Bill Fay, cantor que passou três décadas esquecido, reergue a carreira aos 76 anos com músicas que emocionam fãs como Jeff Tweedy e Nick Cave
Inspiração

Bill Fay, cantor que passou três décadas esquecido, reergue a carreira aos 76 anos com músicas que emocionam fãs como Jeff Tweedy e Nick Cave

Joshua Henry nunca entendeu por que seu pai tinha "Time of the Last Persecution", um obscuro álbum de folk psicodélico de 1971 do compositor britânico Bill Fay. O disco nunca foi divulgado nos Estados Unidos e mal apareceu na cena lotada de cantores e compositores da Inglaterra do início dos anos 1970. Após seu lançamento, Fay desapareceu da música.

Durante toda a sua vida, Henry era curioso para saber mais sobre aquele LP, com a foto de um cantor de cabeleira desgrenhada na capa. Em uma época difícil da vida do compositor e produtor americano, quando teve que cuidar do pai lutava contra um câncer, o álbum se tornou uma tábua de salvação. Pai e filho ouviam juntos Fay, dissecando sua mistura peculiar de visão apocalíptica e coragem esperançosa. Após a morte de seu pai, no verão de 2010, Henry começou a tentar recuperar um sonho que haviam compartilhado: encontrar Fay e ajudá-lo a fazer seu primeiro disco desde 1971.

Nesta sexta-feira (24/1), Fay lançará "Countless Branches", seu terceiro álbum em 10 anos desde que Henry o localizou e pediu que voltasse ao estúdio. O trabalho vem sendo aclamado por veículos como o honorável All Music Guide como sua obra-prima. Com 76 anos e casado — quase tudo o que ele permite que se saiba de sua vida pessoal —, Fay fez tantos discos de estúdio nesta década quanto nas seis anteriores. Como o astro do rock Rodriguez, cuja história de achados e perdidos na história pop inspirou o premiado documentário "Procurando Sugar Man" em 2012, ou o cantor de folk britânico Vashti Bunyan, ele recebeu uma improvável segunda chance. Ninguém parece mais intrigado com esse ressurgimento, ou desconfiado de seus holofotes, do que o próprio Fay.

"Quando Joshua me contou sobre seu pai e que cresceu ouvindo minha música, era de forma real e profunda. Parecia o caminho natural que eu deveria seguir. Mas é estranho", disse Fay em entrevista ao "New York Times".

Fay entrou meio sem querer na música nos anos 1960. Como universitário no País de Gales, ele começou a abandonar os estudos para escrever músicas com piano e órgão. Suas demos chegaram a Terry Noon, que foi baterista de Van Morrison e empresário de música. Terry ajudou Fay a garantir um contrato com a Decca Records e a montar uma banda de estúdio.

Sua estreia auto-intitulada em 1970 apresentava odes idealistas à amizade, natureza e paz. Mas, apenas um ano depois, ele se virou para um rock mais áspero em “Time of the Last Persecution". Alimentado pelos horrores da Guerra do Vietnã, Fay criticou a corrupção e falou de temas sociais nas 14 faixas. Denso e desafiador, o álbum fracassou.

Bill Fay nos anos 1970, quando lançou seu primeiro álbum. Foto: Reprodução
Bill Fay nos anos 1970, quando lançou seu primeiro álbum. Foto: Reprodução

Logo depois do lançamento de "Last Persecution", Fay foi, como ele diz, "excluído". Ele perdeu o pai e dedicou-se a cuidar da mãe. Nas quatro décadas seguintes, constituiu família e trabalhou como jardineiro e empacotador. Ainda assim, em um canto tranqüilo de sua casa, ele montou aos poucos um equipamento de gravação com oito canais e um pequeno teclado, criando arranjos de músicas que ele nunca fez questão que ninguém ouvisse.

“Fiquei decepcionado, mas a música nunca foi minha vida. E eu não era como as outras pessoas que se tornaram parte de uma cena. Voltei ao que sempre fiz, que é o dom e a bênção de trabalhar na música por si só”, disse Fay.

Nos anos 1990, seus dois álbuns passaram a ser citados regularmente por pesquisadores e críticos, além de se tornar itens de colecionador, valendo centenas de dólares em lojas de discos e obtendo status de cult entre os especialistas em indie rock. Naquela década, o compositor e produtor Jim O’Rourke descobriu a música de Fay enquanto pesquisava Ray Russell, o guitarrista eletrizante dos dois álbuns da Decca. O'Rourke ficou cativado pela "maneira muito específica de expressar depressão", disse ele recentemente.

Quando uma pequena gravadora britânica relançou os dois álbuns em um CD em 1998, O'Rourke tocou para Jeff Tweedy, do Wilco. “Fiquei surpreso: como não ouvi isso? Como isso não é algo que faz parte do nosso DNA? É uma música que parece ter sido projetada em um laboratório para eu me apaixonar”, disse o vocalista.

