Bossacucanova celebra o blues, a paixão 'alternativa' de Roberto Menescal, pioneiro da bossa
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Bossacucanova celebra o blues, a paixão 'alternativa' de Roberto Menescal, pioneiro da bossa

Blues, bossa nova e Roberto Menescal. A mistura está na essência de "Bossa Got The Blues" (Deck Disc), sétimo álbum do grupo Bossacucanova, um trabalho 100% instrumental que expande mais uma vez os horizontes do trio formado por Marcio Menescal, Alex Moreira e Marcelinho da Lua, engrossado com a presença de Roberto, pai de Márcio. O pioneiro da bossa já havia participado do primeiro álbum do trio, "Brasilidade" (2001), e foi ele quem sugeriu, há alguns anos, que o grupo enveredasse pelo blues.

"Até pensamos em chamá-lo 'Brasilidade 2', mas depois foi tomando esse caminho do blues e mudamos o título. Começamos a trabalhar nele há uns três anos e só em 2018 entramos em estúdio", conta Marcio, destacando que é o primeiro disco deles todo instrumental. "Fiquei preocupado e falei: 'Turma, vocês não são de lançar disco e vão fazer um todo instrumental?' Mas há uns dias descobri que a companhia que lança os trabalhos deles lá fora (Six Degrees Records) adorou e disse que vai tocar muito. Pois bem, o primeiro susto já passou", brinca Roberto Menescal. "Sei que não é muito popular e que nos arriscamos, mas existe um mercado enorme de música instrumental", diz Marcio, para "acalmar" o pai.

Na capa, uma montagem retrô/ Reprodução
Na capa, uma montagem retrô/ Reprodução

"Acabou que desta vez foi o Marcelinho quem sugeriu que nosso próximo trabalho fosse em cima do blues. Fazíamos os loops e mostrávamos para o meu pai", conta. "Vinha na cabeça uma ideia, eu pedia para eles me mandarem as levadas, que me inspiravam para fazer as melodias. Vi que foram saindo coisas bluseadas, mas também meio nordestinas, bossanovistas... Eu fiz o fio condutor e eles valorizaram. O processo deles sempre foi assim, pegar as faixas e mexer em tudo", explica Roberto. O músico aproveita para "dedurar" o trio: "Eu trabalho muito rápido e eles são lentos. Em dois dias gravei minha parte e não peruei em mais nada. Eles levaram um ano no estúdio". Roberto fez todas as trilhas de guitarra do álbum e participou dos arranjos de base.

Uma demora justificada quando se vê que Marcio, Alex e Marcelinho cuidaram de toda parte de direção artística, produção, gravação e programação do álbum, além da mixagem das faixas feitas no estúdio Mola, com exceção da faixa "1937" feita pelo produtor Moogie Canazio. "Sempre tivemos o controle total dos nossos discos. Até tentamos chamar produtores, mas acho que não saberíamos fazer de outra forma por conta de nossa origem técnica, sabemos de todos os detalhes da produção de um disco. Eu acho que até progrediríamos, mas não conseguimos!", confessa ele, que compôs nove das 10 faixas ao lado do pai e dos companheiros Alex e Marcelinho.

Nove das 10 faixas do novo disco foram compostas por Marcio, Alex, Marcelinho e Roberto. Crédito: Marcos Hermes
Nove das 10 faixas do novo disco foram compostas por Marcio, Alex, Marcelinho e Roberto. Crédito: Marcos Hermes

É claro que, em se tratando do Bossacucanova, não se pode esperar um disco de blues raiz. Além das inúmeras experimentações, diferentes instrumentos e ainda muito convidados, o trabalho reforça seu pioneirismo na associação da bossa nova com o mundo eletrônico passado, dessa vez, pelo filtro do blues. "A ideia foi usar mais a cadência harmônica do blues, algumas músicas da bossa nova eram assim. Vejo como um disco muito brasileiro", resume Marcio.

