As Encantadeiras: quebradeiras de coco babaçu cantam para fortalecer laços
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As Encantadeiras: quebradeiras de coco babaçu cantam para fortalecer laços

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"Sou quebradeira eu sou, quebrando coco eu vou. Sou quebradeira do interior". O canto de Raimunda Nonata, Sebastiana Ferreira e Maria das Dores não é só delas. Como As Encantadeiras, nome do grupo do qual fazem parte, elas representam as vozes de centenas de mulheres por entre estados das regiões Norte e Nordeste do Brasil, que têm como fonte de trabalho e renda a atividade de quebrar coco das palmeiras babaçu. Com o instrumento natural e a bagagem musical que lhes foi passada de geração em geração, elas cantam para reivindicar direitos básicos como educação e saúde, além de lutarem pelo acesso às terras onde estão as árvores que lhes dão o sustento. 

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A palmeira para elas não é só uma árvore. Ela é a "mãe palmeira". As quebradeiras veem nela o reflexo do ciclo feminino. Assim como as mulheres, a árvore passa por diferentes fases até chegar à época em que dá frutos. Depois, vai deixando de produzir. "Quando a palmeira nasce, ela tem o nome de nascido. Depois vira pindova, palmito e aí que vem a ser a palmeira que começa a produzir. Para ela chegar à produção demora de 15 a 20 anos. Ou seja, ela passa pela infância e pela adolescência até ser mãe. E a gente só utiliza o babaçu quando ele está maduro e a palmeira faz com que ele caia no chão por si só", contou Maria das Dores. A quebra é feita de forma artesanal, com um pequeno machado. Com os pés e as mãos, as quebradeiras dão estabilidade ao fruto para conseguir retirar as amêndoas da casca do coco. Dela, é possível fazer óleo comestível e que também é utilizado na fabricação de cosméticos. 

Quando eu canto ou quando eu componho uma música, eu estou me empoderando. Através do meu canto, eu vou empoderar muitas e muitas quebradeiras mulheres no nosso Brasil afora. Música é tudo 

O grupo de Encantadeiras surgiu como forma de divulgar o trabalho e levar a luta pelo direito à terra ao conhecimento do maior número de pessoas. A atividade é exercida por mulheres, que, juntas, se fortalecem para divulgar a cultura por trás de uma atividade deixada à margem. 

A caminhada até os babaçuais não costuma ser feita só. Nem em silêncio. Em grupo, elas dão apoio umas às outras. O canto, carregado de história e memória, vem para fortalecer a atividade exercida com dificuldade dado à geografia brasileira e ao esforço físico que exige. As músicas que cantam vêm — majoritariamente — de outras épocas, mas também são compostas por elas em seu dia a dia. Em outros tempos, a atividade era feita no meio da mata. Hoje, elas recolhem os frutos entre as árvores e os quebram em suas casas, mas sem desapegar do aspecto coletivo do canto e da quebra do coco. 

"Eu sozinha não sou ninguém, mas estando junto com outra pessoa, a gente se fortalece. É questão de companhia e de ir trocando ideias. A gente sempre tem algo para conversar e essa coletividade é sempre bom porque existe o perigo. Se o babaçu cai na minha cabeça, talvez ele possa me machucar e eu adoecer. Eu estando com outra pessoa, o que acontecer comigo, tem alguém para me proteger", explica dona Maria das Dores. 

A música as une na luta e no trabalho. Ao quebrar coco, há momentos em que elas cantam sozinhas, outros em que algumas cantam enquanto as amigas apenas ouvem. A divisão de versos entre as quebradeiras eleva o canto para outro patamar e torna o ambiente de trabalho um lugar mais alegre. 

"A questão da música é manifestar os sentimentos da gente. Ela é reivindicatória? É, mas é uma forma de a gente se manifestar de uma forma alegre. Levamos a música com a gente a todo momento. Ela não fala só sobre o babaçu, ela fala da questão da mulher, da preservação do meio-ambiente. A nossa luta como quebradeira vai além da questão do babaçu. A gente luta por tudo e por todos. É uma forma da gente manifestar aquilo que a gente está sentindo, o nosso sentimento na música", conclui Das Dores. 

Sebastiana Ferreira vai além: "Quando eu canto ou quando eu componho uma música, eu estou me empoderando. Através do meu canto, eu vou empoderar muitas e muitas quebradeiras mulheres no nosso Brasil afora. Música é tudo”, diz. 

A luta das Encantadeiras é para terem o direito ao livre acesso ao babaçu e para evitar o desmatamento das palmeiras. Antigamente, elas caminhavam por entre as árvores para quebrar o coco onde quisessem. A partir dos anos 1970, o avanço dos latifúndios agropecuários derrubou muitas palmeiras e as impediu de ter acesso àquelas que restaram de pé.

"Nossa música é reivindicatória. a gente canta para falar sobre o nosso trabalho e também para reivindicar os direitos que nós temos através da preservação do nosso meio ambiente, das nossas palmeiras, do local onde a gente trabalha”, diz Raimunda. Dona Sebastiana concorda: “Eu não gosto de falar em ‘meio-ambiente’. Eu falo ‘no ambiente todo’. Isso tudo que está a nossa volta, nós temos que preservar com muita alegria, com muita segurança e com muita coerência. Não adianta eu dizer que preservo os babaçus, mas deixar os igarapés morrerem. Os nossos cantos servem para tudo. É para vermos todo esse ambiente que precisa da nossa ajuda e da nossa boa vontade para trabalhar com ele”, conclui.

Veja mais sobre a história das quebradeiras de coco babaçu neste vídeo da ActionAid Brasil:

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