O Wilco começou a tocar "Be Not So Fearful", de Fay, em 2002, uma canção motivadora que parecia falar diretamente contra a visão de Jim O'Rourke (uma versão do canadense A. C. Newman, ex-New Pornographers, ganharia projeção na trilha de "The Walking Dead" em 2014). Em 2007, após muita insistência de Tweedy, Fay subiu ao palco pela primeira vez em três décadas para se juntar à banda no Shepherd's Bush Empire, em Londres.

Jeff Tweedy, do Wilco, se apaixonou pela música de Fay. Foto: Getty Images
Jeff Tweedy, do Wilco, se apaixonou pela música de Fay. Foto: Getty Images

O’Rourke também enviou "Last Persecution" para David Tibet, do grupo experimental Current 93. "Minha boca se abriu e eu percebi que aquele era o meu cantor e compositor favorito de todos os tempos", disse Tibet em uma entrevista. “Eu nunca tinha ouvido nada parecido, alguém transmitir sentimentos tão profundos de maneira tão simples", elogiou.

No final dos anos 90, Tibet havia se tornado um tipo de detetive musical, rastreando cantores esquecidos, incluindo Tiny Tim e Shirley Collins. Apesar dos rumores de que Fay havia fugido para um culto cristão, Tibet até que um jornalista britânico o conectou a um guitarrista que já tocara com Fay e acabou fazendo a ponte. Logo os dois se tornaram amigos.

Em 2005, Tibet lançou "Tomorrow Tomorrow and Tomorrow", um álbum que Fay havia feito no final dos anos 70 com uma banda local, mas que ficou na gaveta. No início de 2010, Tibet disponibilizou um sampler de dois discos chamado "Still Some Light", retirado das gravações caseiras de Fay.

Um ano após o lançamento, Henry pediu a Tibet que encaminhasse a Fay uma carta falando de sua intenção de ajudá-lo a fazer o registro que a indústria da música havia negado por quatro décadas.

Quando Henry começou sua busca, ele sequer sabia se Fay estava vivo. Quando o encontrou, descobriu que o cantor tinha uma montanha de cassetes e minidiscos com músicas nas quais trabalhou diariamente a maior parte de sua vida.

Henry chegou a falar com 50 gravadoras sobre suas primeiras descobertas e sua visão de arranjos, backing vocals e convidados para o retorno de Fay. O selo americano Dead Oceans finalmente concordou em investir. Uma aposta que valeu a pena: os dois primeiros álbuns de Fay para a Dead Oceans, "Life Is People" em 2012 e "Who Is the Sender?" em 2015, foram lucrativos.

Fay ainda escrevia sobre sua desconfiança em relação aos governos e sua crença na bondade das pessoas. Henry emprestou a essas músicas uma elegância pop. Tweedy, do Wilco, emprestou sua voz a uma música chamada "This World", enquanto Jason Pierce, do Spiritualized, adicionou harmonias sutis a "Bring It On Lord".

Suas músicas, novas e antigas, alcançaram um público maior. Fay fez sua única aparição ao vivo na TV desde os anos 70, no programa "Later... With Jools Holland", da BBC, em 2012. Se esse dois álbuns de Fay foram audaciosas reintroduções ao seu legado, o novo "Countless Branches" mostra que ele não está menos chocado com os caminhos do mundo agora do que durante a Guerra do Vietnã. Mas as 10 faixas parecem cartões postais de uma vida inteira superando tal desespero. Como se fossem hinos calmantes prescritos para um tempo caótico, canções para elevar a alma acima das pressões do dia a dia.

Apesar de estar em alta, Fay ainda não voltou aos palcos, embora Tweedy o convide para todas as edições do festival do Wilco. Fay sustenta que ele não é recluso, apenas acredita que ensaiar e viajar exige muito tempo. Ele ainda tem muitas "descobertas de músicas" para fazer.

Durante as gravações de “Countless Branches”, Fay renovou o contrato com a Dead Oceans, algo que surpreendeu Henry, que pensava que ele sumiria depois de “Life Is People”. Mas agora eles parecem permanentemente vinculados como colaboradores e amigos. "Depois que meus pais morreram, eu não tinha mais família. Bill tem preenchido esse vazio. Ele é como um pai para mim”, disse Henry.

Enquanto Henry está ansioso para convencer Fay a entrar no estúdio com músicos mais jovens, o veterano cantor e compositor não tem pressa. "É melhor eu gastar meu tempo disponível fazendo o que sempre fiz. Sou grato por esse lado da minha vida ter continuado por toda a minha vida - encontrando músicas no canto da sala", disse, humilde.

Tags relacionadas:
InspiraçãoÁlbumFolk

Relacionados

Canais Especiais

Ícone do FacebookÍcone do TwitterÍcone do InstagramÍcone do YoutubeÍcone do DeezerÍcone do SpotifyÍcone do Pinterest