Baile da pesada: a playlist da vida de Fernanda Abreu é uma festa de diversidade musical
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Baile da pesada: a playlist da vida de Fernanda Abreu é uma festa de diversidade musical

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Ela pode ser soul, rap ou mesmo trap. Fernanda Abreu vai de rock, vai de dance, vai de funk e tudo bem. Mergulhada em um repertório musical extenso desde a infância, a cantora carioca de 57 anos cresceu cercada de música dentro de casa. Quando ela ainda era criança, a mãe, Vera, pianista, e o pai, Armando, formaram um grupo de samba chamado A Patota. Todo fim de semana, o conjunto se reunia para tocar canções que, segundo Fernanda, ficam na cabeça dela até hoje. 

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"Eu e meu irmão tínhamos seis, sete anos e ouvíamos todos esses clássicos da música brasileira. João Nogueira, Candeia, Martinho da Vila, Cartola, Clara Nunes...", conta, em entrevista ao Reverb. "Meus pais ainda gostavam dos festivais da canção, com Mutantes, Tom Jobim, Carlos Lyra, Nara Leão. Era muito amplo", relembra. 

Fernanda Abreu desfila pela Mangueira durante o carnaval de 2010, no Rio de Janeiro / Foto: Getty Images
Fernanda Abreu desfila pela Mangueira durante o carnaval de 2010, no Rio de Janeiro / Foto: Getty Images

A família Abreu tinha uma tradição. Todos os dias, depois do jantar, Vera, Armando, Fernanda e Felipe, seu irmão mais novo, se reuniam para ouvir discos de vinil: de artistas nacionais, como Fagner e Simone, a grandes nomes do jazz americano, gênero apreciado por dona Vera, como Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. "A gente se abastecia de uma amplitude muito grande de pessoas que quem faz música hoje em dia deveria ouvir para ter noção da grandeza e da riqueza harmônica, melódica e rítmica que a música brasileira tem." 

A poesia das composições que ouvia a transformou em uma espécie de guru da música na escola. "Eu era convidada para todas as festas porque me pediam para gravar fitas cassete". Em 1971, quando Fernanda fez 10 anos, a primeira mesada serviu para comprar um compacto do Jackson 5. Era o começo da manifestação da música sob outro aspecto na vida da artista: a dança. "Eu tinha o joelho para dentro e o médico indicou que eu fizesse balé. Quando comprei o disco (do Jackson 5), coloquei direto 'ABC'", ela conta, antes de cantarolar o refrão famosa do grupo da família Jackson. "Eu queria imitar aquilo. Queria imitar a 'BR-3' do Tony Tornado, o James Brown. Eu me impressionava muito com esses artistas que dançavam e cantavam. Eu percebi que amava o soul e o funk americano. A música também veio para mim pela veia da dança", diz. 

Fernanda ao lado de seu irmão, Felipe Abreu, preparador vocal / Foto: Reprodução
Fernanda ao lado de seu irmão, Felipe Abreu, preparador vocal / Foto: Reprodução

A proximidade com a música negra americana a fez admirar também expoentes semelhantes do Brasil. Tim Maia, Hyldon e Cassiano e toda essa "galera que fazia música black nos anos 1970". Mas foi aos 15 anos que Fernanda conheceu quem de fato mudou sua vida — e traçou os caminhos de sua arte. Da escola municipal Camilo Castelo Branco, no Jardim Botânico, veio dona Raquel, professora de música. Nas aulas do ginásio, Fernanda participou pela primeira vez de um coral e começou a aprender violão. "Ela incentivava a gente a compor a nossa música. Gravamos um disco e meu avô fez a capa do vinil que a gente fez. Aquilo foi fundamental para mim e para o meu irmão, que hoje é preparador vocal de todo mundo que você pode imaginar", conta Fernanda sobre Felipe.

No meio da vida de segundo grau, Fernanda recebeu um convite de Léo Jaime para cantar em uma banda, a Nota Vermelha. Por meio dela, conheceu Evandro (Mesquita), que a chamou para a Blitz. "O resto é história", ela brinca. 

A cantora carioca usa o Spotify para acompanhar o que quer ouvir no dia a dia, mas não como gostaria. Fernanda diz que queria ter mais tempo para sentar e curtir músicas novas, mas a correria das mil e uma funções a atrapalha. "O último gênero que pintou e que eu tenho curtido muito é o trap. Ele é uma evolução da música eletrônica e me pegou de jeito. A música pop hoje está praticamente no reggaeton e no trap misturado com o funk, mas eu sempre procuro olhar para a frente para não ficar na mesmice." 

Perto de completar 30 anos de carreira, Fernanda quer comemorar; na foto, ela aparece entre suas duas filhas, Sofia e Alice / Foto: Reprodução
Perto de completar 30 anos de carreira, Fernanda quer comemorar; na foto, ela aparece entre suas duas filhas, Sofia e Alice / Foto: Reprodução

É verdade. Se tem algo que não entra no repertório de Fernanda Abreu, esse algo se chama mesmice. Quem bebe na fonte de Afrika Bambaataa, Cheryl Lynn, Parliament, Prince, Marvin Gaye, Al Green, Paul McCartney, Madonna e Michael Jackson não se deixa estagnar. No ano que vem, ela completa 30 anos de carreira e já pensa em ao menos quatro projetos para celebrar a data — entre eles, uma turnê com conceito especial para as três décadas de estrada. 

"Quero fazer uma exposição com o acervo que eu tenho de projetos gráficos dos meus shows, videoclipes, cartazes, flyers, fotos, com o quadro que o Vik Muniz fez meu. Outra ideia é chamar artistas de vários estilos e gerações para visitar meu repertório. O último é um com remixes. Eu sempre tive uma proximidade com os DJs, estou desde o começo abraçada com a dance music", diz, empolgada.

Recentemente, Fernanda se juntou a Toni Garrido e ao DJ Memê para fazerem uma versão de “Tempos Modernos”, de Lulu Santos. A nova roupagem da música foi uma ideia da produtora Musickeria, que juntou os três artistas como forma de celebrar a geração que chegou aos 50 e não pretende parar tão cedo. “Eu achei maravilhoso porque a música é um clássico, né? Especialmente para esse momento atual de maluquice no Brasil”, opina a carioca.  Este ano, Fernanda ainda estará mais uma vez no Rock in Rio: ela acompanha a Funk Orquestra, ao lado de Ludmilla e Buchecha, em uma homenagem ao gênero musical carioca no dia 05/10.

As ideias brotam como o fervilhar de misturas de quem é exatamente fruto de uma fusão de gêneros. São misturas de misturas de quem nasceu em uma cidade de cidades misturadas. A hora de parar não está nem perto de chegar. Hey, Mister DJ, quero nitroglicerina! 

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