Black Sabbath: há 50 anos, a banda de Ozzy Osbourne colocava o marco inicial no heavy metal
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Black Sabbath: há 50 anos, a banda de Ozzy Osbourne colocava o marco inicial no heavy metal

Parece mentira ou algum equívoco da confusa mente de Ozzy Osbourne, mas ele garante que só notou o impacto do Black Sabbath em sua turnê solo de 1986, quando o Metallica abriu para ele. É difícil mesmo acreditar na pouca fé do vocalista da banda que simplesmente criou o heavy metal: há 50 anos, Ozzy, Terrence 'Geezer' Butler, Bill Ward e Tony Iommi lançavam "Black Sabbath", o álbum que não só mudaria a história do rock pesado como criaria um novo gênero.

"Toda vez que eu passava pelo camarim, lembro-me claramente de que eles estavam tocando coisas antigas do Black Sabbath", lembra Ozzy, sobre a turnê dos anos 1980 ao lado do Metallica, em um texto da reedição do "Master of Puppets". “Eu realmente pensei que eles estavam tirando sarro de mim. Meu assistente na época falou: 'Do que diabos você está falando? ... Eles acham que você e o Sabbath são deuses!' Foi genuinamente uma das primeiras vezes que percebi que as pessoas realmente amavam o Black Sabbath”, garante.

Quando o álbum de estreia "Black Sabbath" chegou às lojas do Reino Unido na sexta-feira 13 de fevereiro de 1970, mostrou ao mundo o real significado de "pesado" A capa mostrava uma mulher de preto segurando um gato preto. Entre os riffs sombrios, Ozzy detalhava um encontro com o diabo ("N.I.B."), cantava louvores a um feiticeiro legal ("The Wizard") e narrava cenas de terror (“Behind the Wall of Sleep”). A edição americana do álbum, lançada em junho, substituiu uma faixa de blues sobre os males da sociedade ("Wicked World") e incluiu a cover "Evil Woman". O disco era sombrio, direto e cru — acima de tudo, original.

Capa do "Black Sabbath", lançado em 1970. Foto: Reprodução
Capa do "Black Sabbath", lançado em 1970. Foto: Reprodução

Passado meio século, é fácil perceber que o álbum representou, sem exagero, o início de uma nova era no rock. Sem o Black Sabbath, o Metallica, Judas Priest, Iron Maiden e Slayer poderiam até ter surgido, mas é difícil imaginar que algum delas soaria igual. Os ecos das imagens macabras, dos poderosos riffs de guitarra e da bateria imponente no Black Sabbath também se espalharam pela música de bandas como Slipknot, Rage Against the Machine e Pantera e ecoaram ainda pelo punk e até no hip-hop. Isso sem deixar de soar único até hoje. "Não há dúvida de que o Sabbath inventou o que conhecemos como o começo do verdadeiro e puro metal pesado. Sem eles, o gênero poderia nunca ter surgido", diz Rob Halford, vocalista do Judas Priest, à "Rolling Stone".

Era 1968 e cada um dos membros da banda levava uma vida difícil no bairro de Aston, em Birmingham, que ainda se reconstruía dos prejuízos da Segunda Guerra. Ozzy trabalhava em um matadouro tirando vísceras de carcaças bovinas, Butler era contador e Ward entregava carvão. Iommi tocava no The Birds & The Bees e era soldador em uma fábrica até que, um dia, perdeu as pontas dos dedos em uma máquina. “Como minha guitarra poderia ter progredido se eu não tivesse sofrido o acidente é uma pergunta de um milhão de dólares”, diz Iommi ao "The Telegraph".

Inspirado no guitarrista de jazz de oito dedos Django Reinhardt, Iommi criou pontas artificiais para os dedos para tocar sua guitarra Fender Stratocaster branca. "Isso que me fez tentar fazer um som mais potente. Como eu não era mais capaz de tocar os tipos de acordes que costumava, coloquei vibratos para tentar fazer com que se tornassem maiores”, explicou ele, sem saber na época que estava contribuindo para criar um novo gênero. Em músicas como "Black Sabbath" e "N.I.B.", o guitarrista foi pioneiro no uso de acordes conhecidos como "trítono do diabo" ou "diabolus in musica" — o diabo na música — dentro do rock.

