Black Pantera, power trio negro de Uberaba para o mundo: 'Todo dia tem uma história diferente de racismo, mas a banda não é só falar disso'
Música negra

Black Pantera, power trio negro de Uberaba para o mundo: 'Todo dia tem uma história diferente de racismo, mas a banda não é só falar disso'

Uma das atrações da festa Black To The Future, realizada pelo festival Afropunk em parceria com a Feira Preta nos dias 19 e 20 de novembro em São Paulo, o Black Pantera tem sua trajetória marcada pelo evento americano. Mineiros de Uberaba, eles ainda nem haviam tocado em Belo Horizonte ou sequer tinham álbum gravado quando receberam o convite para participar da edição francesa do Afropunk, em Paris, em 2016.

“Foi a primeira capital onde nos apresentamos”, lembra o baterista Rodrigo Augusto “Pancho”. “Depois que tocamos lá, tivemos a certeza de que poderíamos ir muito mais longe. Se a gente conseguiu, sem ter um álbum lançado, tocar num festival dessa expressão, em Paris, a gente voltou acreditando que podia qualquer coisa”, diz. A produção chamou a banda para o evento depois que eles mandaram algumas músicas pelas redes sociais.

O trio Black Pantera, de Uberaba: rock com vigor /Foto: Divulgação
O trio Black Pantera, de Uberaba: rock com vigor /Foto: Divulgação

O power trio formado em 2014 pelos irmãos Charles (vocal e guitarra) e Chaene da Gama (baixo) e o amigo Rodrigo assinou com a gravadora Deck Disc e está preparando o seu terceiro álbum, que será produzido por Rafael Ramos e lançado em 2020. Escalados para diversos festivais nacionais em 2019, os integrantes do Black Pantera conversaram com o Reverb após um show da banda no festival Se Rasgum, em Belém, em que fãs faziam fila para tirar foto com o grupo.

Charles conta que queria montar uma banda de som pesado, com influências como hardcore e thrash metal, formada só por negros. A inspiração do nome veio dos Panteras Negras, partido e movimento norte-americano fundado nos anos 1960 que lutava contra o racismo e realizava projetos sociais nos Estados Unidos. Para ele, a representatividade negra no rock (e em outros gêneros musicais que ainda têm pouca presença do negro) é algo urgente no Brasil.

“Porque, se a gente for analisar a história, num modo geral, o negro iniciou a maior parte da música que a gente escuta hoje no mundo inteiro”, analisa ele. “Quando eu quis montar uma banda, eu quis objetivamente dar esse cunho de metal, de punk, sujo, da distorção. A gente já tem muitos representantes dentro do rap, do samba, da MPB. Eu acho que faltava alguma coisa assim. Dentro do metal, do hardcore, a gente vê muitos (artistas negros) lá fora: tem Bad Brains, Living Colour, Sevendust, Fishbone. Mas aqui são poucos. Nos anos 80, a gente tinha no front o Clemente (dos Inocentes), Renato Rocha (da Legião) também, o Cannibal do Devotos um pouco depois. Aí a gente sentiu que era o momento de falar um pouco sobre essa questão dentro do rock também”, acredita ele.

O vocalista diz que não conseguiria formar uma banda com negros para falar só sobre amor, por exemplo. “A gente já tem bastante música sobre isso. Acho que precisamos falar sobre o que está acontecendo agora — e acontece há séculos. O racismo não é uma questão só para o negro discutir”, manda. “A gente está aqui como uma banda de rock empoderada, mostrando que você pode subir num palco, com luz bacana, um som bacana, e colocar tudo para fora. É superimportante. Eu quero que as pessoas se sintam representadas. Porque a gente está acostumado com representatividade em outros estilos dentro da música, né?”, diz.

Em 2015 — mas só depois do convite para o Afropunk em Paris — saiu o primeiro álbum do trio, “Project Black Pantera”. Depois da apresentação no festival, em 2016, eles foram chamados para tocar no Download, também na capital francesa: um produtor do evento viu o show deles no Afropunk e gostou. “E aí ele mandou uma mensagem: ‘Vocês querem tocar aqui em Paris, no dia do System of a Down e do Slayer?’ Eu: ‘Pô, você tá de brincadeira! É lógico que queremos. E fomos nos apresentar lá, em 2017”, recorda Chaene.

No ano seguinte, veio o segundo álbum, “Agressão”. Eles foram mais uma vez para o Afropunk, mas dessa vez no Brooklyn, em Nova York, o berço do evento. Foi também o ano em que começaram a ganhar mais visibilidade dentro do próprio Brasil. “Acho que o divisor foi a SIM São Paulo. Muitos produtores frequentam. Lá, a gente conseguiu mostrar nosso trabalho, e aí acho que essa rede de festivais que tem aqui no país começou a nos enxergar também”, explica Rodrigo.

Mesmo com visual roqueiro — vestidos de preto e fazendo cara de mau —, eles não escapam dos estereótipos associados a músicos negros. “A gente foi tocar num festival em Araguari (MG), e um cara falou: ‘Nossa, a galera do reggae chegou, a galera do samba!’. Aí tocamos, e ele falou: ‘Véi, desculpa pelo julgamento. Eu não imaginava que vocês iam chegar e fazer esse som.’ E também associam: usa trança, negão, é maconheiro. Isso é sempre. Eu, por exemplo: não bebo, nunca fumei nada. Sempre falam: ‘Ô, irmão, você não tem isqueiro?’. Eu digo que não, e respondem: ‘Como assim você não fuma?’”, conta Chaene.

Mas eles contam que a banda está conseguindo quebrar esses estereótipos. “Pessoas negras chegam e falam: ‘Nunca me senti tão representado num show de rock na minha vida.’ Quando você é criança, pensa: ‘Eu vou ser o Superman? Mas ele é branco.’ Agora a gente tem o Pantera Negra, o Super Choque, o Luke Cage, vários heróis negros, e isso é importante. Na música também é. Pô, tem reggae, tem rock, mas tem a galera do metal, do punk, os ‘negão’ estão representando, pondo a cara, e você também pode subir ali, pegar sua guitarra, seu baixo, aprender. É isso aí”, analisa o baixista, contando que músicos negros procuram o grupo pelas redes sociais para mostrar seu trabalho. “A galera manda som, manda vídeo, isso é muito massa”, comemora.

Apesar de frisar a importância do discurso engajado, eles contam que querem seguir falando de racismo, mas também ter liberdade para tratar de outros assuntos. Atualmente em pré-produção do próximo trabalho, já têm nove novas composições. “E a gente está querendo contar uma nova história. Eu acho importante abordar o está acontecendo no nosso país também, ainda não é um tema cansativo, porque todo dia tem uma história diferente (de racismo), mas a banda não é só falar disso. O Chaene é nosso maestro, são músicos muito bons. A gente tem muito mais a oferecer e vai mostrar isso no terceiro álbum: que a gente pode falar de outras coisas também”, garante Rodrigo.

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