Brian Jones, fundador dos Rolling Stones e músico superinfluente, morria há 50 anos - junto com o 'paz e amor'
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Brian Jones, fundador dos Rolling Stones e músico superinfluente, morria há 50 anos - junto com o 'paz e amor'

Em 3 de julho de 1969, o músico inglês Lewis Brian Hopkin Jones foi encontrado morto, boiando na piscina de sua mansão na cidade de Hartfield, Inglaterra. O nome soou familiar? Exatos 50 anos depois, o acontecimento poderia ser uma nota de rodapé na história do rock britânico... se o falecido Lewis não fosse mais conhecido pelo nome artístico de Brian Jones.

Fundador e líder original dos Rolling Stones, hoje o multi-instrumentista tem seu valor cada vez mais reconhecido, tanto por companheiros de geração quanto por fãs e historiadores do rock e da música popular. Quem acompanhou de perto a louca trajetória do músico conhece bem a verdade. Seu impacto na música, como defensor e divulgador do blues, da música africana e de influências de etnias diversas, é imenso, como atesta seu biógrafo, o jornalista inglês Paul Trynka, autor do livro "Sympathy For The Devil".

Brian Jones: até hoje morte não foi totalmente esclarecida. Crédito: Getty Images
Brian Jones: até hoje morte não foi totalmente esclarecida. Crédito: Getty Images

“Todo mundo pensa que os Rolling Stones são a banda de Mick e Keith. Mas a banda era do Brian”, conta Bill Wyman, o baixista quase original do grupo (entrou bem nos primórdios, substituindo Dick Taylor), que está lançando o documentário biográfico “The Quiet One”. “Eu sempre fiz questão de reafirmar que Brian foi o cara que criou os Rolling Stones. Ele escolheu o estilo musical, o nome da banda, ele assinava todos os contratos. Ele era o líder”, diz, categórico.

"As garotas mod na plateia gritavam mais para ele do que para o Mick", lembra Pete Townshend, que o conheceu antes de fundar o The Who. "Ele tocava muito, muito bem. Em 'The Last Time', é dele a guitarra que repete o riff intoxicante e contagioso. Ele era musical e quase um musicólogo, em essência. Adorava falar sobre música", conta o amigo, que conviveu com Brian Jones bastante por dois anos, entre 1964 e 1966. "Brian ficava entusiasmado com música pop, tanto quanto com o R&B. Assistimos juntos ao primeiro show de Stevie Wonder no Reino Unido."

A morte de Brian Jones precedeu o festival de Altamont, tido como marco do "fim do sonho" contracultural, em seis meses. Há quem veja em sua demissão dos Rolling Stones, em 8 de junho de 1969, um ato simbólico de encerramento dos ideais de "paz e amor".

Curiosamente, também, Brian Jones foi o primeiro integrante do chamado "clube dos 27", formado por nomes míticos do rock mortos aos 27 anos. Depois dele, viriam Jimi Hendrix, morto em 18 de setembro de 1970, Janis Joplin, falecida em 4 de outubro de 1970, e Jim Morrison, encontrado morto em 3 de julho de 1971. Kurt Cobain, em 5 de abril de 1994, e Amy Winehouse, em 23 de julho de 2011 , completam a lista de coincidências.

“Brian foi o primeiro amigo que perdi. Fiquei melodramaticamente afetado. E com raiva de um meio em que pessoas, especialmente a imprensa, faziam pouco de quem tentava salvar a própria pele entrando num rehab depois de tocar o terror. Brian deveria ter sido levado para um hospital psiquiátrico como se faz com um bêbado de rua, nunca deveriam permitir que ficasse boiando numa piscina aquecida. Para ser honesto, suponho que eu era um desses amigos que deveriam ter chamado a ambulância para ele", confessou Pete Townshend, em depoimento a Paul Trynka.

