackwell transformou de uma indie britânica insignificante entre gigantes como Decca e EMI em uma marca mundial - é uma das principais gravadoras do mundo, ostentando atualmente nomes como Shawn Mendes, Demi Lovato e The Killers, além de um catálogo impressionante de clássicos que cruzam gêneros e culturas.

“Ele sempre foi a bússola, a luz que guia os presidentes antes de mim e, espero, os presidentes depois de mim”, diz Darcus Beese, atual presidente da Island, que começou como estagiário na empresa em 1989. “O legado que ele construiu para Island com todos os artistas, seja Traffic ou Bob, seja a música africana e mundial ou os acordos de selos Delicious Vinyl ou Priority que nos deram a NWA, ele era e ainda é o nosso guia”, elogia o executivo.

Hoje em dia, é mais provável encontrar Blackwell conversando sobre a lua cheia ou participando de reuniões sobre rum. Afinal, vendeu a Island em 1989 para a PolyGram por US$ 300 milhões, ainda ficou por lá mais uns anos até decidir se voltar para a expansão de seus negócios imobiliários. "A gravadora perdeu sua identidade, ficou corporativa demais para o 'desajustado dissidente'", diz Blackwell em entrevista à revista Billboard.

Mas é claro que ele não se priva de contar histórias memoráveis, como a de como ele, Jimmy Buffett, o cofundador da MTV, Tom Freston e Bill Flanagan estiveram em Timbuktu, Mali, nos anos 90 e quase foram seqüestrados. "Essa foi por pouco”, lembra ele. São tantos os casos que muitos deles já viraram lendas da indústria da música. Como o de que ele assinou com a desconhecida jamaicana de 16 anos Millie Small em 1962 e assistiu sua faixa "My Boy Lollipop" vender milhões na Inglaterra, derrubando os Beatles do topo dos gráficos. E que recusou a contratação de Elton John porque achava o cantor era muito tímido —"Ele nunca me perdoou", lamenta — e do Pink Floyd, pois achava a banda muito triste. Outra vetada foi Madonna porque, como ele diz, "só contratava alguém que eu sentisse que poderia contribuir de alguma forma, e ela parecia pronta, não precisava de ajuda”. “Neste negócio, você não pode estar certo o tempo todo ”, diz Seymour Stein, que acabou contratando Madonna para a Sire Records, um selo da Warner. “Eu tenho o maior respeito por Chris Blackwell, ele é um dos meus heróis”, elogia.

Houve também o tempo em que ele convenceu Cat Stevens a se libertar da Decca, dizendo ao jovem cantor para exigir um álbum com participação da London Philharmonic Orchestra, o que a gravadora achou absurdo. Pouco depois, Stevens chegou à Island e lançou seu inovador LP de 1970, "Tea for the Tillerman".

A história de Blackwell não pode ser desconectada da de Bob Marley e vice-versa. Os dois transformaram a vida e as carreiras um do outro de tal forma que mudaram o mundo da música também. "Quando ele viu Marley, ele percebeu que se o reggae permanecesse como seria, seria como o calypso, a menos que ele o incorporasse no rock", diz Wayne Jobson, produtor, músico e amigo de longa data de Blackwell. Ele fez uma divulgação maciça no mercado de rock e entre os universitários e colocou The Wailers para abrir para o Traffic. Ele viu que Bob tinha carisma para ser uma estrela do rock", conta Jobson.

Bob Marley foi descoberto por Blackwell. Getty Images
Bob Marley foi descoberto por Blackwell. Getty Images

Outra história envolvendo o cantor e o produtor foi quando os jamaicanos chegaram ao escritório de Blackwell em Londres sem dinheiro em 1972. Ele deu US$ 4.000 para voltar à Jamaica e fazer um álbum. Quando Marley voltou no ano seguinte com as fitas para o que se tornaria "Catch a Fire", Blackwell chamoou o guitarrista Wayne Perkins e o tecladista John "Rabbit" Bundrick para gravar os overdubs que acabaram atraindo fãs de Led Zeppelin e Rolling Stones. “Eu senti que ele alcançaria a comunidade rock, porque suas letras eram fortes e seus pontos de vista eram ótimos”, diz Blackwell. "E eu estava certo, realmente funcionou", completa.

