Bon Scott, do AC/DC: há 40 anos, começava, em meio a controvérsia e tragédia, uma lenda do rock
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Bon Scott, do AC/DC: há 40 anos, começava, em meio a controvérsia e tragédia, uma lenda do rock

Olhar provocador, acompanhado de sorrisos quase sempre de canto de boca, presença de palco segura e extremamente sexual. Fora dos holofotes, bebia demais e arrumava brigas o tempo todo. A descrição pode se aplicar a vários vocalistas de banda de rock, mas a de Bon Scott é inconfundível. Ele ficou apenas sete anos à frente do AC/DC, mas ainda assim é considerado, por muitos, o vocalista "trüe" do grupo. Injustiça com Brian Johnson, que cantou por 30 anos na banda australiana? O tema é discussão para fãs e biógrafos. O fato é que Bon foi encontrado morto há exatos 40 anos, em 19 de fevereiro de 1980, em circunstâncias que ainda levantam dúvidas, e até hoje é celebrado e cultuado como herói do rock.

Era janeiro de 1980 e os irmãos Angus e Malcolm Young (1953-2017) chamaram Bon Scott ao estúdio de gravação em Londres para mostrar uma música que eles tinham feito para o próximo álbum do AC/DC. O trabalho era o "Back In Black", sucessor de "Highway To Hell", que foi um estrondoso sucesso em 1979. Eles queriam que Bon escrevesse a letra. Mas não houve tempo do vocalista escrever a letra pois, um mês depois, foi encontrado morto dentro de um carro.

A trágica morte do artista de 33 anos na noite de 19 de fevereiro de 1980 foi oficialmente decretada como asfixia causada por envenenamento por álcool. Mas para o escritor Jesse Fink, autor dos livros "The Youngs: The Brothers Who Built AC/DC", em 2013 e "Bon: The Last Highway", em 2017, Bon morreu por overdose. “Não há dúvida de que Bon Scott morreu de overdose de heroína. Eu reconstruí a noite de 18 de fevereiro de 1980, conversando com as pessoas que estavam com ele e essa é a realidade”, diz Fink à "Icon", revista masculina do "El País".

Malcolm Young, Bon Scott, Phil Rudd e Angus Young na primeira turnê pela Grã-Bretanha. Foto: Getty Images
Malcolm Young, Bon Scott, Phil Rudd e Angus Young na primeira turnê pela Grã-Bretanha. Foto: Getty Images

Em entrevista para o programa "3AW Breakfast " na época do lançamento do controverso livro, em 2017, Fink afirmou que a investigação policial não foi a fundo no caso. "Desde o momento em que seu corpo foi descoberto até o término do inquérito, tudo foi feito em 72 horas. Se houvesse uma investigação decente, eles teriam conversado com as testemunhas com quem conversei", ponderou. O escritor também defende a ideia que o vocalista queria deixar o AC / DC, teoria que amigos e os integrantes da banda descartam completamente. Segundo apurado pelo site "Noise11", Bon estava com amigos na Austrália três semanas antes de morrer e disse a eles que a banda estava preparando seu próximo álbum e que, se não funcionasse, até poderia ser o fim, mas nunca houve sugestão de que ele estivesse planejando sair por conta própria.

Angus Young conta que soube da morte do parceiro de banda por um amigo de Scott. "Um amigo de Bon me ligou e disse: 'Ouvi dizer que Bon morreu.' Achei que era um boato, mas outro amigo que nos conhecia bastante me contou a mesma coisa. Liguei para o nosso empresário e ele confirmou. Foi o momento mais difícil da nossa carreira", disse ele em 2008 ao "El País". Mas Fink chama a atenção no livro para a péssima relação entre Scott e os Young. “Bon e os irmãos não tiveram um bom relacionamento. Eles não eram irmãos de sangue, como disseram os guitarristas. Bon se entregava no palco e dava tudo de si no estúdio, mas aproveitava seu tempo livre longe dos companheiros. Ele estava frustrado com as limitações musicais do grupo", garante o escritor.

O mais grave e aparentemente verdadeiro entre as questões levantadas por Fink é que muitas das músicas de "Back In Black", álbum lançado cinco meses após a morte do vocalista, teriam sido escritas por Scott, que não teve nenhum crédito. A entrada do novo vocalista Brian Johnson foi anunciada em 1 de abril de 1980, três meses e meio antes do lançamento do álbum, que foi gravado nas Bahamas durante sete semanas, entre abril a maio de 1980. "Back In Black" vendeu 50 milhões de cópias no mundo, sendo um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos.

Em uma entrevista para o "The Sydney Morning Herald" em 2017, Fink conversou com a modelo Holly X, que foi namorada de Scott de 1978 até sua morte. "Eu não li muito o que foi escrito sobre Bon, mas tudo que eu li é sobre o vício, que ele ficava chapado e histórias sobre ele ser desperdiçado a vida. Mas ele era muito, muito legal. Ele era divertido, uma pessoa gentil e sensível", disse ela. Holly é uma das que acredita que Scott escreveu várias músicas de "Back In Black".