Mick Jagger, Keith Richards, Bill Wyman, Brian Jones e Charlie Watts em Londres, em 1963
Mick Jagger, Keith Richards, Bill Wyman, Brian Jones e Charlie Watts em Londres, em 1963

Brian Jones foi “o rosto” original da banda diante do público: o mais engraçadinho nas entrevistas, o que se vestia de forma mais elegante, o que tinha os penteados mais elaborados. Ele formou os Rolling Stones em 1962, inicialmente como uma banda para tocar covers de blues e R&B. “Brian era o músico mais brilhante do grupo, no começo. Ele conseguia tocar qualquer instrumento, e com isso acrescentava muito às nossas gravações”, lembra Wyman. Entre outros, Jones tocou nos discos dos Stones gaita, cítara, órgão, violoncelo, diversos instrumentos de sopro e, claro, guitarra.

Mas Jones foi se afastando dos companheiros à medida em que o empresário da banda, Andrew Loog Oldham, encorajava o vocalista Mick Jagger a tomar a frente do grupo – no palco e nas composições, em parceria com Keith Richards. “Foram as composições que causaram a mudança na banda. Brian não conseguia compor”, diz Wyman. “E, claro, nos shows, Mick era a figura principal. Então, lentamente, a banda evoluiu para o que é até hoje. Mas não aconteceu de forma forçada”, garante.

Outra razão para a perda de status de Jones na banda foi seu conhecido envolvimento com drogas pesadas – que, direta ou indiretamente, causaram sua morte, cujos detalhes até hoje não foram totalmente esclarecidos. “Eu sentia que Brian levava o estilo de vida mais decadente e excessivo que já vi em qualquer pessoa”, conta Pete Townshend.

Brian Jones foi encontrado morto na piscina de sua mansão
Brian Jones foi encontrado morto na piscina de sua mansão

Em 1967, o ano que, para Wyman, foi “o começo do fim”, Jones foi preso duas vezes por posse de drogas. No mesmo período, sua namorada Anita Pallenberg o abandonou – ela passou a namorar Keith Richards – depois que o músico a agrediu durante uma estadia no Marrocos. “Ele tomava LSD e saía pelas ruas dizendo ‘Vejam, há serpentes na calçada... o teto está pegando fogo!’ Nós éramos muito próximos, mas esses episódios se tornaram mais e mais frequentes”, relembra o baixista.

Brian com Anita Pallenberg, que o abandonou em 1967
Brian com Anita Pallenberg, que o abandonou em 1967

Nos dois anos seguintes, o comportamento cada vez mais conturbado de Jones levou a seu afastamento da banda durante as gravações do 10º LP, “Let It Bleed” (1969). “Foi uma decisão tomada por Mick, Keith e Andrew”, diz Wyman. Pete Townshend relembra uma das últimas vezes em que viu o amigo, ainda com os Stones: “Brian estava derrotado. Chamei Mick e Keith para conversar e eles foram muito francos: Brian não ‘funcionava’ mais. Não havia qualquer maldade na atitude deles, mas eles estavam determinados a não deixar que Brian atrapalhasse a banda”.

Para Paul Trynka, Brian tinha uma identificação com o deus grego Pan, que enxergava como uma espécie de encarnação do espírito do rock & roll. "Ele se via em uma jornada de busca. Tinha grande interesse pelo oculto e pelo diabo, como manifesto no blues. Ele estava muito mais avançado do que a maioria de seus colegas músicos da época, incluindo os outros stones, nas investigações sobre esse tipo de música", aponta o jornalista.


Mick Jagger e Brian Jones
Mick Jagger e Brian Jones

Menos de um mês depois de anunciar que estava fora dos Stones, Jones foi encontrado morto, aos 27 anos. Sua morte foi declarada pelas autoridades como uma “morte por desventura” (causas acidentais). Seu fígado e seu coração estavam gravemente afetados pelo excesso de drogas e de álcool. Em um editorial escrito pelo crítico musical Greil Marcus, a revista “Rolling Stone” resumiu seu legado: “Se Keith Richards e Mick Jagger são a mente e o corpo dos Stones, Brian Jones, que na maior parte do tempo ficou nas sombras, era claramente a alma... Ele já era um Rolling Stone antes de formar a banda, e viveu a vida de um verdadeiro Rolling Stone entre 1963 e 1969”.


Bill Wyman, Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones e Charlie Watts em 1968
Bill Wyman, Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones e Charlie Watts em 1968

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