Aretha Franklin, uma artista com consciência social, não somente uma celebridade
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Aretha Franklin, uma artista com consciência social, não somente uma celebridade

Um pouco como hoje em dia, em que vemos o tempo se atropelar e se amontoar ao ritmo do caos político e dos retrocessos que gritam, o final dos anos 1960 em todo o mundo foi um período tão atribulado quanto iluminado. Foi quando, contra os holofotes do horror que escondiam as trevas reinantes, novas luzes ajudaram a mostrar o caminho, o rumo, a saída pela qual ainda procuramos. E uma dessas luzes foi sem sombra de dúvidas a cantora norte-americana Aretha Franklin. Recém-falecida aos 76 anos, Aretha e sua atuação como ativista referência dentro do movimento pelos direitos civis nos EUA foram de tal forma determinantes para uma das mais importantes transformações sociais da história de seu país que poderíamos oferecer um imenso tributo à artista. O fato de ter sido a maior cantora da história dos EUA seria um mero detalhe.

Mas sua voz foi tudo menos um detalhe mero – era ela a arma com a qual Aretha lutava contra as injustiças de sua época. Ao lado do cantor e ator Harry Belafonte, é justo dizer que Aretha Franklin foi uma das mais importantes artistas pela afirmação negra no século XX, e sua participação foi muito além da justa denúncia. Nascida em 1942 no segregado sul dos EUA, atravessou sua juventude ao som dos tiros e da perseguição aos negros que começavam o movimento. Desde os 18 anos, quando passou a cantar profissionalmente, Aretha ajudou com concertos gratuitos beneficentes, dinheiro, abrigo e opinião a causa liderada pelo pastor Martin Luther King Jr. – amigo pessoal do pai da cantora, também pastor.

Em 1966, quando alcançou sucesso comercial, a participação de Aretha se tornou central – como revelou o pastor e ativista americano Jesse Jackson, também ícone do movimento, quando da morte da cantora. “Quando Dr. King estava vivo, diversas vezes ela nos ajudou a pagar os custos”, disse Jackson. “Ela fez 11 shows gratuitos, nos abrigou em sua casa, e ajudou a levantar fundos para minha campanha. Aretha sempre foi uma artista com consciência social, uma inspiração, não somente uma celebridade”.

Aretha sempre foi uma artista com consciência social, uma inspiração, não somente uma celebridade

Foi Aretha quem pagou a fiança pela injusta prisão da professora, filósofa e ativista Angela Davis, em um valor entre US$ 100 mil e US$ 250 mil, uma fortuna ainda hoje, que dirá em 1970. Quando perguntada o motivo, ela imortalizou seu gesto traduzindo sua própria consciência e o espírito de todo um movimento: “Angela Davis é uma mulher negra que quer liberdade para o povo negro. Eu tenho o dinheiro, e quem me deu foi o povo negro – eles me fizeram capaz financeiramente de bancar isso, e eu quero usar esse dinheiro para ajudar nosso povo”, disse Aretha. “Os negros irão se libertar”, concluiu.

Sua consciência, portanto, não seria tão ouvida e nem poderia agir com tanta força, não fosse por sua voz. Aretha ajudou a transformar a música negra e o pop em uma experiência catártica, existencial, política – indo ao óbvio, ouça “Respect” no contexto das lutas civis da época, e entenda não só o movimento negro como a afirmação feminina, de uma mulher negra. Não se tratava mais de entretenimento, nem da beleza pura do canto – se tratava da busca por uma verdade maior. Seja no celebrado disco "Spirit in The Dark", ou em "Aretha Now/Lady Soul", ou no impressionante disco ao vivo "Aretha Live at Filmore West", sempre parece haver uma nova revelação e, ao mesmo tempo, um outro segredo a ser descoberto em e através de sua música. Tudo fica claro e assim misterioso diante de tamanha grandeza de voz e de vida.

Pois, para além da afinação impecável, da potência e do alcance vocal inigualável, do ritmo precioso e único, Aretha foi uma dessas artistas que incluiu a coragem e a urgência como elementos fundamentais de uma grande obra musical. Ser reconhecida como “A Rainha do Soul”, portanto, vai muito além de sua musicalidade — a alma é mais que um estilo, e sim um compromisso de vida. Se há um bom exemplo de que a música pop pode e deve ir além da diversão e distração, seja no sentido político e social, seja no sentido existencial e profundo, esse exemplo atende pelo nome de Aretha Franklin.

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