Os quatro músicos se encontraram a partir de um anúncio de Ozzy e formaram a Polka Tulk Blues Band e eram originalmente um sexteto, com o guitarrista Jimmy Phillips e o saxofonista Alan Clark. Geezer mudou para o baixo, pois o grupo já tinha dois guitarristas. Mas depois de tocar blues em alguns shows em agosto de 1968, Iommi decidiu que não estava dando certo. Por sugestão do baterista, o grupo virou Earth, e continuou tocando blues elétrico, uma tendência contrária à cena de Birmingham na época. No verão de 1969, mudou seu nome para Black Sabbath e após uma audição para várias gravadoras — “Ninguém nos queria”, lembrou Iommi — o Black Sabbath assinou contrato com a Phonogram Incorporated pela quantia de 400 libras. “Eu ganhava seis libras por semana na fábrica, então parecia muito dinheiro para nós”, diz o guitarrista.

Ozzy, que nem possuía sapatos, que o diga. “O que fiz foi comprar um par de sapatos porque não tinha nenhum. Andava descalço o tempo todo”, disse o vocalista, que aproveitou para comprar também uma garrafa de loção pós-barba na esperança de que ele pudesse "cheirar bem".

O álbum de sete faixas foi gravado em 16 de outubro de 1969 no Regent Sound Studios em Londres. "Sabíamos que estávamos tocando um tipo de música diferente do que estava por aí ... Era apenas uma questão de atrair as pessoas interessadas e de fazê-las ouvir", disse Iommi. "Nós sempre quisemos ir mais pesado do que qualquer outra banda", completou Geezer.

Tortura sonora

O engenheiro de som do projeto foi Tom Allom, que produziu obras para Judas Priest e Def Leppard, ainda se maravilha com a música do Black Sabbath. "Nunca ouvi nada parecido. Eu nem sabia se gostei da música ou não, foi muito estranho para mim ”, contou, lembrando da guitarra de Iommi soando “ incrivelmente alta”. No geral, Allom usa a palavra "torturante" para descrever o volume no local. "Tínhamos um estúdio de cinema acima de nós, onde costumavam gravar anúncios de TV. “Eles fizeram muitas animações, o que significava que a câmera tinha que ficar totalmente imóvel. Um dia recebi um telefonema: 'O que está acontecendo aí embaixo, Tom?' O baixo de Geezer estava causando estragos, tremendo o chão. Eu tive que dizer a Geezer: 'Sinto muito, mas este estúdio custa apenas 10 libras por hora, mas lá em cima são 100 libras, e eles estão ficando um pouco zangados'", lembrou, divertindo-se.

Ozzy no estúdio em 1970. Foto: Getty Images
Ozzy no estúdio em 1970. Foto: Getty Images

Mesmo meio século depois, Iommi ainda parece estressado quando pensa na ansiedade para acertar as notas. "Eu dizia: 'Olha, deixe-me tentar fazer o solo outra vez'. Eles respondiam: 'Não temos tempo'", contou. "Ozzy estava quase rouco quando terminamos a gravação, e lembro que ele queria refazer o final de 'Warning', mas não havia tempo suficiente. Estou impressionado que fizemos tanto em tão pouco tempo", disse Geezer. "Acho que todos nós provavelmente fizemos o melhor que pudemos. A maior coisa para mim foi o fato de termos gravado um disco, e eu não podia acreditar nisso. Nós realmente fizemos um registro", disse Ward.

O grupo escreveu muito mais do que o necessário para um LP na época. A folha de registro do Regent sugere que eles já haviam criado a música "Fairies Wear Boots", que apareceu em seu segundo álbum, "Paranoid", e Geezer lembra que o grupo havia escrito boa parte da faixa "War Pigs". Enquanto isso, uma folha com a letra de uma música chamada "Changing Phases", que recentemente foi leiloada, contém os versos do que se tornaria a balada "Solitude", do terceiro LP da banda, "Master of Reality". O grupo também gravou uma jam jazz chamada "Song for Jim", na qual Iommi tocou flauta, que eles nunca gravaram oficialmente, mas tocaram ao vivo em shows antes de gravar o primeiro álbum.