A Island já prosperava quando Marley apareceu e já era líder da indústria em gravações jamaicanas. "Os jamaicanos estavam com fome de ouvir música de seu próprio povo de maneira contemporânea", diz Blackwell. Com outros sucessos com Millie e The Spencer Davis Group e seu vocalista Steve Winwood, Blackwell teve a ponderação de licenciar músicas que ele achava que seriam hits com distribuidores maiores como Fontana, em vez de tentar fazer pela Island. Quando Winwood começou com o Traffic em 1967, a Island estava forte o suficiente para distribuir os álbuns do grupo por conta própria. Mais tarde, Blackwell assumiu a distribuição para outras, como Virgin e Chrysalis, ajudando indies que acabariam se tornando concorrentes.

Steve Winwood e Chris Blackwell. Getty Images
Steve Winwood e Chris Blackwell. Getty Images

"Ele é um dos cinco principais músicos da Era de Ouro", diz Bono, do U2. O vocalista diz que Blackwell os deixou ser "espíritos independentes". "Ele saiu do nosso caminho, o que eu acho que foi o maior elogio que ele poderia nos dar", avalia Bono. No momento em que o U2 cresceu, Blackwell estava se tornando mais ativo com os negócios em geral. A Island era grande demais para ser indie, mas pequena para competir com o poder financeiro das grandes empresas, e parte de seu brilho começava a se desgastar.

Em 1978, Cat Stevens — o maior artista naquele momento — se converteu ao Islã e abandonou a carreira. E então, em 11 de maio de 1981, Marley morreu de câncer. "Isso foi um desastre", diz Blackwell.

“Ver Bob Marley crescer e crescer e conquistar o mundo foi realmente o ponto alto. E quando ele morreu, eu perdi demais. Não era apenas o negócio dos discos, era algo muito maior. Eu nem sei como descrever, algo tão especial já não era o mesmo para mim."

Sob certo aspecto, a Island também parou de precisar dele. Em 1984, a gravadora lançou "Legend", o disco de maior sucesso de Bob Marley e The Wailers, que venderia 15 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos, e passaria 588 semanas na Billboard 200, onde permanece, até hoje, como o segundo lugar mais duradouro de todos os tempos. Em 1987, o U2 lançou "The Joshua Tree", que o consolidou como uma das maiores bandas do mundo.

Bono, Chris Blackwell e Neil Portnow. Getty Images
Bono, Chris Blackwell e Neil Portnow. Getty Images

"Chris tem a graça distinta que somente a pessoa que contratou Bob Marley poderia ter", diz Peter Shapiro, amigo e proprietário do Brooklyn Bowl. "Você não vê muito isso agora. Existem pessoas realmente brilhantes na indústria da música, mas elas falam rápido, têm um telefone próximo a elas o tempo todo. Chris é metódico; quando ele fala, é devagar e com elegância. Ele vem de outra época, mas seu toque é atemporal", observa Shapiro.

De certa forma, a saída de Blackwell da indústria da música no final dos anos 90 aconteceu no momento perfeito: poucos anos depois, a revolução digital iria afundar as vendas, levando as empresas para uma queda da qual só recentemente começaram a se recuperar. Agora, com os orçamentos em expansão e selos assumindo riscos novamente, uma nova classe de executivos adota traços definidores de Blackwell: criatividade sem limites e dedicação total à visão de um artista.

"Eu nunca me vi como um executivo de discos", diz ele. “Eu era bom em identificar talentos e orientá-los. Eu estava interessado no lado criativo e, com isso, na carreira e no sucesso do artista”, diz.

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest