As mil e uma fases de David Bowie
Especial

As mil e uma fases de David Bowie

Quanto maior o porre, maior a ressaca. Quando John Lennon decretou que o sonho da década de 1960 havia acabado sem que a florida revolução hippie tomasse o poder das mãos dos velhos engravatados de sempre, o mundo parecia fadado a se afundar no torpor niilista e individualista que a recém-iniciada década de 1970 sugeria. Foi preciso que um artista encarnasse a persona de um super-herói alienígena chegando à Terra para refundar, em outro tom e intenção, a esperança pop que o rock, de quando em quando, nos traz, e que um mero ser humano simplesmente não seria capaz. De mero o cantor e compositor inglês David Bowie definitivamente não tinha nada.

Para além de seu imenso talento e do inabalável estilo que fez dele por cinco décadas o artista mais descolado e cool a andar por esse planeta, foi David Bowie quem renovou, nos anos 1970, o sentido libertário, provocador e iconoclasta que tanto havia pautado a música popular da década anterior. Não era, no entanto, mais em nome de uma transformação comunitária que sua revolução gritava – mas sim em eco ao grito dos deslocados, excêntricos, dos marginalizados, dos freaks que não se sentiam parte de padrão algum: em resumo, aos alienígenas sociais que, com a chegada do primeiro grande personagem de Bowie, Ziggy Stardust, deixavam a sombra das margens para se tornarem o que havia de mais radical e interessante na música pop de então – e, em muitos sentidos, até hoje.

Engana-se, porém, quem pensa que o cenário de tal revolução é simplesmente colegial e juvenil. Ainda que tenha sido sim de inestimável importância que os esquisitões dos cantos das escolas tivessem enfim um herói que cantava para eles, sobre eles e com eles, a afirmação identitária do binômio Bowie-Ziggy foi muito além de tal alcance. Junto com seu amigo e parceiro de trabalho Lou Reed (que teve sua carreira reinventada por Bowie quando este produziu “Transformer”, o maior disco de Reed e um dos maiores da história do rock), Bowie introduziu na pauta popular a androginia, a bissexualidade e a fluidez de gênero como possibilidades naturais e saudáveis. E mais: tais rótulos outrora marginalizados passavam a se tornar afirmações revolucionárias, que derrubavam barreiras com estilo, graça e força nunca antes vistas em um cantor de rock. Perto de Bowie, Mick Jagger se tornava um conservador cantor do passado.

Bowie introduziu na pauta popular a androginia, a bissexualidade e a fluidez de gênero como possibilidades naturais e saudáveis

E se, após decretar subitamente a morte de Ziggy Stardust somente um ano e meio depois de sua “chegada”, o chamado “camaleão do rock” se transformaria ainda tantas vezes ao longo de sua carreira. Ele nunca deixaria para trás o espírito desafiador que o fez se alinhar ao exército de desajustados que o transformou em um herói. Bowie jamais se permitiu descansar, permanecendo até os últimos dias de sua vida como um iconoclasta indomável e um artista sem igual – e basta assistir ao assombroso e comovente vídeo de “Lazarus”, sua última canção lançada em vida (dentro do igualmente impactante disco de despedida “Black Star”) para se ter certeza da grandeza da vida e obra de tal artista. Quem for capaz de assistir ao vídeo sem se derramar em lágrimas pode procurar seu coração pelo chão, certamente perdido em outro lugar que não no peito.

E tais transformações não tocam sequer na sombra das diversas revoluções capitaneadas por Bowie ao longo de sua carreira. Foi em muito através dele que a moda despiu-se um pouco de sua frivolidade e ganhou importância artística e simbólica; foi também Bowie quem melhor colocou o mundo da arte dentro do rock e vice-versa, quem de forma mais objetiva e substantiva trouxe a música experimental para as paradas de sucesso e o cenário da música pop, e ainda não chegamos nem perto de alcançar a dimensão de sua importância cultural, ética, estética e social.

Quando de sua morte, em janeiro de 2016, os imensos e incessantes tributos que vieram de toda parte jogaram um tanto de luz sobre o impacto e as transformações provocadas pela passagem de Bowie pela Terra – e uma homenagem em especial talvez tenha ofertado algum continente possível para a dimensão de seu legado, como tenha servido para ilustrar o quanto o rock, a arte, a cultura pop e a música podem de fato interferir na realidade. Em um tweet, o governo alemão agradeceu ao cantor por ter “ajudado a derrubar o muro” que dividia Berlim e o país em dois. A postagem se referia ao histórico show ao ar livre que o cantor realizou em 1987, no qual uma primeira sugestão de união entre as então duas Alemanhas efetivamente ocorreu. Segundo relatos, o palco, montado do lado ocidental, era propositalmente tão perto do muro que era possível ouvir cantando junto as milhares de pessoas que, do lado oriental, se reuniram para ao menos poderem escutar o concerto de Bowie.

Nele a imaginação exerceu sua força revolucionária como em possivelmente nenhum outro artista de rock em todos os tempos – se reinventar sempre, ampliando mais e mais as possibilidades, os espaços de expressão e identidade, para que a imperfeição se tornasse, pelas mãos e pela espetacular voz de Bowie, uma virtude. É em sua obra que especialmente o entretenimento, em seu acesso direto ao coração e à vida de quem ouve, ganhou sua voltagem mais transformadora. Ser quem se é, deixar de ser e se tornar o que se quiser ser tornou-se, a partir de Bowie, somente um primeiro passo à eternidade.

Tags relacionadas:
EspecialHeróisDavid Bowie

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest