‘Bocas musicais’: o dentista que é especialista em atender músicos
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‘Bocas musicais’: o dentista que é especialista em atender músicos

O consultório do dentista Alexandre de Alcântara, em São Paulo, poderia ser um ambiente odontológico como qualquer outro, com cadeiras especializadas, brocas e outros apetrechos dentários, mas não é. Além dos aparelhos necessários para o exercício ordinário da profissão, Alexandre tem como instrumentos de trabalho um trombone, uma flauta, uma trompa, um trompete, um saxofone e um clarinete. Não, ele não toca em uma orquestra, muito menos é músico - inclusive, ele gosta mesmo é de heavy metal. Alexandre é especialista no atendimento de músicos de instrumentos de sopro, ofício que lhe rendeu a alcunha de o “dentista de bocas musicais”.

“Se uma gestante vai a um hospital e lá só tem um ortopedista, ok, ele é médico, ele pode atendê-la, mas o profissional mais capacitado para o caso dela é o ginecologista obstetra. Isso acontece com músicos de sopro, cantores, locutores… Todos aqueles que usam a boca para a arte precisam de um profissional que preste atenção nos detalhes de seu ofício para tentar ajudá-los na questão da performance”, explica o profissional sobre a importância do seu papel.

Por atender muitos músicos, Alexandre ficou conhecido como 'o dentista das bocas musicais'. Na foto, ele atende Fernando Dissenha, primeiro trompetista da Osesp / Arquivo pessoal
Por atender muitos músicos, Alexandre ficou conhecido como 'o dentista das bocas musicais'. Na foto, ele atende Fernando Dissenha, primeiro trompetista da Osesp / Arquivo pessoal

Essa especialização curiosa veio quase que ao acaso. Certa vez, um amigo de um tio, músico, fez um tratamento dentário e saiu em turnê pela Holanda. No país europeu, ele passou dez dias sem conseguir alcançar as notas que deveria no trompete. Quando retornou, procurou por Alexandre, que havia se formado na faculdade recentemente. A princípio, o “dentista de bocas musicais” não identificou nenhum defeito no trabalho feito pelo profissional anterior. Porém, atendendo às reclamações do músico, fez algumas alterações que logo permitiram que o artista voltasse a tocar como sempre.

“Foi ali que caiu a minha ficha de que aquilo que você faz pode ser perfeito no ponto de vista estético e odontológico - e até mesmo funcional -, mas não funciona para tocar. A partir de então, eu comecei a ver o que interferia e o que não interferia para cada tipo de prática musical. Naturalmente começaram aparecer músicos e mais músicos no meu consultório”, relembra.

A procura levou Alexandre a providenciar instrumentos para deixar na sala de atendimento. Como muitos de seus pacientes passaram a vir de outros estados, o dentista decidiu ter os principais instrumentos de sopro disponíveis dentro do consultório, podendo, assim, fazer uma avaliação mais precisa.

No dia a dia, o dentista atenta para pequenas nuances do trabalho dos artistas que podem influenciar em suas carreiras. Na foto, Odésio Jericó, trompetista da Banda Mantiqueira / Arquivo pessoal
No dia a dia, o dentista atenta para pequenas nuances do trabalho dos artistas que podem influenciar em suas carreiras. Na foto, Odésio Jericó, trompetista da Banda Mantiqueira / Arquivo pessoal

DENTISTA FEZ AULAS DE MÚSICA

Apesar de estar diariamente ligado a músicos - ele estima que 90% dos seus pacientes sejam artistas do ramo -, Alexandre não se arrisca a tocar nenhum instrumento. Nascido em uma família de músicos, há uns anos, conta, até chegou a fazer aulas de trompete e saxofone (instrumento tocado por seu pai), mas apenas para entender melhor a dinâmica dos instrumentos ao serem utilizados. O dia a dia do consultório o impediu de continuar estudando.

“Queria entender como esses instrumentos funcionavam dentro da boca. Tanto o trompete quanto sax me mergulhavam nos metais e nas madeiras, então consegui entender como era soprar o instrumento e ver as dificuldades, mas não deu tempo de aprender a tocar de fato, é preciso muita disciplina”.

Alexandre explica que o tratamento odontológico que faz segue os padrões do ramo. A diferença é que o dentista atenta para pequenas nuances do trabalho dos artistas que podem influenciar em suas carreiras. Os principais problemas identificados entre os pacientes são bruxismo, disfunções ou deslocamentos de mandíbula, além, é claro, de perda de dentes.

Nos 22 anos que atua no ramo, Alexandre se tornou referência no tratamento de músicos de sopro. Ele conta que é convidado para assistir concertos a todo momento e já recebeu até mesmo composições em sua homenagem. Uma delas do saxofonista argentino Hector Costito, que escreveu a música “Alexandre e as bocas musicais”.

“Eu tento entender como funciona a profissão desses artistas, e eles ficam gratos porque tem alguém olhando por eles. Quando vem um paciente músico aqui, o que ele mais procura é segurança, a confiança de uma pessoa que convive com ele. O universo musical é maravilhoso. Tenho um privilégio de vê-los solando para mim, ganho apresentações exclusivas dentro do meu consultório. E aí eles falam ‘nossa, eu estou tocando melhor porque você fez um milímetro a mais de restauração’. É muito legal”.

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