Argentina institui cota mínima de 30 % de mulheres em eventos musicais
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Argentina institui cota mínima de 30 % de mulheres em eventos musicais

A Argentina mais que dobrará a participação de mulheres artistas em eventos musicais. A partir do próximo ano, elas devem estar presentes em pelo menos 30% da programação em eventos públicos ou privados que tenham três ou mais escalações. A lei que o Congresso da Argentina votou em novembro resulta de um projeto assinado por 700 mulheres ligadas ao meio musical de todo o país.

A cantora Hilda Lizarazu diz que a lei abrirá portas para as novas gerações. Reprodução
A cantora Hilda Lizarazu diz que a lei abrirá portas para as novas gerações. Reprodução

Embora a diferença de gênero na música deva naturalmente diminuir com o tempo, "às vezes é preciso forçá-la a acontecer", diz Diego Boris, presidente do Instituto Nacional de Música da Argentina, uma agência governamental que monitora festivais.

Acredita-se que essa lei de cotas da Argentina seja a primeira do gênero no mundo. Isso acontece no momento em que os festivais em todo o mundo são criticados por nomes como Annie Mac, Dua Lipa e Lily Allen pelas grandes diferenças de gênero de artistas, bem como de movimentos como o Book More Women. A iniciativa Keychange, liderada pela PRS Foundation, de Londres, está buscando um equilíbrio de gênero até 2022.

A cantora de rock Hilda Lizarazu, natural da cidade de Corrientes, diz que a lei torna visível a enorme desigualdade que houve nesses últimos 50 anos em festivais de diferentes gêneros, de folclore, tango, rock, pop e até música clássica. "É uma decisão que abre portas para as novas gerações", comemora.

Na América Latina, a participação feminina no primeiro semestre de 2017 alcançou uma média de 20% nos principais festivais da Argentina, Chile, Colômbia, México e Estados Unidos, segundo o estudo da plataforma Ruidosa. A Argentina teve o pior índice, de apenas 13,2%.

Os resultados do estudo chamaram a atenção de Celsa Mel Gowland, cantora pop argentina que já pesquisava como aumentar a representação de mulheres quando foi vice-presidente do Instituto Nacional de Música de 2014 a 2018. Ela conheceu a senadora Anabel Fernández Sagasti, que redigiu o projeto, que ganhou o apoio de um coletivo com mais de 700 mulheres.

Na Argentina, existem 55 mil bandas e solistas, dos quais 20% são mulheres, segundo Boris. Com a lei de cotas, ele espera que, à medida que mais mulheres subam ao palco, mais meninas se interessem a tocar instrumentos ou cantar, o que ajudará a expandir o cenário musical de uma forma mais igualitária.

Eric Davies, fundador e produtor geral do La Nueva Generación, um festival na cidade central de Córdoba, diz que alguns eventos já aumentaram a representação feminina já que uma nova geração de artistas ganhou seguidores, como as cantoras pop Lali Espósito e Tini Stoessel, famosa por interpretar a protagonista da novela Violetta, do Disney Channel.

Tini Stoessel: muitos seguidores na Argentina. Credito: Getty Images
Tini Stoessel: muitos seguidores na Argentina. Credito: Getty Images

A última edição do La Nueva Generación teve uma taxa de 38% de mulheres, incluindo Lara91k, Malena Villa e Miss Bolivia. Mesmo assim, Davies diz que a cota levará os programadores a trabalhar mais e a ser mais criativos, algo que será positivo para a indústria da música porque "muito talento novo será descoberto".

"Esta lei defende um direito trabalhista e cultural. Nos tempos em que vivemos, não podemos ignorar o que as mulheres têm a dizer. Quando terminamos de comemorar, a primeira coisa que fizemos foi conversar sobre o que acontecerá quando a lei entrar em vigor, qual será a nossa posição em relação aos produtores que agora não terão a desculpa de que já têm a grade fechada”, conta Mavi Díaz, cantora e integrante do grupo Maví Diaz & Las Folkies.

Francisca Valenzuela, cantora que fundou o Ruidosa, diz que a lei aumenta a conscientização sobre os desafios que as mulheres enfrentam para serem notadas em uma indústria dominada por homens. "Essas leis têm o efeito positivo de colocar esses problemas em discussão para que todos vejam, conversem e mudem seu comportamento. Especialmente pessoas que estão em posições de poder ou que podem gerar oportunidades", destaca Francisca.

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