Astrologia, pop como nunca, entra em conjunção também com MPB, rap, funk e rock brasileiro
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Astrologia, pop como nunca, entra em conjunção também com MPB, rap, funk e rock brasileiro

Por Kamille Viola

Gente desesperada com Mercúrio retrógrado, memes com o signo de “Satanáries”, piadas sobre escorpianos. Nas redes sociais, os comentários sobre astrologia são recorrentes. O assunto está nas letras de artistas dedicados a estilos musicais diversos como a cantora Anelis Assumpção, o rapper Djonga, a banda Rosa Neon, o funkeiro MC Livinho e a cantora Julia Branco, entre outros. Se não é de hoje que existem canções na música brasileira que abordam o tema, nos últimos tempos a astrologia parece viver uma nova onda: tem pipocado com frequência nos mais diversos gêneros, do pop ao funk, passando pelo rap e o indie rock.

O rapper Djonga assume o interesse pelo assunto, que começou quando ele terminou o primeiro namoro e ficava lendo o horóscopo para ver se tinha chance de voltar com a amada. O interesse se manteve e acabou parando na faixa “Geminiano”, do álbum “Heresia”, dos versos “Na real, se era pra ser / Ou não / Não quero ela por perto / Só que não quero ela longe, não”, que brinca com dualidade das pessoas desse signo.

Djonga não se considera especialista no assunto, mas se interessa por astrologia / Foto: Divulgação
Djonga não se considera especialista no assunto, mas se interessa por astrologia / Foto: Divulgação

“Nessa música, coloco os dois lados de quem sou eu, da minha personalidade: tanto a segurança exacerbada, o ego, como a insegurança. Acho que isso é bem geminiano”, explica Djonga. A música foi bem-recebida até no meio do hip-hop. “A astrologia cresceu de forma absurda, virou costume perguntar o signo das pessoas. Não sou especialista, mas acho legal”, frisa.

Luiz Gabriel Lopes, do grupo pop Rosa Neon, também vê um crescimento do interesse pelo tema. O grupo lançou em janeiro o single “Brilho De Leão”, que diz: “Já que agosto chegou, meu amor / quero te encontrar / (...) o nosso lance é sol / brilho de Leão”. “Existe um movimento de curiosidade, de respeito e de pesquisa em torno não só da astrologia, mas de uma série de outras ciências oraculares e de sabedorias tradicionais. A astrologia talvez seja o mais popular, por ter uma dimensão muito conectada com o cotidiano das pessoas. Essa coisa do horóscopo de jornal, que, por mais questionável que seja, introduziu isso no dia a dia de muita gente”, comenta Luiz Gabriel, que compôs a música com a parceira de banda Marina Sena.

O grupo Rosa Neon também faz referência aos astros nas músicas / Foto: Sarah Leal / Divulgação
O grupo Rosa Neon também faz referência aos astros nas músicas / Foto: Sarah Leal / Divulgação

A cantora Anelis Assumpção batizou de “Taurina” seu disco do ano passado. Além do nome que lembra horóscopo, o trabalho traz na capa uma mulher com rosto e chifres de vaca. Mas ela conta que não se trata do animal nem da mulher do signo de Touro, mas algo além. “É um terceiro sexo, sei lá. Eu meio que desconstruí, foi uma figura que concebi, a mulher taurina. Uma coisa inventada, que é como eu me sinto. Se existisse esse signo, eu diria que sou dele. É uma reflexão sobre uma mulher em nova posição de existência, menos romântica. Fiquei pensando: por que nenhum signo é feminino? Então imaginei a taurina, e aí entram as coisas do disco, que são lentidões, eu passo muito tempo ruminando sentimentos. Demorei um pouco para chegar no nome do álbum. Foi um processo um pouco lento para mim, como boa taurina”, diverte-se ela.

O álbum tem canções com temas do signo de Touro, como comida e sexo, e também cita a astrologia em “Escalafobética”, dela e de João Donato, que traz os versos “Ela vai enverdada, febril / Sagitariando os dias futuros a fim do término / Da agonia do agora”. “Gosto muito de astrologia como cultura popular, mas não pauto minha vida por isso. Uma coisa bem taurina, meio cética: gosta, mas duvida. Não deixo de fazer as coisas por causa dela. Prefiro conferir depois que o dia passou, prefiro a surpresa depois a ficar esperando uma determinação vinda de conjunções”, garante Anelis.

Anelis Assumpção montou um álbum inteiro com a temática astrológica / Foto: Caroline Bittencourt / Divulgação
Anelis Assumpção montou um álbum inteiro com a temática astrológica / Foto: Caroline Bittencourt / Divulgação

Para a Adriana Facina, antropóloga e historiadora, professora da UFRJ, o tema vem passando por uma democratização. Ela lembra que um estudo do antropólogo Luís Rodolfo Vilhena (1963-1997), o livro “O mundo da astrologia: um estudo antropológico” (ed. Zahar, 1990) mostrou que o interesse pelo assunto estava ligado a um círculo de classe média muito restrito. “O que percebo tem muito a ver com a internet: hoje você faz mapa online, todo mundo sabe seu ascendente, sua lua. Um funkeiro citar signo é sinal de popularização da astrologia”, comenta ela, estudiosa do gênero musical, referindo-se a MC Livinho. Ele lançou há dois anos a faixa “Só mais uma noite”, que diz: “Combinação perfeita / Escorpião e leonina”.

A astróloga Claudia Lisboa também vê a web como um fator determinante para a atual disseminação do saber. Para ela, a divulgação nas redes sociais e a qualidade do que pode ser levado para o público estão trazendo uma nova onda. “As pessoas estão sabendo que existe uma astrologia boba, que é puro achismo, e que tem uma que é voltada para saber, na história, é uma área importante do conhecimento humano. E a música captou isso”, defende ela.

O astrólogo Carlos Hollanda lembra que, dos anos 70 para cá, o tema de tempos em tempos aparece em músicas brasileiras. Cada um desses momentos teve uma explicação do céu. “Atualmente, eu diria que é Netuno transitando em Peixes, que é um signo muito musical. E o Netuno em domicílio (em sua casa astrológica de origem) bate bastante com esse simbolismo, de incentivo a todas as coisas que são transcendentes, que provocam estados alterados de consciência ou que modificam a percepção ordenada das coisas. A música é uma das formas mais usuais de se alterar a percepção: leva você a uma reflexão e a uma contemplação, que são assuntos de Peixes e de Netuno. Mesmo músicas mais críticas, com letras mais intensas são assim”, explica.

Adriana também pondera que o crescimento do interesse talvez tenha a ver com um contexto de crise: crer em um destino prometido pela astrologia pode ser uma espécie de alento. “A gente tem que ter esperança em alguma coisa, para tentar dar sentido a um mundo por vezes tão sem sentido. Precisa acreditar em algo para seguir adiante”, resume a professora.

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