Diabo na música

A música “Black Sabbath” precede o nome da banda e nasceu numa manhã de ensaio no Aston Community Center. “Eu realmente gostava da suíte 'Os Planetas', do compositor clássico Gustav Holst, (1874-1934) e estava tentando tocar o primeiro movimento 'Marte, O Mensageiro da Guerra' no meu baixo, o que acho que influenciou Tony a escrever o riff de 'Black Sabbath'”, lembrou Geezer.

Esse riff capturou a essência do heavy metal. Suas três notas eram tão discordantes, tão sombrias, tão depressivas que falavam por conta própria. Como a peça de Holst, o riff gira em torno de um som sinistro que os estudiosos da música do século XVIII chamavam de diabolus na música, ou "diabo na música". Ozzy percebeu a vibração e berrou: "What is this that stands before me?”, desenhando a imagem de um pesadelo que Butler lhe dissera que ele teve, onde sentiu uma presença estranha na sala com ele. Os resultados soaram aterrorizantes, e a banda adorou a sensação, então eles tocaram várias vezes para fixar, já que não tinham gravador. “Estávamos orgulhosos de nós mesmos quando escrevemos 'Black Sabbath'. Demoramos algumas horas para terminar. Tony tocou o riff e todos participamos. Ozzy cantou espontaneamente e então Tony superou tudo, chegando com o riff ameaçador no final”, lembrou Geezer.

A música não tinha um refrão que pudesse fornecer um título óbvio, então Butler procurou inspiração no cinema. "Eu chamei de 'Black Sabbath' ', por causa do filme do italiano Mario Bava (de 1963, estrelado por Boris Karloff) com esse título (em português, 'As Três Máscaras da Morte'). Eu sempre gostei do som", diz,

'Nunca ouça sozinho', disse uma crítica

Embora o álbum tenha sido um sucesso, a crítica da época desceu a lenha. No Reino Unido, o "Disc & Music Echo" enxergou uma jogada de marketing — “Música de Magia Negra para as massas doentes” — e aconselhou "vivamente aqueles de disposição nervosa a não, repetindo, nunca ouvi-lo sozinho”. O "Melody Maker" descreveu o disco apenas como “pesado” e uma crítica no "International Times" os comparou a “um ônibus descontrolado: rápido, vermelho e assustador”.

Nos EUA, a "Rolling Stone" descartou o álbum, dizendo que soava "como Cream, mas pior!". "Ser destruído pela 'Rolling Stone' foi bem legal, porque eles eram o 'establishment'. Essas revistas de música eram todas criadas por universitários que pensavam que eram inteligentes — o que, para ser justo, provavelmente eram. Nós fomos expulsos da escola aos 15 anos e tínhamos trabalhado em fábricas e abatido animais para sobreviver. Só que depois criamos algo por nós mesmos, apesar de todo o sistema estar contra nós", escreveu Ozzy na biografia "I Am Ozzy'.

Embora alguns preceitos do heavy metal já existissem no final dos anos 1960 em álbuns e singles de grupos americanos como Blue Cheer, Iron Butterfly e Grand Funk Railroad, as bandas que ratificaram o gênero no final dos anos 1970 e 1980 seguiam o modelo do Black Sabbath, com influências de Led Zeppelin e Deep Purple, bem mais do que de seus colegas dos Estados Unidos.

Os integrantes do Sabbath não lembram exatamente quando ouviram suas músicas serem descritas positivamente como "heavy metal". "Acho que estávamos com cerca de dois anos e estávamos começando a ser chamados de 'heavy metal'. E eu lembro de todos nós negando isso furiosamente. Porque era uma nova palavra. Eu só comecei a adotar esse termo para nós nos últimos dez anos, então, quando eu tinha 60 anos, comecei a aceitar a ideia de que isso faz parte do metal ", diz Bill Ward.

Tony Iommi diz que não tem planos de comemorar o 50º aniversário do Black Sabbath, e revela que ouviu novamente o álbum há três semanas para ver como sua guitarra mudou ao longo de meio século. A resposta? Não muito. "Estou realmente orgulhoso do disco. Foi uma coisa ótima. E quando você considera que foi gravado tão rapidamente e que o som se manteve tão bem, é ótimo. E quando você pensa que criou um gênero inteiro de música e gerou todas essas outras bandas, isso é fantástico”, disse o guitarrista.

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