Break nos Jogos Olímpicos: que pensam b-boys e b-girls brasileiros sobre a (possível) nova modalidade
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Break nos Jogos Olímpicos: que pensam b-boys e b-girls brasileiros sobre a (possível) nova modalidade

Não é novidade que o break (ou breaking) é candidato oficial a modalidade olímpica nos Jogos de Paris, em 2024. Pelo menos desde fevereiro, estamos acompanhando o desenrolar dessa história, mais próxima do que nunca de se tornar realidade. É o que garantiu o b-boy Alex José Gomes Eduardo, também conhecido como Pelezinho. “Acredito que já está concretizado, só falta o anúncio oficial”, diz o dançarino/atleta profissional. “Eu sou a favor. No caso, acho que isso vai ajudar. Pode levar mais informação a algumas pessoas que não têm conhecimento sobre nossa cultura”, defende.

Apesar do tom otimista, o experiente b-boy — que faz parte do time da Red Bull BC One All Stars — é compreensivo com quem pensa diferente. Ao Reverb, ele não hesitou em destacar que break não é um esporte, mas uma dança, uma expressão artística. “Acontece que muitas pessoas levam o estilo de vida de dançarino de break e de atleta ao mesmo tempo. Eu me incluo nisso”, avalia. “Sei que o breaking não é um esporte propriamente dito, mas muitos encaram como se fosse por conta da preparação física, mental e da alimentação.”

Fabiana Balduína, a FabGirl, é dessas que não concordam inteiramente com a ideia do break virar modalidade olímpica. Para ela — dançarina há 19 anos e jurada do Red Bull BC One Camp Brazil —, esse assunto ainda é nebuloso e gera uma “certa briga” entre b-boys e b-girls da cena. “Quem é mais ‘tradicionalista’, defende ferrenhamente nossa cultura e, ao meu ver, isso não é errado. É importante ter pessoas que preservem e deem continuidade ao legado da dança”, explica, imediatamente, mostrando o outro lado da moeda.

FabGirl, uma das b-grisl mais importantes do país/Reprodução/Instagram
FabGirl, uma das b-grisl mais importantes do país/Reprodução/Instagram

“Há pessoas que acreditam que essa oportunidade possa trazer mais patrocínios e visibilidade. Minha maior preocupação é que nada disso aconteça, como podemos ver em outras modalidades esportivas no Brasil, exceto o futebol, judô e vôlei. Ainda assim, mesmo nessas modalidades, têm gente passando dificuldade. Então, pensando no breaking como esporte, fico receosa. Sequer temos aparelhos públicos com suporte para receber essa nova modalidade”, destaca.

Ela também contrapõe o argumento sobre a preparação física levantada por Pelezinho. “Me considero artista, não sou atleta só porque malho e vou ao nutricionista. Isso não diz respeito apenas a quem pratica esportes, mas a quem trabalha com o corpo, que é o meu caso”, rebate Fabiana. “Também acho importante refletir sobre esse aspecto da dança, e da cultura em modo geral, não ser valorizada no Brasil e em outros lugares do mundo. Não temos tanta projeção porque os esportes têm esse teor competitivo, e isso é entendido como algo bom. Já a arte tem esse lugar de apreciação e expressão, o que é entendido como algo menor. Mas não é.”

Pelezinho, o experiente b-boy e também interessado em mudar os paradigmas da música de breaking no Brasil/Reprodução/Instagram/ErnnaCost
Pelezinho, o experiente b-boy e também interessado em mudar os paradigmas da música de breaking no Brasil/Reprodução/Instagram/ErnnaCost

O break é uma dança criada no sul do Bronx, em Nova York e e está muito presente na cultura hip-hop como um todo. No Brasil, por conta das influências regionais, a modalidade ganhou uma "cara nova", como apontou Fabiana. "As culturas populares mudaram nossa forma de dançar, pois absorvemos a estética da capoeira, do frevo, do xaxado, do forró e do passinho. Outra coisa que mudou foi a naturalidade dos nossos b-boys e b-girls. Antes, a maioria era de Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. Hoje temos muitas revelações que vêm do Norte e, principalmente, do Nordeste. Eles são uma potência", conta a dançarina, fundadora do projeto Brasil Style B-Girls, da capital federal.

Entre os jovens surgidos em novos polos pelo país, está o b-boy Leony Pinheiro, de 23 anos. Ele é natural de Belém, no Pará, e já conquistou o título de melhor do país em 2013, 2016 e 2017. Como representante da nova geração da dança, ele observou que o breaking deu "uma caída", em questão de investimento e prática, no Brasil nos últimos anos. "Mas vejo na possibilidade das Olimpíadas uma forma de dar um up na nossa arte", torceu o rapaz, que ainda enxerga muitas possibilidades de evolução nessa modalidade artística.

Outro aspecto que ainda precisa progredir, segundo Pelezinho, são as músicas voltadas para o break no Brasil. "Por aqui, poucas pessoas articulam músicas para a gente dançar", denunciou. "Sempre me pergunto por que os passos do breaking evoluíram tanto e a música não." Pensando nisso, ele desenvolveu, junto do DJ e beatmaker Bocka, o projeto Capitam Beats, onde criam e remixam músicas voltadas para a modalidade.

"É bom lembrar dos clássicos, como Africa Bambaata e James Brown, mas também é legal olhar para o futuro, e nesse sentido os gringos estão na nossa frente", acrescentou, dando dicas de DJs internacionais que se dedicam à música voltada para breaking. São eles: Lean Rock (EUA), Fleg (EUA), Nobunaga (Holanda) e Leg1oner (Rússia).

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