Bon Scott durante um ensaio fotográfico em Camden, na Inglaterra. Foto: Getty Images
Bon Scott durante um ensaio fotográfico em Camden, na Inglaterra. Foto: Getty Images

Ela contou também como ficou irritada quando soube que "Have A Drink On Me" foi incluído no álbum como uma "homenagem" a ele. Furiosa, foi pessoalmente enfrentar Malcolm em um show. "A principal razão foi que senti que eles estavam zombando dele. Eu achei que era necessário dizer algo em nome de Bon. Eu fui aos bastidores para perguntar especificamente a Malcolm por que ele não havia dado crédito a Bon por 'You Shook Me All Night Long', além de outras músicas, e para mostrar minha raiva sobre a inclusão de 'Have a Drink on Me', já que Bon morreu por beber demais. Era de muito mau gosto, para não dizer terrivelmente desrespeitoso à sua memória. Eu sabia o quanto ele realmente se sentia em relação a beber. Ele simplesmente não conseguia parar, pelo menos não por muito tempo", contou.

Delinquência juvenil

Scott era escocês e que foi com a família aos seis anos para a Austrália, onde preferiu perambular pelas ruas e fazer bicos do que ir para a escola. Estava sempre envolvido em brigas de bar, cometendo pequenos furtos e entrando em confronto com a polícia. Passou nove meses em uma instituição para delinquentes juvenis por falsificação de identidade e roubo. Quando saiu, sua família o empurrou para o exército, onde, claro, foi expulso por comportamento inapropriado.

Foi no rock que Scott acabou canalizando toda essa delinquência — e certamente foi a carreira, mesmo que curta, que o salvou de alguma forma. Ele fez parte de Spektors, Valentines e outras bandas, onde tocava bateria. Mas foi na Fraternity que ele finalmente revelou sua voz poderosa e a imagem que lhe daria fama, com jaquetas jeans ou sem camisa e jeans justíssimos de cós alto.

Ele chegou a ter contato com o Easybeats, banda da qual George Young, irmão mais velho de Angus e Malcolm, fazia parte, mas um acidente de moto interrompeu uma maior aproximação. Sua recuperação foi lenta, mas depois conseguiu um emprego como motorista do AC/DC, que não andava satisfeito com o vocalista Dave Evans. Não tardou muito para Scott assumir a posição, o que aconteceu em outubro de 1974.

Sete anos mais velho que Malcolm e nove a mais que Angus, Scott tinha experiência e profissionalizou a banda, chamando a atenção da indústria. De 1975 a 1979, lançaram os álbuns "High voltage", "TNT", "Dirty deeds done dirt cheap", "Let There Be Rock", "Powerage" e "Highway to Hell".

"Ele era um ídolo, foi uma das minhas maiores inspirações. Eu já tinha decidido ser um cantor de rock, mas quando ouvi o primeiro álbum do AC/DC, pensei: 'OK, é isso. Esse é o cara'", diz Michael Monroe, cantor do Hanoi Rocks, em "A Rockin’ Rollin’ Man: Bon Scott Remembered". O livro marca os 40 anos da morte de Bon e traz uma compilação de histórias sobre o vocalista contadas por seus amigos.

Bun E. Carlos, ex-baterista do Cheap Trick, lembra de um encontro no Zeppelinfeld, na Alemanha, onde o AC/DC tocou com o The Who. "Lembro que ele andava com duas garrafas a tiracolo e estava sempre bêbado. Há uma foto comigo, Robin (Zander, vocalista) e Bon jogando sinuca no bar do hotel em um dia de folga. Na manhã seguinte ao show, eu e Robin fomos ao restaurante para comer, e Bon estava sentado lá e disse: 'Junte-se a mim!'. Ele jogou tudo o que estava na mesa no chão e a garçonete queria matá-lo, é claro", conta ele no livro.

Bon Scott à frente do AC/DC em um show na Alemanha, em 1978. Foto: Getty Images
Bon Scott à frente do AC/DC em um show na Alemanha, em 1978. Foto: Getty Images

O derradeiro trabalho de Bon Scott em "Highway to Hell" foi turbulento. A gravação foi dolorosa para os irmãos Young, pois o cantor vivia atrasado, não ia ao estúdio ou chegava bêbado. Há uma parcela de fãs que aponta que, naquele momento, os irmãos pretendiam substituir Scott porque não conseguiam controlar sua indisciplina. “Segundo Roy Allen, um dos seus amigos, Bon tinha ideia de abandonar o grupo no final de 1979. Ele estava no seu ponto mais crítico em relação ao abuso de álcool e drogas e queria encontrar ajuda. Suas performances não eram muito profissionais na época. E veja o que aconteceu apenas dois meses depois", diz Fink.

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