As transformações de Emicida em seu álbum 'Amarelo'
Na BR-3

As transformações de Emicida em seu álbum 'Amarelo'

O conferencista José Ernesto Bologna tem uma frase que conheci de segunda mão, mas que dividiu o meu entendimento sobre cultura: “Do fazer artístico, o que sobra é a arte”. Recebi aquilo como os óculos que distinguem o mercado da arte e a arte de verdade: quem faz comércio mira no produto final (o álbum, o clipe, o livro, o quadro, a exposição ou, mais recentemente, a campanha de xampu ou de telefone móvel); quem faz arte usa a si mesmo como quadro a ser pintado ou pedra a ser esculpida. O extrato das suas transformações, de suas descobertas, de seu entusiasmo pela vida é a arte com que tomamos contato.

“AmarElo”, o terceiro álbum de Emicida, é um daqueles momentos em que você sabe estar diante de um escancarado registro de um homem em transformação. O clipe de “Pequenas Alegrias da Vida Adulta” lançado há alguns dias, é um ótimo cartão de visitas do álbum – da música, com o pé no samba-rock, a letra, o piano elétrico de Marcos Valle, ao ótimo roteiro, a direção de seu irmão Fióti e seu desfecho simbólico:

É uma pena que “AmarElo” vá ser consumido em streaming. A começar pela linda capa de Claudia Andujar (uma foto de 1974 que Emicida achou parecida com “Stakes is High”, do De La Soul), pelas letras cheias de aforismos e pela constelação de participações especiais (que vão de Fernanda Montenegro a Zeca Pagodinho, Dona Onete a Pabllo Vittar, do pastor Henrique Vieira às Pastoras do Rosário, tudo em “AmarElo” parece melhor digno de ser ouvido com atenção, com a capa e o encarte em mãos. Sem contar que é possivelmente o melhor álbum de 2019, digno de entrar para a sua selecionadíssima discoteca.

O trabalho foi recebido, com alguma obviedade, como uma resposta do rapper ao Brasil do governo Bolsonaro. E é mesmo – mas não do jeito panfletário e óbvio que poderia ser. “AmarElo” é um disco que propõe desarmar a bomba de intolerância, egoísmo, extremismos e autoindulgência que transformaram o Brasil num barril de pólvora. A questão é menos o sistema e mais o ser humano. Confira a impressionante entrevista que Emicida concedeu ao jornalista Camilo Rocha para o jornal “Nexo”:

O assunto de Emicida não é o disco – ou o streaming do disco. O assunto dele é as transformações que ocorreram em sua visão de mundo nos últimos anos. O rap, a periferia, o sonho do mercado de consumo, o cientificismo, a ascensão do conservadorismo e as causas identitárias e, transversalmente, o papel de pai. “Quando eu estou perto das minhas filhas eu acredito que o mundo pode ser melhor, porque elas são melhores do que o mundo neste momento. E o que eu faço com o meu trabalho, com minha capacidade de construir coisas, é tentar deixar o mundo no nível das crianças.”

Emicida é um pensador tão importante para sua época quanto Renato Russo ou Raul Seixas no mundo em que viveram. E com uma virtude raríssima no mundo de 2019: a disposição para questionar a si mesmo, rever posturas, ouvir o divergente, estar aberto ao improvável. Isso o faz ao mesmo tempo mais artista e mais necessário como ser humano. Ele define “AmarElo” como um “manifesto pelo direito de ser ser humano”. Que bom ter alguém, em tempos tão sombrios, disposto a enxergar como o ser humano pode ser. E o que resta disso é arte, e arte da boa.

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