Beth Carvalho sabia que sua voz era suficiente para preencher qualquer palco
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Beth Carvalho sabia que sua voz era suficiente para preencher qualquer palco

Compartilhada à exaustão nas redes sociais após a morte de Beth Carvalho, no último dia de abril, a imagem da sambista de 72 anos cantando deitada em uma chaise longue naquela que seria a sua turnê de despedida é, além de emocionante, reveladora. Dona de um timbre singular, ela sabia que a própria voz era suficiente para preencher qualquer palco. Mesmo trêmula por conta das dores na coluna, a sua assinatura vocal seguia capaz de validar os sucessos dos inúmeros afilhados que consagrou ao longo da carreira. O público, que sambou do início ao fim das apresentações, percebeu ali que "O show tem que continuar" não era apenas mais um êxito de seu repertório, mas um lema de vida.

Assim como grande parte de sua geração, Beth devia seu início de carreira a "Chega de Saudade", canção imortalizada por João Gilberto que alterou as estruturas da música nacional. O balanço irresistível do violão do baiano apaixonou a carioca da Zona Sul, que estreou cantando bossa-nova no compacto simples "Por que morrer de amor?", de 1965.

Beth Carvalho no desfile da sua escola do coração, a Mangueira, em 2017 / Foto: Getty Images
Beth Carvalho no desfile da sua escola do coração, a Mangueira, em 2017 / Foto: Getty Images

Mas foi apenas três anos depois, no 3º Festival Internacional da Canção, que Beth despontou como fenômeno de massa ao interpretar "Andança". Premiada com o terceiro lugar, se tornou conhecida nacionalmente em todo o país e sua voz transformou a composição de Paulinho Tapajós, Danilo Caymmi e Edmundo Souto em um sucesso instantâneo, inscrito permanentemente na lista das obras mais executadas em rodinhas de violão Brasil afora. O caminho até o samba foi lento, e se consolidou no LP "Canto Por Um Novo Dia", de 1973.

Como o professor Luiz Antonio Simas lembrou no Twitter ao comentar a partida de Beth, não basta tocar ou cantar samba para ser um sambista. "O buraco é mais embaixo e demanda fundamento, tempo e responsabilidade. Mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um complexo cultural que dele sai e a ele retorna. No samba vivem saberes que circulam: formas de apropriação do mundo, construção de identidades comunitárias, hábitos cotidianos, jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, celebrar os deuses e louvar os ancestrais", escreveu ele, para concluir que a cantora mereceu, com honras, o título.

Para se tornar uma sambista respeitada, Beth usou de um dos seus maiores talentos: a generosidade. Com faro invejável para encontrar composições de sucesso, a mangueirense usou a sua assinatura vocal para reabilitar carreiras de antigos baluartes, como Cartola e Nelson Cavaquinho, e para lançar novos bambas, como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Fundo de Quintal e toda a turma do Cacique de Ramos.

E foi ao pé da tamarineira que Beth se encantou com um novo jeito de tocar o samba, onde repique, tantã e banjo ganhavam protagonismo. Convenceu a gravadora a apostar no som e gravou o LP "De Pé no Chão". Basicamente, foi a responsável por apresentar o pagode de respeito que nasceu em Ramos ao público brasileiro.

A generosidade e o espírito comunitário que marcaram a sua ética de trabalho certamente derivavam da sua visão de mundo. Militante aguerrida, Beth acreditava que um mundo mais justo era possível e usou a voz para defender até os seus últimos dias as bandeiras que carregava com orgulho. Deixou aos fãs um exemplo de resiliência e perseverança. Afinal de contas, o show tem que continuar.

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