'Bacurau': trilha explora contrastes para sublinhar conflito e usa 'True', do Spandau Ballet, como hit 'enlatado'
Entretenimento

'Bacurau': trilha explora contrastes para sublinhar conflito e usa 'True', do Spandau Ballet, como hit 'enlatado'

"Bacurau", o premiado filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, se passa num futuro indefinido, mas numa realidade bem próxima à nossa. Foi em cima dessa dualidade que Tomaz Alves Souza e Mateus Alves criaram a trilha original do longa, que já está disponível nas plataformas digitais e será lançada em breve em vinil e CD.

"É arriscado quando se coloca muita música numa trilha sonora porque aquilo que é para manter a intensidade pode tornar-se cansativo. Uma das qualidades de "Bacurau" é justamente usar elementos sonoros de forma discreta, para não atrapalhar a experiência cênica. A música original passa praticamente despercebida, o que é um bom sinal", opina Tomaz, autor da música original do longa ao lado do irmão Mateus.

O filme já estava com 60% das cenas rodadas quando Tomaz e Mateus chegaram para fazer a trilha em 2018. "Kleber e Juliano nos deram abertura total para fazer o nosso trabalho, só pediram que partíssemos da estrutura harmônica da música de Sérgio Ricardo ("Bichos da noite de 'O coronel de Macambira'"), que é fundamental na história. A de Geraldo Vandré ("Réquiem para Matraga") também estava escolhida, só "Não identificado", com a Gal Costa, veio depois, para a cena de abertura, que é de computação", conta Mateus, que tocou com o irmão na banda Profiterolis, nos anos 2000, no Recife.

O supervisor musical Gustavo Montenegro lembra que "Bichos Da Noite" já constava no roteiro de "Bacurau" e que, como é cantada pelos atores na impactante cena do enterro, ele precisou conseguir a autorização na pré-produção. "Réquiem' também foi uma escolha dos diretores e "Não Identificado" surgiu pelo carinho que temos com Caetano Veloso", conta ele, que já havia trabalhado com Kleber em "O Som ao redor" e Aquarius".

Outras composições presentes na trilha são o tema instrumental "Night", composição do cineasta americano John Carpenter, cultuado mestre do horror e do sci-fi, com uma tensão de sintetizadores oitentistas contrastando com uma cena de capoeira; "True", o grande hit "sinatriano" do grupo new romantic Spandau Ballet, como música de fundo quando Domingas (Sônia Braga) e Michael (Udo Kier) se encontram, e "Entre As Hortências", de Nelson Ferreira 1902-1976), momentos antes de surgir o personagem Lunga (Silvero Pereira). "O Nelson é um compositor pernambucano mais conhecido pelos frevos. Eu conhecia essa valsa instrumental de um vinil que eu tinha, aí sugeri pros diretores, que já tinham pedido para eu incluir alguma música dele. Caiu como uma luva!", diz, satisfeito.

Sônia Braga e Udo Kier em cena de "Bacurau". Divulgação
Sônia Braga e Udo Kier em cena de "Bacurau". Divulgação

Sobre a balada "True", hit que não sai da programação das rádios brasileiras desde que foi lançada, em 1983, Gustavo disse que montou e ofereceu "um cardápio com aquele tipo de música chamada 'adulto contemporâneo', que tinha outras, como 'Don't Dream Is Over' (hit de 1986, da banda Crowded House)". Na cena em que toca, a personagem Domingas diz que a música é americana, mesmo o Spandau Ballet sendo um grupo inglês. "Faz parte da brincadeira, pra lembrar que o pessoal acha que qualquer música cantada em inglês é americana. No fundo, Domingas queria dizer 'olha, tem música enlatada'. Eu até pensei em reforçar a piada, colocando alguma daquelas versões cantadas pelos Pholhas, Marcio Greyck... mas a escolha por 'True' foi unânime", conta Gustavo, sócio da Urânio Filmes que, entre muitos projetos, tem no horizonte um documentário sobre o Rei do Brega Reginaldo Rossi (1943-2013).

Futurismo aberto a presente e passado

Depois de assistir ao primeiro corte, que já tinha os elementos fundamentais da trama, Tomaz e Mateus trataram de mapear o filme para sentir quais sequências pediam música. "Meu irmão tem experiência com música orquestral, ficou a cargo do mais clássico, dedicando-se à sonoridade do lugarejo e seus habitantes. Eu tenho um lado mais experimental, eletrônico, e me debrucei nas sensações de medo, mistério e insegurança do núcleo dos forasteiros. Há referências à ficção científica e um certo perfil de anos 1980", explica Tomaz.

O músico assinou sua primeira trilha sonora no longa "Cinema, aspirina e urubus", de Marcelo Gomes. "Aquela foi uma experiência mais realista, eram músicas ambientadas nos anos 1940. 'Bacurau' tem uma linguagem mais aberta, se passa no futuro, então posso dizer até que foi um trabalho mais fácil, pois tivemos maior liberdade para criar", compara Tomaz, que já havia trabalhado com Juliano em "Mens Sana in Corpore Sano" e "Amigos de risco".

A trilha sonora, que já está sendo negociada para ser lançada em vinil e CD no exterior e depois no Brasil, traz um material que não entrou no film e outros compositores, como Jr. Black, músico pernambucano que interpreta o personagem DJ Urso ("Cortejo" e "Toni Junior"), e Rodrigo Caçapa ("Aparição" e "Carmelita", em parceria com Tomaz e Mateus). "Tem uma cena do violeiro, em que ele canta e toca, que foi captada de forma direta. O Ricardo Cutz, da montagem de som e mixagem, disse que precisava separar o som da viola para quando o filme for dublado em outra língua. Pensei logo no Caçapa, que é pesquisador e um exímio instrumentista. Aí, além da reprodução da viola ele deu várias sugestões e acabou fazendo essas parcerias com a gente. Na verdade, eu fiz o que pude para colocar o Caçapa na parada!", brinca Mateus, que mora atualmente em São Paulo e está trabalhando na trilha do próximo filme de Paulo Caldas com Bárbara Cunha chamado "Flores do cárcere".

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest