Bob Marley, a lenda que segue no auge mesmo após a morte
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Bob Marley, a lenda que segue no auge mesmo após a morte

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Enquanto o legado de certos heróis da história da música popular precisa do esforço de pesquisadores e de arqueólogos da cultura pop para confirmar ou sublinhar sua importância, outros dispensam argumentos ou justificativas. Como pilares incontestáveis do significado que um artista empunhando um instrumento musical e cantando canções pode possuir. Certos nomes são do tamanho da própria história e poucos se encaixam tão perfeitamente em tal descrição quanto Bob Marley

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O imenso impacto da obra e da carreira de Bob pode ainda hoje ser medido com precisão, como se o artista, morto em 1981, fosse um jovem no auge de sua carreira. Bob Marley é possivelmente o mais importante compositor político do século XX, apontando os horrores do racismo e da escravidão contra o povo negro, assim como as dores da injusta distribuição de renda e da fábrica de pobreza que o capitalismo instalou nas franjas de seu império, em cada país pobre do mundo – como a própria Jamaica, da onde Marley saiu. 

E esse é outro importante ponto: Marley é um raro herói oriundo de um país verdadeiramente pobre. Reconhecido e celebrado em todo planeta como um dos mais importantes artistas em todos os tempos, Marley não veio dos EUA ou da Inglaterra, nem mesmo da França ou outro país europeu, mas sim de uma ilha no Caribe. Mas isso todos sabemos, e devemos comemorar o fato dele ser reconhecido à proporção da qualidade imortal de sua obra. Há, no entanto, em tal equação, outro fator fundamental, que merece ser iluminado quando se fala de seu legado artístico, para além de sua força política: sua qualidade como compositor, cantor e performer.  

A chamada música “de protesto”, que traz a denúncia sobre determinada realidade social como tema e mote, muitas vezes acaba soterrada pela passagem do tempo, como uma obra de arte datada que perde sua contundência quando o próprio contexto que a inspirou também fica para trás. Mas por que então certos artistas como Bob Dylan, John Lennon, Chico Buarque, Caetano Veloso, Racionais MCs, Belchior, Gonzaguinha, o português Zeca Afonso, e bandas como The Clash e Rage Against the Machine, entre tantas outras, conseguiram cantar o protesto de sua época sem perder a força com o passar dos anos? A resposta está justamente naquilo que não está nas notícias de jornal, algo raro e que necessariamente sobrevive ao tempo: o talento como compositores e artistas, e a qualidade das canções para além do tema que defendem – e aqui voltamos a Bob Marley.

Clássicos como "Redemption Song", "Get Up Stand Up", "Africa Unite", "Zimbabwe", "War", "No More Trouble", "Buffalo Soldier", "Them Belly Full", "Exodus" e "Rebel Music", entre tantos – tantos! – outros não permanecem perpétuos na playlist do inconsciente coletivo simplesmente pela (bela, importante e contundente) força de suas mensagens, mas também por se tratarem de grandes canções. Junto da consciência política, da coragem e da capacidade de formular tais gritos em poemas, Marley foi um dos maiores compositores da música pop em todos os tempos – fosse falando de política, fosse cantando o amor, a religião, seus dreads ou a maconha. Não é em nada exagero colocá-lo ao lado de nomes como Paul McCartney, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim, Cole Porter, Bob Dylan, Paul Simon ou Brian Wilson como um dos maiores criadores de canções em todos os tempos.

Nem é preciso entender o que ele canta para se maravilhar ao ritmo e à melodia de  "Three Little Birds", "Iron Lion Zion", "Natural Mystic", "One Drop", "Kinky Reggae", "Easy Skanking", "Is This Love", "Keep on Moving" ou qualquer outra canção de seu repertório. E tudo isso era ainda defendido por um dos maiores performers da história do rock – talvez comparável somente a alguém do quilate de Freddie Mercury no que diz respeito ao magnetismo de um artista sobre o palco. É impossível lembrar a importância da obra de Bob Marley sem reconhecer o genial intérprete que era, para além de sua temática. 

O fato é que ninguém se torna um ícone de tamanha dimensão sem que seu trabalho seja primoroso em tudo – e esse é também o legado de superação e triunfo de sua obra e vida: a cultura negra, africana e jamaicana, a denúncia da opressão, a tradição rasta, a história de seu país, a maconha como planta sagrada, o amor como força fundamental e a resistência dos povos oprimidos em todo o mundo foram escritas e cantadas por um verdadeiro gênio, capaz de transformar todo esse complexo repertório de vida em joias imortais da canção popular.

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