Se os músicos centralizam a criação e parte técnica do trabalho, sempre fazem questão de abrir o estúdio para muitos convidados. "Bossa Got The Blues" traz Carlos Malta (pícolo, pífano e flauta baixo em dó), Sidinho e Ian Moreira (percussão), Flavio Guimarães (gaita), Jota Moraes (vibrafone), Leo Gandelman (metais, barítono e tenor) e o bloco Rio Maracatu. "Mas já tomamos muitos 'não' na vida. Uma vez, chamamos o Emílio Santiago para cantar 'Essa Moça Tá Diferente' (do álbum 'Uma Batida Diferente') e ele disse que não podia, aí Simoninha cantou e ficou maravilhoso. Tempos depois, Emílio disse que queria participar de um disco nosso e gravou 'É Preciso Perdoar' (do CD 'Nossa Onda é ssa'), que ficou linda", conta Marcio.

Outro convidado do disco foi Paulinho Trompete, que morreu aos 69 anos em agosto. Ele fez arranjos e tocou trombone, trompete e fluguelhorn. "Quando começamos a compor, a ideia era realmente ficar nós três e meu pai. Mas sentimos falta de alguns arranjos e logo falamos: 'vamos chamar o Paulinho!'", conta Márcio. O músico assinou "1937", "Train To Ipanema", "Bossa Got The Blues" e "Vou Nessa". "Quando ele devolveu a '1937' ficamos impressionados como a música cresceu. Os metais a levaram a um ponto absurdo! Ele chegou a fazer alguns shows com a gente, muito triste ter partido assim", lamenta Marcio.

Marcio diz que o disco é muito brasileiro. Crédito: Marcos Hermes
Marcio diz que o disco é muito brasileiro. Crédito: Marcos Hermes

"1937", a faixa de abertura, já tem videoclipe no Youtube. "Foi feito num quarto escuro, usando apenas lanternas que mostram os instrumentos e as mãos", destaca Márcio. O título remete ao ano de nascimento de Roberto: "Na verdade, quando começamos a planejar o disco, queríamos lançar nos 80 anos dele, mas não deu...", confessa. Outra faixa que homenageia o bossanovista é "Galeria Menescal". "Meu pai morava no primeiro andar do local, cheguei a conhecer o apartamento. A gente já tinha gravado a música e queria encontrar uma ligação com ele. Um dia, tive a ideia do título e ele adorou", conta Márcio. "O único título que dei no disco foi 'Blues Bossa', parceria com J.C Costa Netto, que já estava pronta. Eles me pediam sugestão de nomes, mas eu dizia 'eu não quero saber, decidam vocês!'", diverte-se Roberto. Ele desconversa em relação à propriedade da famosa galeria de Copacabana. "Foi um tio que construiu, mas eu nunca falei se era ou não da família", brinca.

Marcio conta que já estão trabalhando na turnê, que deve ter as primeiras apresentações no Rio e São Paulo em dezembro. "Estamos mexendo no repertório para trazer coisas lá de trás, principalmente do 'Brasilidade', dando novas roupagens. Depois do lançamento do disco no exterior, vamos viabilizar a turnê nos Estados Unidos e Europa, concentrando as apresentações em eventos grandes para não ter que rodar muito. Meu pai já é um senhor!", pondera Márcio, ainda assim, confessando que o pai é, de longe, o mais animado e disposto nas viagens. Roberto, claro, "puxa a orelha" do filho: "Se eles me chamarem para uma excursão de seis meses, eu vou. Tenho muito pique, adoro trabalhar!".

Roberto Menescal: cheio de pique. Crédito: Marcos Hermes
Roberto Menescal: cheio de pique. Crédito: Marcos Hermes

De disposição, Roberto Menescal nem precisa falar, basta ver a quantidade quase insana de projetos que se envolve ao mesmo tempo. Atualmente está fazendo um show com a cantora Cris Delanno que, em breve, vai virar disco, e acaba de fechar contrato com a Som Livre para gravar, em outubro, o disco em homenagem a Cazuza — turnê que percorreu o país ao lado de Rodrigo Santos e Leila Pinheiro. "Estou preparando um show com vários artistas que vai acontecer em outubro em Portugal. Também já comecei a ensaiar para a turnê com Os Bossa Nova (Carlos Lyra, Marcos Valle e João Donato) no início de 2020 no Japão", acrescenta o músico que tem 82 anos de idade e mais de 60 de carreira.

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